O choro é livre sim.

Não gostaria que fosse numa ocasião como a de ontem, mas há tempos que venho ensaiando, tentando voltar a escrever e reativar o blog. O fato é que entre tantas obrigações, mudanças, responsabilidades e decisões nós acabamos por nos privarmos daquilo que de fato nos dá prazer também, é assim com todos, foi assim com este que vos escreve.

Agora, meia noite e doze, correndo o risco de prejudicar o dia de trabalho que está por vir, escrevo sobre algo que me fez voltar a colocar em palavras sentimentos que muitas vezes nos passam despercebidos. Particularmente, ter começado a escrever nesse blog há alguns anos atrás mudou minha vida e fez com que uma série de emoções antes reprimida em poucas falas tivesse expressão na linguagem escrita.

A tragédia ocorrida com o time da Chapecoense machucou demais. Quem me conhece sabe como respiro futebol desde que me conheço por gente, tenho um amor e predileção essencialmente pelos clubes pequenos, o futebol na América latina, a História e a Geografia que o futebol conta, o canto das torcidas. Escrevo que hoje é um dos dias mais tristes da minha vida, talvez até além da morte do Senna, porque hoje, a violência e a rapidez com que as vidas de jogadores, jornalistas e tripulantes foram tiradas se compara a de um empurrão daqueles que nos fazem cair no chão sem rumo.

Durante todo o dia senti um nó na garganta quando lembrava da comemoração narrada pelo Deva na Fox Sports, lembrei do espírito do Índio Condá tirando uma bola no último minuto de jogo. Senti duramente enquanto trabalhava no microscópio da Universidade que o ex-jogador e comentarista Mário Sérgio não estaria mais na tela do meu notebook quando fosse almoçar com minha namorada todos os dias, assim como o Vitorino e o PJ.

Conduzi isso durante todo o dia. A Chape, numa Chapecó de mais de 200.000 pessoas, que passaram certamente por um dos piores dias de suas histórias, homenagens por todo o mundo dos mais variados times, a comoção que isso gerou, o Corinthians usando o verde na sua página, enfim, eu conduzi e segurei isso tudo.

Mas eu não aguentei. Mas eu deveria aguentar?

Enquanto jantava e observava o Canalha na ESPN falar sobre o acontecido, o Mauro César segurar o choro, percebi instantaneamente que o motor de tudo isso foi o futebol. Esse esporte que alguns insistem em tentar estragar, era ele, na realidade, que estava por trás de tudo isso. Ao mesmo tempo que foi ele o gerador da tragédia, será por ele que ela será superada.

E quando percebi isso eu chorei. Chorei pelos jogadores, chorei pelos jornalistas, chorei pela violência da tragédia, chorei pelo futebol, chorei pelos amigos que também são loucos por futebol, chorei por mim, mas também chorei por ver e perceber um mundo que deu sinais de que nem tudo é algoritmo, nem tudo é ódio, nem tudo é intolerância.

Mesmo tendo a consciência de que para os celtas, para algumas tribos indígenas brasileiras e outras culturas orientais a morte não é algo que se deva tratar necessariamente com tristeza, acontecimentos como o de hoje tornam essa missão extremamente complexa.

Chore, pois o mundo, ao contrário do que as pessoas no facebook insistem em tentar lhe convencer, não é feito só de alegria e vitórias, as derrotas e as tristezas existem para balancear o universo.

Viva a Chape, viva os jornalistas da fox, globo e demais, viva os tripulantes, viva as pessoas, viva o futebol, e chore quando tiver vontade.

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Da defesa à Universidade Pública

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Embora sempre existam tentativas de colocar em pauta o “preço” das Universidades Públicas para os já combalidos cofres públicos, sobretudo em uma época de fim de festa à qual o Brasil vive neste momento, venho aqui fazer uma defesa da Universidade PÚBLICA, mas não nos moldes políticos e sim sob um ponto de vista fenomenológico, da percepção, ou seja, a minha experiência de 11 anos.

Alguns dias atrás fui obrigado a fazer um memorial para um concurso, para quem não sabe, num memorial você praticamente conta sua trajetória escolar. Nesse exercício fui obrigado a pensar na importância que a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) teve na minha formação.

