O retorno da boçalidade e a incompetência petista

Bom, após 3 meses de inatividade finalmente retorno à escrita no blog, foi um longo período onde o exame de qualificação de doutorado acabou por “atrapalhar” minhas atividades por aqui. Amigo, quando a água bate na bunda aí você se mexe, dança, rebola, e algo tem que perder, no meu caso, o blog.

Enfim, sem mais desculpinhas esfarrapadas, volto ao cenário político atual. Está organizado um “protesto” para dia 15 de março, legítimo, diga-se de passage (A lá Neto), onde a principal reivindicação pede o impeachment da presidenta Dilma. Quem está por trás disso? Movimento Vem pra Rua (denunciado NESSE BLOG como sendo financiado pelo diretor da Ambev) e setores ligados à direita, com apoio de alguns partidos de oposição, entre eles o nosso querido e idolatrado (em SP): PSDB.

Óbvio que essa efervescência é captaneada pelo estado de São Paulo, inclusive tem o apoio político de determinados setores da imprensa e do próprio governador, mas vamos deixar isso para o fim do texto. Os protestos ocorrem num momento de estagnação da economia, pois batemos no teto do que é possível desenvolver sem que haja outras reformas estruturais, além disso, a crise no planalto também está instaurada.

A declaração de Dilma no domingo foi acompanhada é claro pelo panelaço gourmet, porém, ao contrário do que o diretório do partido inocentemente tem justificado, não é uma insatisfação burguesa contra um governo de esquerda, outras classes sociais estão indo a reboque e engrossando o caldo da insatisfação. Parte dessa insatisfação foi provocada pelo próprio PT, nomeação de ministros e loteamentos de cargo em função de alianças eleitorais; medidas econômicas que pouco os distanciam das medidas já tomadas por outros governos para enfrentar crises; enfim, ingredientes não faltam.

A própria postura petista incomoda, apanham por todos os lados, de direita a esquerda, de cima em baixo, e pouco vieram a público para rebater essas pancadas que tomaram e, quando o fizeram, o fizeram na hora errada. Há uma crise instaurada em função da Lava Jato, onde o palácio quer ver o sangue do PMDB, e este quer anular Dilma nas votações do congresso.

Soma-se a isso o relatório de Janot, que livra a cara deslavada de Aécio Neves e também de Dilma. O senhor Aécio que bradava antes da CPI que tudo deveria ser investigado, “doa a quem doer”, mas que na suspeita de investigação do swissleaks do HSBC também pediu cautela nas investigações. É o mesmo senhor que disse que apóia a manifestação mas não vai participar, é claro, tem coisa melhor pra fazer, trouxa são os outros que acreditam nele.

Voltando ao apoio do governador estadual aos protestos, a secretaria de segurança pública acaba de mudar o horário do jogo do Palmeiras x XV de Piracicaba para às 11hs do próximo domingo, inicialmente marcado para às 16hs.  Pasmem, em função do protesto, e observe que o jogo é com o XV de Piracicaba, ou seja, não é esperado um confronto entre as duas “rivais” torcidas, 100 policiais dariam conta de fazer o espetáculo, ou seja, não é uma questão de logística, é política. Nos protestos de 2013 não lembro de nenhum jogo ter sido mudado de horário, embora aquele protesto, a exemplo deste, não tenha mudado rigorosamente nada na nossa política.

Enquanto isso, o “exemplo” Joaquim Barbosa compara o mesmo protesto à queda da Bastilha e à revolução russa de 1917. Ele apenas inverteu os papéis, se fosse como a cabeça tola de Barbosa pensa, os Marinho e as classes dominantes estariam neste momento comprando suas passagens para Miami, no entanto, são elas quem estão comandando/influenciando as iniciativas.

Outra coisa que me incomada, e fazia tempo que não incomodava, é a parcialidade da imprensa. Divulgam aqui e acolá matérias sobre Lava Jato, gente xingando a Dilma em São Paulo, mas não aquelas que a beijaram no Norte. Também se esquecem que no estado de São Paulo passamos por uma crise hídrica que é eminentemente política, que até a presidente Dilma mostrou não entender no seu discurso realizado no último domingo, pois pra ela a crise é climática. Não falam dos esquemas dos trens metropolitanos onde o governo estadual está sujo até as tampas, e o que mais me choca, a população também vive numa espécie de Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, ninguém sabe de nada, tá tudo muito bom, a culpa de tudo é do PT, inclusive da crise hídrica.

