Da defesa à Universidade Pública

universidades publicas

Embora sempre existam tentativas de colocar em pauta o “preço” das Universidades Públicas para os já combalidos cofres públicos, sobretudo em uma época de fim de festa à qual o Brasil vive neste momento, venho aqui fazer uma defesa da Universidade PÚBLICA, mas não nos moldes políticos e sim sob um ponto de vista fenomenológico, da percepção, ou seja, a minha experiência de 11 anos.

Alguns dias atrás fui obrigado a fazer um memorial para um concurso, para quem não sabe, num memorial você praticamente conta sua trajetória escolar. Nesse exercício fui obrigado a pensar na importância que a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) teve na minha formação.

Curioso como vivemos em ciclos. Na chegada o susto de algo tão grande e denso como uma universidade, sobretudo para alguém que sempre estudou em escolas públicas, ainda que boas. A fase da república durante a graduação, novas e velhas amizades, conviver com outros cursos, outras cabeças, amigos dos colegas de república. Tá aí uma grande vantagem da UNICAMP, o fato de juntar vários cursos de qualidade em um mesmo campus, todos eles convivendo harmonicamente ou não, dá a oportunidade para alguém como eu, que nunca tinha um ciclo de amizades tão eclético, levar experiências que só hoje consigo entender. Uma simples conversa no bandejão te acrescenta mais ou tanto quanto um livro inteiro de conceitos.

A fase da pós graduação também marca uma grande mudança, sobretudo no ciclo de amizades. Muitos da graduação já se foram, você acumula toda uma bagagem de experiências desse tempo, e encontra outras pessoas na mesma situação. Agora, se você tem bolsa, tem mais dinheiro (deixemos para outro momento a discussão sobre o valor das bolsas), tem ainda mais opções culturais. Não é fácil se adaptar e muitos não conseguem, a cobrança, apesar de não sentida no dia-a-dia, é muito maior e vem na forma de reuniões com o orientador, nos relatórios, nos artigos negados, nos prazos.

No doutorado você passa a um outro patamar, seu ciclo de amizades fica mais restrito. Daquele monte de gente que entrou na graduação e conviveu com você naquele tempo, poucos guerreiros restaram. Você está cada vez mais afogado na sua pesquisa, no entanto, as oportunidades também aumentam. Embora tenha surgido a notícia de que a CAPES tenha cortado TODAS as bolsas de doutorado sandwich, esse foi um período onde muitos conseguiram sair do país e aprender como funciona a dinâmica de pesquisa em outros centros, no meu caso, essa período foi essencial inclusive para a continuidade da minha pesquisa.

Na Unicamp, uma das coisas que sempre me irritou em algumas conversas foi: “Para que serve tal curso?”. A resposta mais completa seria: “Para que você não se torne um idiota!”. Pena que poucas vezes tive a oportunidade de dar essa resposta. Dentro da Geografia as perguntas e exclamações mais recorrentes são: “Isso é Geografia?”; “Mas isso é Geologia!”; “Geografia Humana não presta pra nada!”; “Geografia física não é Geografia!”. Geralmente essas indagações e exclamações dotadas de preconceito vêm daquelas pessoas que menos têm capacidade de respondê-las, daquelas que menos conseguiram absorver o que a interdisciplinaridade da Unicamp representa.

Através da Unicamp temos oportunidades diárias para não nos tornarmos idiotas, embora alguns, mesmo com todo o estímulo externo insistam em fazê-lo. Semana passada assisti a uma palestra com o renomado geógrafo David Harvey. Ontem fui ao teatro Castro Mendes assistir à uma peça dos alunos do quarto ano de graduação em Artes Cênicas, chamada “Pequenos Burgueses”. O evento durou três horas e no fim me bateu um sentimento bobo de orgulho de ter feito a mesma universidade que aquelas pessoas, embora tenha misturado também um pouco de raiva pelo fato de que eles até hoje não têm um espaço para poder trabalhar, já que o prédio destinado ao Instituto de Artes está parado por um erro grosseiro de projeto.

Enfim, sou extremamente grato à UNICAMP por poder proporcionar este tipo de aprendizado, algo que dificilmente uma faculdade privada pode proporcionar, e isso não é uma crítica, já que os investimentos realizados em uma universidade pública são infinitamente maiores. Embora a faculdade pública não seja para TODOS, e isso renderia um outro post, é lá que ocorre um dos meios mais democráticos do sistema capitalista, inclusive onde podemos discutí-lo de maneira mais franca.

Ajustes são necessários, nada é imutável, sobretudo em tempos de fim de festa como estes que o Brasil vive, portanto, principalmente agora é essencial que se respeite a UNIVERSIDADE PÚBLICA!

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