Curioso como vivemos em ciclos. Na chegada o susto de algo tão grande e denso como uma universidade, sobretudo para alguém que sempre estudou em escolas públicas, ainda que boas. A fase da república durante a graduação, novas e velhas amizades, conviver com outros cursos, outras cabeças, amigos dos colegas de república. Tá aí uma grande vantagem da UNICAMP, o fato de juntar vários cursos de qualidade em um mesmo campus, todos eles convivendo harmonicamente ou não, dá a oportunidade para alguém como eu, que nunca tinha um ciclo de amizades tão eclético, levar experiências que só hoje consigo entender. Uma simples conversa no bandejão te acrescenta mais ou tanto quanto um livro inteiro de conceitos.

A fase da pós graduação também marca uma grande mudança, sobretudo no ciclo de amizades. Muitos da graduação já se foram, você acumula toda uma bagagem de experiências desse tempo, e encontra outras pessoas na mesma situação. Agora, se você tem bolsa, tem mais dinheiro (deixemos para outro momento a discussão sobre o valor das bolsas), tem ainda mais opções culturais. Não é fácil se adaptar e muitos não conseguem, a cobrança, apesar de não sentida no dia-a-dia, é muito maior e vem na forma de reuniões com o orientador, nos relatórios, nos artigos negados, nos prazos.

No doutorado você passa a um outro patamar, seu ciclo de amizades fica mais restrito. Daquele monte de gente que entrou na graduação e conviveu com você naquele tempo, poucos guerreiros restaram. Você está cada vez mais afogado na sua pesquisa, no entanto, as oportunidades também aumentam. Embora tenha surgido a notícia de que a CAPES tenha cortado TODAS as bolsas de doutorado sandwich, esse foi um período onde muitos conseguiram sair do país e aprender como funciona a dinâmica de pesquisa em outros centros, no meu caso, essa período foi essencial inclusive para a continuidade da minha pesquisa.

Na Unicamp, uma das coisas que sempre me irritou em algumas conversas foi: “Para que serve tal curso?”. A resposta mais completa seria: “Para que você não se torne um idiota!”. Pena que poucas vezes tive a oportunidade de dar essa resposta. Dentro da Geografia as perguntas e exclamações mais recorrentes são: “Isso é Geografia?”; “Mas isso é Geologia!”; “Geografia Humana não presta pra nada!”; “Geografia física não é Geografia!”. Geralmente essas indagações e exclamações dotadas de preconceito vêm daquelas pessoas que menos têm capacidade de respondê-las, daquelas que menos conseguiram absorver o que a interdisciplinaridade da Unicamp representa.

Através da Unicamp temos oportunidades diárias para não nos tornarmos idiotas, embora alguns, mesmo com todo o estímulo externo insistam em fazê-lo. Semana passada assisti a uma palestra com o renomado geógrafo David Harvey. Ontem fui ao teatro Castro Mendes assistir à uma peça dos alunos do quarto ano de graduação em Artes Cênicas, chamada “Pequenos Burgueses”. O evento durou três horas e no fim me bateu um sentimento bobo de orgulho de ter feito a mesma universidade que aquelas pessoas, embora tenha misturado também um pouco de raiva pelo fato de que eles até hoje não têm um espaço para poder trabalhar, já que o prédio destinado ao Instituto de Artes está parado por um erro grosseiro de projeto.

Enfim, sou extremamente grato à UNICAMP por poder proporcionar este tipo de aprendizado, algo que dificilmente uma faculdade privada pode proporcionar, e isso não é uma crítica, já que os investimentos realizados em uma universidade pública são infinitamente maiores. Embora a faculdade pública não seja para TODOS, e isso renderia um outro post, é lá que ocorre um dos meios mais democráticos do sistema capitalista, inclusive onde podemos discutí-lo de maneira mais franca.

Ajustes são necessários, nada é imutável, sobretudo em tempos de fim de festa como estes que o Brasil vive, portanto, principalmente agora é essencial que se respeite a UNIVERSIDADE PÚBLICA!

Mais Bukowski e menos religião

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Bukowski deveria ser leitura obrigatória nos vestibulares da vida. No seu romance “Misto quente” o autor trata de forma sarcástica os projetos de vida que nos são vendidos.

