Quão idiota e machista as propagandas de cerveja podem ser?

Não sou um paladino da moralidade, no entanto, o que as propagandas de cerveja têm veiculado de ideais machistas é algo que preocupa, ou melhor dizendo, constrange até o menos feminista dos seres humanos.

A grande realidade é que propagandas como a que a Itaipava (e ela não é a única) veiculou durante o verão prestam um grande deserviço à sociedade, estimulando a idiotice masculina e tornando a mulher simplesmente aquele adereço que é capaz de nos fornecer cerveja, mas nunca são tratadas como consumidoras.

Assisto pouco televisão, se você é como eu, vou refrescar a sua memória. A propaganda da Itaipava mostra uma mulher chamada Vera, padrão das propagandas publicitárias: peito siliconado; neste caso morena (mas poderia ser uma loira), saia curta e magra. Toda a complexidade da propaganda resume-se ao fato de que a mulher é a garçonete e serve alguns homens idiotas que dizem “Vai Verão” e “Vem Verão” dependendo do rumo que ela toma para os servir, sempre com os olhos fixos no corpo da atriz.

A propaganda só reforça o comportamento mais idiota que o homem pode ter, como se fosse um animal irracional olhando para a sua caça, um pedaço de carne com o qual ele sonha comer (ambos os sentidos aqui se encaixam) e depois descartar a carcaça. A noção de objeto aqui está mais do que clara. Além disso, como mencionei no segundo parágrafo, poucas propagandas tratam a mulher como consumidora, quando, em muitos casos é ela que está no bar bebendo com as amigas. A mulher é retratada como um simples objeto que leva a cerveja, satisfaz seu homem, e se retira de cena, não há interação. Quando retratada de outra forma, aparece na pele da esposa que cobra o marido por estar no bar bebendo, mais caricato e bobo impossível. Na visão das agências, quem se diverte é apenas o homem.

Em outra propaganda, bom, tirem suas próprias conclusões:

Itaipava, pedindo para o consumidor escolher quantos mLs de silicone preferir

Para não ser injusto, a Skol também tem propagandas “memoráveis”. A que a empresa usou neste carnaval beira a falta de escrúpulos, o slogan era: “Deixe o não em casa” ou algo do tipo. Carnaval, por si só, implica uma série de problemas de conotação sexual, revela inclusive o quanto o brasileiro é mal resolvido com sua sexualidade, uma propaganda como esta, além do péssimo gosto e da noção de que a mulher ao dizer “não” nega o carnaval, também traz a noção de que o seu corpo é o “portador do prazer” e que este deve ser de uso geral para o público, negando, com isso, todas as outras formas de prazer que podem ser experimentadas, inclusive as não sexuais.

As agências de publicidade têm de agir com responsabilidade, óbvio que o leitor sabe que não é o fato de assistir a uma propaganda que o fará agir da mesma maneira, no entanto, tais propagandas de cervejas de massa chegam aos rincões mais longínquos do Brasil, atingindo inclusive crianças. Passar valores assim para milhões de pessoas é totalmente contraproducente. A propaganda militar não foi capaz de fazer com que as pessoas clamassem pelo seu retorno nos protestos do dia 15/03? Pois bem, se a propaganda consegue convencer as pessoas a respeito de uma estupidez como esta, não vejo porque não o faria em outras situações.

Para ter uma idéia do quão idiota uma propaganda pode ser, olhem como a Skol retrata suas clientes:

Você mulher, observe o que você é para a Skol.
Você, mulher, observe o que você é para a Skol.

Antes de tomarmos os rumos de uma questão de gênero, deveríamos discutir aqui a noção de ética e respeito, ou a falta de ambos. Por isso cada vez mais observamos comportamentos absurdos nas festas e “baladas” que refletem este tipo de valor social que é comum à grande parte da população, fato é que isto se retroalimenta não só nas propagandas publicitárias de cerveja, mas nas músicas, no sertanejo universitário, enfim, o machismo encontra muitas ramificações onde pode se inserir.

E que fique claro que não estou discutindo a qualidade dos produtos ou fazendo juízo de valor de qualquer segmento social que consuma tais mercadorias, aqui estou apenas refletindo sobre o tipo de estratégia de mercado das empresas.

As agências publicitárias justificam que as mensagens não têm qualquer conotação senão aquela humorística. Muitos dizem que quem levanta essas bandeiras é chato, implicante, pedante, entre outras coisas.

Se você acha que isso é apenas uma questão de implicância, de certo, você é o consumidor(a) que o mercado quer.

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3 comentários sobre “Quão idiota e machista as propagandas de cerveja podem ser?

  1. Quando a propaganda usa esse tipo de estratégia rasteira para chamar atenção é porque precisa desviar os olhos do produto que vende. No caso, realmente de baixa qualidade

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      1. Sempre suspeite quando o foco não é próprio produto. Por mais que o marketing seja enganador, veja uma propaganda de carro por exemplo: mesmo que todas também abusem de models etc, elas pelo menos apresentam as características do produto. Não é o caso das cervejas, praticamente nenhuma delas. Nem estou querendo dar uma de beerchato não, é que realmente não há foco no produto, apenas desvio de atenção e exploração sexual

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