A destruição dos grandes sistemas fluviais tropicais.

Em volta aos grandes conflitos sociais envolvidos na construção da hidrelétrica do rio Xingu, poucos dão importância para o rio Madeira.

Foz do Madeira e do Negro com o Amazonas
Foz do Madeira e do Negro com o Amazonas

É o maior afluente do Amazonas, quinto maior do mundo em termos de vazão média anual (32.000 m3/s), 3 vezes a vazão do rio Xingu e 80 vezes maior que as vazões do rio Pardo e rio Mogi Guaçu, dois dos maiores rios do estado de São Paulo, para que possamos ter parâmetro de comparação. Produz mais carga sedimentar (sediment yield) que o próprio Amazonas (330t/km2/ano), contribuindo com mais de 50% da carga sedimentar em suspensão carregada pelo mesmo. Quando comparamos com outros gigantes, o rio Negro (6o do mundo em vazão) e o rio Congo (2o), que produzem 11,5 e 9t/km2/ano, respectivamente, conseguimos ter a dimensão da importância do rio Madeira para a bacia Amazônica. Seus afluentes que drenam os Andes peruanos e bolivianos também são caracterizados por possuir alta carga sedimentar em suspensão e alta produção de sedimentos.

A construção da barragem no rio Madeira funcionaria como uma armadilha para a retenção de sedimentos na área à montante da usina hidrelétrica, neste caso, grande parte dos sedimentos em suspensão que alimentam o rio Amazonas hoje ficariam retidos. Isso traria consequências desastrosas para um sistema fluvial tão complexo, já que alteraria todo o balanço de sedimentos que são armazenados na planície fluvial do Amazonas, limitando a chegada de nutrientes em certas áreas. Além disto, existem depósitos auríferos na planície do Madeira, estamos entulhando ouro pra poder produzir energia elétrica sem qualquer cuidado…

Outra importante alteração será no sumidouro destes sedimentos, ou seja, a pluma de sedimentos armazenados na foz do Amazonas junto ao oceano atlântico, que inclusive tem influência até no clima. Pouco têm se falado da barbaridade que consiste tais obras. Todos os holofotes estão sobre o rio Xingu que, é claro, possui suas particularidades sociais, mas do ponto de vista dos impactos, é menos danoso do que o Madeira.

Quanto à transposição do São Francisco, ao longo dos últimos anos, a vazão medida no velho Chico vem caindo paulatinamente devido à construção de barragens, especialmente as de Sobradinho e Xingó. A vazão caiu de 3169m3/s para 1654m3/s no período de 1959 a 2004, medido na estação de Piranhas (Fontes et. al, 2010), ou seja, uma queda de quase 50% da vazão original em menos de 50 anos.

Obras da transposição do São Francisco
Obras da transposição do São Francisco

A transposição prevê a capacidade máxima de transporte dos eixos leste e norte de 99 m3/s, sendo que o eixo norte retiraria 29 m3/s do rio para o abastecimento de 390 municípios. O que se discute é que hoje há um roll enorme de áreas com obras para melhorar o abastecimento nos locais mais necessitados, que não necessitariam de uma obra tão impactante no meio físico. Após as construções das hidrelétricas de sobradinho e Xingó os efeitos foram acentuados, surgiram focos erosionais no baixo curso que antes não existiam, a concentração de sedimentos caiu de 70mg/l em 1970 para 27mg/l após a construção da barragem de Sobradinho, depois da barragem de Xingó, nos anos 2000 e 2001, oscilou entre 4 e 8mg/l (Fontes et al., 2010). Isso é drástico, pois muito do aporte dos nutrientes carregados pelo rio e depositados nas planícies fluviais chegam em menores quantidades, nesse sentido, há um problema de ordem da manutenção da fertilidade do vale do São Francisco.

Enfim, dos 10 maiores rios do mundo (em vazão média anual), 5 estão no Brasil:

 1) Amazonas

2) Congo

3) Orinoco

4) Yangtzé

5) Madeira

6) Negro

7) Brahamaputra

8) Japurá

9) Paraná

10) Mississippi

Estamos destruindo a todos sem qualquer discussão SÉRIA sobre o assunto, discussões que incluam geomorfologistas fluviais brasileiros, aqueles que, em teoria, deveriam opinar e colocar na balança qual tipo de desenvolvimento queremos e a que custo.

Leituras usadas e sugeridas:

Fontes, L.C., Latrubesse, E., Holanda, F.S., Aquino, S. (2010). Major Hydrological Changes and Bank Erosion in the Lower São Francisco River, Brazil, as a consequence of dams. In: C. Garcia, M., Latrubesse, E., Perillo G. (Eds). RCEM 2009 River Coastal and Estuarine Morphodynamics, Vol. 1 and 2., CRC Press-Taylor Francis Group, Netherlands, 131-136.

Latrubesse, E. M., Stevaux, J. C., and Sinha, R., 2005, Tropical rivers: Geomorphology, v. 70, p. 187-206.

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