Fruto de uma relação entre um pai ex-combatente do exército e uma mãe submissa, Henri Chinaski (alter ego de Bukowski) é humilhado diariamente pela vida. Apanha do pai, é feio, não tem amigos na escola, tem problemas com espinhas e é violento, no fim passa a ser alcoólatra. O autor retrata uma faceta da sociedade americana na década de 30 que hoje grande parte do mundo não tem capacidade para reconhecer. Para a maioria da população não existe o sonho americano.

Uma característica de Chinaski deve ser ressaltada: sua independência moral. Chinaski não tem referenciais morais em que possa se basear, seu pai é um ignorante e sua mãe pouco interfere na sua educação, somando-se a isso a pobreza que o rodeia, a vida removeu do personagem quase 100% do senso crítico do que é certo e o que é errado. Chinaski reage a tudo com o ímpeto de quem não se baseia em nada para tomar decisões, isso não o torna um personagem bom, mas o torna autêntico. Por várias vezes trata com ironia  o sonho americano e o ideal de que naquele país há espaço para qualquer um que tenha disposição para trabalhar duro.

No Brasil vemos o Congresso brasileiro liderado por caras como Eduardo Cunha (PMDB), tentando colocar em prática ações que remontam à idade média como a lei da terceirização; o Estatuto da Família, que ataca os direitos já obtidos fruto de união homoafetiva; redução da maioridade penal para 16 anos e a revogação  do Estatuto do Desarmamento.

Cunha ainda nomeou a servidora Maria Madalena da Silva Carneiro para comandar a Diretoria de Recursos Humanos da Casa, setor com maior dotação orçamentária na Câmara. Madalena disse ao Congresso em Foco que Eduardo Cunha foi o “instrumento de Deus” para sua indicação à diretoria, mas negou que sua escolha tenha caráter religioso. Evangélica, advogada e teóloga, Maria Madalena foi nomeada sem passar por concurso público, seu cargo anterior consistia em guardar os livros nas estantes da biblioteca, anteriormente era responsável pela emissão de crachás.

Pouco tempo antes Eduardo Cunha aprovou projeto de resolução que dá ao próprio presidente da Câmara o poder de escolher o secretário de Comunicação Social da Casa durante o período do seu mandato. O escolhido foi Cleber Verde (PRB-MA), integrante da bancada evangélica e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

Além disso, os três são figurinhas carimbadas nos cultos evangélicos que vem acontecendo na Câmara, lugar este de cunho laico e que não deveria ser usado para tais manifestações religiosas, sejam elas de quaisquer orientação ou vertente ideológica.

Religião e política não deveriam se misturar. De fato, os maiores conflitos que observamos no planeta são oriundos dessa mistura perigosa. A Câmara dos deputados deveria ser o primeiro ambiente do aparato do Estado a não pautar suas decisões baseada em premissas religiosas, como agora acontece indiscriminadamente.

Precisamos de mais Bukowski e menos religião.

Protestos no Paraná: quando perdemos a vergonha na cara?

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Parece que agora sim podemos comparar uma manifestação que tem objetivo, ideais sérios e uma reivindicação clara com aquela que ocorreu no último dia 15/03/15, onde o objetivo era reclamar contra a falta de rocambole de goiabada nas padarias gourmet. Gritinhos genéricos contra corrupção e incentivos à volta dos militares é fácil amigo, isso não incomoda ninguém diretamente e os políticos acham até graça, a linda e glamourosa manifestação da “família” brasileira pelos bons costumes. Lá os policiais até faziam selfies com os “manifestantes”. Embora a manifestação contra o PT tenha seus motivos, não vi uma manifestação contra Paulo Maluf, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Renan Calheiros ou demais corruptos, talvez esteja aí o contrassenso, exigir correção apenas de uma parcela específica.

A cobertura da mídia no massacre que ocorreu no Paraná, com exceção de Ricardo Boechat na rede Bandeirantes, é inócua mais uma vez. Quando aborda o assunto, o faz de maneira tacanha e dissimulada, chama de confronto uma verdadeira batalha campal onde um dos lados foi massacrado.

Vamos aos fatos, afinal de contas, por que estão ocorrendo as manifestações em Curitiba? Nesta segunda feira a Assembléia Legislativa do Paraná aprovou por 31 votos a 21 o projeto do governo que reforma a Paranáprevidência.  A Paranáprevidência é composta por três fundos: o Militar, o financeiro e o Previdenciário.

Pela proposta, 33.556 beneficiários com 73 anos ou mais seriam transferidos do Fundo Financeiro para o Previdenciário, o primeiro é mantido com recursos do tesouro estadual e o segundo por contribuições dos servidores estaduais. Com essa mudança da origem do custeio, a administração economizaria mensalmente R$ 125 milhões. O governo afirma que o Fundo Previdenciário está capitalizado em mais de R$ 8,5 bilhões em investimentos e que todas as garantias dos funcionários seriam preservadas, os cálculos realizados pelos técnicos garantem a solvência do sistema por 29 anos, esse cálculo está condicionado ao reinício do repasse dos royalties da usina de Itaipu, ou seja, é incerto.

Pois bem, uma mudança como essa requer bastante discussão e esclarecimentos por parte do governo, e é exatamente o que as categorias afetadas queriam, mais tempo para entender a proposta e garantias de que o sistema continuaria funcionando. O projeto foi votado na segunda feira dia 27, com portas fechadas e cerco à assembléia, ou seja, os principais envolvidos foram mantidos fora das discussões inclusive com o apoio de medidas judiciais. O caldeirão esquentou. Na quarta feira (29) os deputados estaduais aprovaram, em segundo turno, as modificações propostas pelo governo, protegidos por um efetivo de 2000 homens da polícia militar.

O massacre ocorreu na praça em frente a Assembléia Estadual do Paraná, estima-se 180 pessoas feridas, 20 policiais e 160 professores. Um cinegrafista da rede Bandeirantes foi atacado por um pitbul da P.M. Bombas de efeito moral, gás de pimenta e violência marcaram a manifestação.

Beto Richa, acuado pelo rombo na sua administração produzida por ele mesmo, ataca os servidores e busca salvação onde é mais frágil a organização. Tudo geralmente estoura do lado mais fraco, ao invés de procurar uma solução administrativa dentro do próprio governo, ou pelo menos discutir a medida com os envolvidos de maneira clara, o governador prefere transferir seus problemas aos outros, por baixo dos panos e sem que ninguém possa acompanhar. Taxar o lucro dos bancos privados ninguém quer, mas mexer nos direitos de trabalhadores é mais fácil, o único jeito que eles tem de reclamar é fazer greve, e se fizerem, tomam porrada da polícia militar.

Importante ressaltar que 17 pms foram presos por se recusarem a atacar os manifestantes, ou seja, cuidado com generalizações*.

Richa ainda culpou os black blocs,  a CUT, o PT, o PSOL, o PSTU e pasmem, até o famigerado PMDB foi incluido no argumento deste senhor. Vejam o nível do governante que o Paraná escolheu para os próximos quatro anos. Por que não votamos as regras de aposentadoria dos poderes executivo, legislativo e judiciário? Óbvio, esses são organizados e estão com a máquina administrativa na mão, sabe quando isso teria futuro?

Isso mesmo.

Onde foi que perdemos nossa vergonha na cara? Agora também batemos nos professores, temos os piores resquícios de um governo fascista atuando em pleno século XXI. Não é motivo de orgulho?

Apenas pensando nos confrontos, a atitude do governo paranaense foi, no mínimo, covarde. Um dia triste com imagens muito fortes.

Não nos esqueçamos também dos professores da rede estadual paulista, que também estão em greve há mais de 30 dias, com uma pauta bem extensa de dificuldades enfrentadas e que precisam ser revistas, mas isso é assunto para outro post.

*Segundo reportagem do uol, os 17 policiais que teriam se recusado a participar da operação jamais existiram, segundo o comentário do Mateus neste post, lá também tem o link para a notícia.

Diminuição da maioridade penal: mais uma prova da nossa inocuidade política

Nas últimas semanas a câmara dos deputados deu mais uma prova da sua inocuidade política, com tantas questões urgentes a serem resolvidas em época de estagnação econômica, os nobres deputados se preocupam com uma medida totalmente paliativa, que praticamente inocenta o governo das suas responsabilidades previstas na Constituição.

Para quem não sabe ou não viu, a PEC 171/93 quer alterar os artigos 129 e 228 da Constituição Federal, acrescentando um parágrafo que prevê a possibilidade de desconsiderar a inimputabilidade penal de menores de 18 anos. Trocando em miúdos, isso quer dizer que continuarão sendo julgados nas varas da Infância e Juventude, mas se o Ministério Público desejar poderá pedir para desconsiderar inimputabilidade, ou seja, o juiz decidirá se o adolescente tem capacidade para responder por seus atos. O leitor mais rápido já está imaginando o tamanho da burocracia a ser criada e a enorme possibilidade de corrupção que será aberta em caso de aprovação, dado que, até o mais inocente cachorro de rua sabe que os juízes não são esse colosso de honestidade que o senso comum prega.

A população carcerária do Brasil em 2013 apresentava 581 mil detentos em dezembro de 2013, último dado oficial disponível (Infopen, 2013), tendo passado dos 600 mil em 2014 através de estimativas. Possui ainda a  quarta maior população carcerária mundial, atrás de Estados Unidos, China e Rússia. De 1995 a 2010, subiu 136%, percentual abaixo apenas daquele registrado na Indonésia (145%). Somos recordistas mundiais em homicídios, cerca de 60 mil por ano. Foram 37 mil mortes em 1995, 45 mil em 2000 e 56 mil em 2012, será que prender resolve?

espaço nas cadeias
Fonte: Carta Capital

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ranking de homicidios

Link para o relatório da OMS (organização mundial da saúde) em inglês.

Quando observamos as duas últimas figuras notamos que, embora o número de homicídios seja o valor absoluto, os países com maior população carcerária se repetem no gráfico de homicídios de 2012, ou seja, as políticas de encarceramento em massa não estão trazendo resultado satisfatório, sobretudo no Brasil, onde os dados são alarmantes.

Além disso, a superlotação das cadeias e a falta de um sistema prisional planejado faz com que praticamente não exista recuperação. Segundo o juiz Luís Geraldo Sant’ana Lanfredi, “Presídio é um ambiente criminógeno. Prender deveria ser exceção, não regra”. O complexo penitenciário de Recife é exemplo da falta de eficiência do sistema, planejado para abrigar 2 mil detentos, recebe 7 mil atualmente, lá não faltam foices, homicídios, torturas, tudo denunciado pela mídia. Em caso de aprovação, a PEC colocaria lado a lado as organizações criminosas e os jovens de 16 anos, facilitando a cooptação por parte dos detentos.

Nos 54 países que reduziram a maioridade penal não se registrou redução da violência. A Espanha e a Alemanha voltaram atrás na decisão de criminalizar menores de 18 anos. Hoje, 70% dos países estabelecem 18 anos como idade penal mínima. Entre os que não adotam essa medida, Estados Unidos e Rússia, dois dos países que se encontram entre aqueles com maior número absoluto de homicídios.

A Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Publica) estima que os menores de 16 a 18 anos são responsáveis por 0,9% do total dos crimes praticados no Brasil. Se considerados apenas homicídios e tentativas de homicídio, o percentual cai para 0,5%. Ou seja, estamos gastando tempo numa discussão que resolverá 1% dos problemas, e quanto às discussões mais amplas de educação? Políticas carcerárias? Não, quanto a isso muito pouco tem sido feito, e é o que de fato seria mais efetivo no ataque ao problema.

Enfim, não vou enumerar os muitos argumentos contra a aprovação da PEC, eles estão espalhados pela internet e você pode consultá-los nos links no fim do texto, assim como os argumentos à favor. Apenas concluo que é neste período onde o brasileiro reclama e vai para as ruas pedir mais eficiência dos governantes e mais planejamento, é, ao mesmo tempo, o período em que também quer tomar medidas imediatas sem que qualquer cenário futuro seja discutido, essa é a contradição que tanto nos marca, se Sérgio Buarque de Holanda ainda fosse vivo, certamente teria que incluir esse novo traço na identidade do brasileiro.

Não comentarei também a citação de trechos da bíblia no texto da proposta de emenda constitucional, algo que usa desse tipo de subterfúgio como argumentação apenas revela como nossa câmara é fraca também no aspecto jurídico e intelectual.

Os bandidos que mais assolam o Brasil estão no legislativo (possuem imunidade parlamentar), no judiciário, no executivo e em alguns órgãos privados como empreiteiras e bancos, será que eles têm entre 16 e 18 anos? E você achando que a diminuição da maioridade penal fará o país menos criminoso e violento.

Links

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-morte-de-eduardo-e-a-maioridade-penal-6009.html

http://www.cartacapital.com.br/revista/838/se-cadeia-resolvesse-4312.html

https://18razoes.wordpress.com/quem-somos/

http://noticias.terra.com.br/brasil/reducao-da-maioridade-penal-segue-na-contramao-mundial,b5bb9cbae7e8c410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

http://nelcisgomes.jusbrasil.com.br/noticias/116624331/todos-os-paises-que-reduziram-a-maioridade-penal-nao-diminuiram-a-violencia

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/07/pec-da-reducao-da-maioridade-penal-cita-biblia-e-e-criticada-por-teologos.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/03/31/veja-cinco-motivos-a-favor-e-cinco-contra-a-reducao-da-maioridade-penal.htm

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/segundo-ministerio-da-justica-menores-cometem-menos-de-1-dos-crimes-no-pais/

http://www.metrojornal.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-maior-numero-de-homicidios-do-mundo-aponta-oms-150509

Quão idiota e machista as propagandas de cerveja podem ser?

Não sou um paladino da moralidade, no entanto, o que as propagandas de cerveja têm veiculado de ideais machistas é algo que preocupa, ou melhor dizendo, constrange até o menos feminista dos seres humanos.

A grande realidade é que propagandas como a que a Itaipava (e ela não é a única) veiculou durante o verão prestam um grande deserviço à sociedade, estimulando a idiotice masculina e tornando a mulher simplesmente aquele adereço que é capaz de nos fornecer cerveja, mas nunca são tratadas como consumidoras.

Assisto pouco televisão, se você é como eu, vou refrescar a sua memória. A propaganda da Itaipava mostra uma mulher chamada Vera, padrão das propagandas publicitárias: peito siliconado; neste caso morena (mas poderia ser uma loira), saia curta e magra. Toda a complexidade da propaganda resume-se ao fato de que a mulher é a garçonete e serve alguns homens idiotas que dizem “Vai Verão” e “Vem Verão” dependendo do rumo que ela toma para os servir, sempre com os olhos fixos no corpo da atriz.

A propaganda só reforça o comportamento mais idiota que o homem pode ter, como se fosse um animal irracional olhando para a sua caça, um pedaço de carne com o qual ele sonha comer (ambos os sentidos aqui se encaixam) e depois descartar a carcaça. A noção de objeto aqui está mais do que clara. Além disso, como mencionei no segundo parágrafo, poucas propagandas tratam a mulher como consumidora, quando, em muitos casos é ela que está no bar bebendo com as amigas. A mulher é retratada como um simples objeto que leva a cerveja, satisfaz seu homem, e se retira de cena, não há interação. Quando retratada de outra forma, aparece na pele da esposa que cobra o marido por estar no bar bebendo, mais caricato e bobo impossível. Na visão das agências, quem se diverte é apenas o homem.

Em outra propaganda, bom, tirem suas próprias conclusões:

Itaipava, pedindo para o consumidor escolher quantos mLs de silicone preferir

Para não ser injusto, a Skol também tem propagandas “memoráveis”. A que a empresa usou neste carnaval beira a falta de escrúpulos, o slogan era: “Deixe o não em casa” ou algo do tipo. Carnaval, por si só, implica uma série de problemas de conotação sexual, revela inclusive o quanto o brasileiro é mal resolvido com sua sexualidade, uma propaganda como esta, além do péssimo gosto e da noção de que a mulher ao dizer “não” nega o carnaval, também traz a noção de que o seu corpo é o “portador do prazer” e que este deve ser de uso geral para o público, negando, com isso, todas as outras formas de prazer que podem ser experimentadas, inclusive as não sexuais.

As agências de publicidade têm de agir com responsabilidade, óbvio que o leitor sabe que não é o fato de assistir a uma propaganda que o fará agir da mesma maneira, no entanto, tais propagandas de cervejas de massa chegam aos rincões mais longínquos do Brasil, atingindo inclusive crianças. Passar valores assim para milhões de pessoas é totalmente contraproducente. A propaganda militar não foi capaz de fazer com que as pessoas clamassem pelo seu retorno nos protestos do dia 15/03? Pois bem, se a propaganda consegue convencer as pessoas a respeito de uma estupidez como esta, não vejo porque não o faria em outras situações.

Para ter uma idéia do quão idiota uma propaganda pode ser, olhem como a Skol retrata suas clientes:

Você mulher, observe o que você é para a Skol.
Você, mulher, observe o que você é para a Skol.

Antes de tomarmos os rumos de uma questão de gênero, deveríamos discutir aqui a noção de ética e respeito, ou a falta de ambos. Por isso cada vez mais observamos comportamentos absurdos nas festas e “baladas” que refletem este tipo de valor social que é comum à grande parte da população, fato é que isto se retroalimenta não só nas propagandas publicitárias de cerveja, mas nas músicas, no sertanejo universitário, enfim, o machismo encontra muitas ramificações onde pode se inserir.

E que fique claro que não estou discutindo a qualidade dos produtos ou fazendo juízo de valor de qualquer segmento social que consuma tais mercadorias, aqui estou apenas refletindo sobre o tipo de estratégia de mercado das empresas.

As agências publicitárias justificam que as mensagens não têm qualquer conotação senão aquela humorística. Muitos dizem que quem levanta essas bandeiras é chato, implicante, pedante, entre outras coisas.

Se você acha que isso é apenas uma questão de implicância, de certo, você é o consumidor(a) que o mercado quer.

O retorno da boçalidade e a incompetência petista

Bom, após 3 meses de inatividade finalmente retorno à escrita no blog, foi um longo período onde o exame de qualificação de doutorado acabou por “atrapalhar” minhas atividades por aqui. Amigo, quando a água bate na bunda aí você se mexe, dança, rebola, e algo tem que perder, no meu caso, o blog.

Enfim, sem mais desculpinhas esfarrapadas, volto ao cenário político atual. Está organizado um “protesto” para dia 15 de março, legítimo, diga-se de passage (A lá Neto), onde a principal reivindicação pede o impeachment da presidenta Dilma. Quem está por trás disso? Movimento Vem pra Rua (denunciado NESSE BLOG como sendo financiado pelo diretor da Ambev) e setores ligados à direita, com apoio de alguns partidos de oposição, entre eles o nosso querido e idolatrado (em SP): PSDB.

Óbvio que essa efervescência é captaneada pelo estado de São Paulo, inclusive tem o apoio político de determinados setores da imprensa e do próprio governador, mas vamos deixar isso para o fim do texto. Os protestos ocorrem num momento de estagnação da economia, pois batemos no teto do que é possível desenvolver sem que haja outras reformas estruturais, além disso, a crise no planalto também está instaurada.

A declaração de Dilma no domingo foi acompanhada é claro pelo panelaço gourmet, porém, ao contrário do que o diretório do partido inocentemente tem justificado, não é uma insatisfação burguesa contra um governo de esquerda, outras classes sociais estão indo a reboque e engrossando o caldo da insatisfação. Parte dessa insatisfação foi provocada pelo próprio PT, nomeação de ministros e loteamentos de cargo em função de alianças eleitorais; medidas econômicas que pouco os distanciam das medidas já tomadas por outros governos para enfrentar crises; enfim, ingredientes não faltam.

A própria postura petista incomoda, apanham por todos os lados, de direita a esquerda, de cima em baixo, e pouco vieram a público para rebater essas pancadas que tomaram e, quando o fizeram, o fizeram na hora errada. Há uma crise instaurada em função da Lava Jato, onde o palácio quer ver o sangue do PMDB, e este quer anular Dilma nas votações do congresso.

Soma-se a isso o relatório de Janot, que livra a cara deslavada de Aécio Neves e também de Dilma. O senhor Aécio que bradava antes da CPI que tudo deveria ser investigado, “doa a quem doer”, mas que na suspeita de investigação do swissleaks do HSBC também pediu cautela nas investigações. É o mesmo senhor que disse que apóia a manifestação mas não vai participar, é claro, tem coisa melhor pra fazer, trouxa são os outros que acreditam nele.

Voltando ao apoio do governador estadual aos protestos, a secretaria de segurança pública acaba de mudar o horário do jogo do Palmeiras x XV de Piracicaba para às 11hs do próximo domingo, inicialmente marcado para às 16hs.  Pasmem, em função do protesto, e observe que o jogo é com o XV de Piracicaba, ou seja, não é esperado um confronto entre as duas “rivais” torcidas, 100 policiais dariam conta de fazer o espetáculo, ou seja, não é uma questão de logística, é política. Nos protestos de 2013 não lembro de nenhum jogo ter sido mudado de horário, embora aquele protesto, a exemplo deste, não tenha mudado rigorosamente nada na nossa política.

Enquanto isso, o “exemplo” Joaquim Barbosa compara o mesmo protesto à queda da Bastilha e à revolução russa de 1917. Ele apenas inverteu os papéis, se fosse como a cabeça tola de Barbosa pensa, os Marinho e as classes dominantes estariam neste momento comprando suas passagens para Miami, no entanto, são elas quem estão comandando/influenciando as iniciativas.

Outra coisa que me incomada, e fazia tempo que não incomodava, é a parcialidade da imprensa. Divulgam aqui e acolá matérias sobre Lava Jato, gente xingando a Dilma em São Paulo, mas não aquelas que a beijaram no Norte. Também se esquecem que no estado de São Paulo passamos por uma crise hídrica que é eminentemente política, que até a presidente Dilma mostrou não entender no seu discurso realizado no último domingo, pois pra ela a crise é climática. Não falam dos esquemas dos trens metropolitanos onde o governo estadual está sujo até as tampas, e o que mais me choca, a população também vive numa espécie de Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, ninguém sabe de nada, tá tudo muito bom, a culpa de tudo é do PT, inclusive da crise hídrica.

Para não deixar o post muito extenso, creio que o protesto do dia 15 é legítimo até o ponto onde não se pede impeachment, pois aí é outra coisa amigo, aí é golpe mesmo, já que o Brasil elegeu seus representantes legalmente. Ainda assim, acho que será um tiro no pé, pois o que veremos de pessoas pedindo pela volta das forças armadas será algo notório, e isso até o mais inocente cachorro de rua sabe que seria uma catástrofe sem precedentes.

Encerro com uma figura mostrada por um amigo a alguns dias atrás, mostrando o papel de cada um na sociedade e o poder de decisão:

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Olhem bem onde estão os políticos eleitos. Agora olhem quem está acima deles. Agora entenda porque nenhum lobby foi feito pela investigação e divulgação do swissleaks e as contas milionárias colocadas no paraíso fiscal da Suiça, que esconde dinheiro sujo, inclusive com participação da imprensa. Detalhe: na França foram feitos esforços para que isso se tornasse público, por aqui, o engavetamento foi geral.

Conselho 1: quando for por culpa nos políticos, embora exista uma preferência em atrelar todos os problemas desde a primeira república do Brasil ao PT, sempre reflita e lembre-se que os políticos agem em função de favores e dinheiro que lhes são impostos por gente acima deles, da qual eles tomam benefício e se misturam, mas, indubitavelmente, eles não estão sozinhos na bandalheira toda.

Conselho 2: Capitalismo é bom para quem tem dinheiro, poder de decisão e influência, amigo, você, se não for governante ou juiz de direito, está lascado, os três poderes estão nas mãos de outros. Para você o capitalismo não funciona.

Conselho 3: Antes de se achar mais importante do que o lixeiro ou a empregada doméstica e os desprezá-los, lembre-se que perante o nosso sistema, vocês são iguais: não são nada, a diferença é que você pode ganhar um pouco mais, mas essencialmente não valem nada para o sistema.