Para não deixar o post muito extenso, creio que o protesto do dia 15 é legítimo até o ponto onde não se pede impeachment, pois aí é outra coisa amigo, aí é golpe mesmo, já que o Brasil elegeu seus representantes legalmente. Ainda assim, acho que será um tiro no pé, pois o que veremos de pessoas pedindo pela volta das forças armadas será algo notório, e isso até o mais inocente cachorro de rua sabe que seria uma catástrofe sem precedentes.

Encerro com uma figura mostrada por um amigo a alguns dias atrás, mostrando o papel de cada um na sociedade e o poder de decisão:

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Olhem bem onde estão os políticos eleitos. Agora olhem quem está acima deles. Agora entenda porque nenhum lobby foi feito pela investigação e divulgação do swissleaks e as contas milionárias colocadas no paraíso fiscal da Suiça, que esconde dinheiro sujo, inclusive com participação da imprensa. Detalhe: na França foram feitos esforços para que isso se tornasse público, por aqui, o engavetamento foi geral.

Conselho 1: quando for por culpa nos políticos, embora exista uma preferência em atrelar todos os problemas desde a primeira república do Brasil ao PT, sempre reflita e lembre-se que os políticos agem em função de favores e dinheiro que lhes são impostos por gente acima deles, da qual eles tomam benefício e se misturam, mas, indubitavelmente, eles não estão sozinhos na bandalheira toda.

Conselho 2: Capitalismo é bom para quem tem dinheiro, poder de decisão e influência, amigo, você, se não for governante ou juiz de direito, está lascado, os três poderes estão nas mãos de outros. Para você o capitalismo não funciona.

Conselho 3: Antes de se achar mais importante do que o lixeiro ou a empregada doméstica e os desprezá-los, lembre-se que perante o nosso sistema, vocês são iguais: não são nada, a diferença é que você pode ganhar um pouco mais, mas essencialmente não valem nada para o sistema.

A Berlim que eu conheci

Este ano marcou as comemorações dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da divisão entre países socialistas e capitalistas no pós guerra, denominado Guerra Fria.

Berlim foi praticamente loteada no fim da segunda Guerra Mundial, os exércitos dos países que haviam ocupado a cidade se estabeleceram em determinadas regiões e passaram a governar exercendo o poder político e ideológico que marcaria o conflito no pós-guerra.

774px-Berlin_Blockade-map.svgEm 1949 os aliados oficialmente se retiraram de Berlim ocidental, após uma grande esforço para suprir a cidade com matéria prima, comida, e outras ajudas essenciais, todo este esforço custou aos aliados entre 2.2 e 5 bilhões de dólares, onde um avião pousava a cada 30 segundos no lado ocidental de Berlim.

Toda a ajuda internacional somadas a incompetência de um modelo que apesar de socialista era extremamente autoritário, fizeram com que diferenças entre os dois lados de Berlim surgissem e fossem evidentes: o lado capitalista, puxado pela ajuda internacional prosperava e entregava uma promessa de liberdade aos cidadãos; o lado oriental apesar de não passar dificuldades extremas evoluía num ritmo bem menos acelerado.

Com as diferenças tornando-se cada vez mais claras, começaram a ocorrer movimentos migratórios do lado oriental para o ocidental, isso começou a preocupar Stalin e os governantes da GDR (German Democratic Republic), que era governada pelo Partido Socialista Unificado da Alemanha desde as eleições de 1949, resultado da União do Partido Comunista Alemão e do Partido Social-Democrata Alemão, antes perseguidos por Hittler no regime fascista. Tal preocupação tomou corpo em 1961 com a construção do muro de Berlim, que impedia que os cidadãos do lado oriental pudessem passar ao lado ocidental, movimento este permitido nos anos anteriores.

Visitando os museus da cidade, que são ótimos e numerosos, percebe-se que há um certo rancor principalmente quando a história do vencido é contada, ou seja, quando se caracteriza o regime socialista. De fato, o regime foi extremamente autoritário, a STASI, Ministério para a segurança do Estado agia de forma inteligente e investigativa com apoio inclusive da KGB (Orgão de inteligência russo). Perseguia e torturava aqueles que “conspiravam” contra o Estado ou aqueles que planejavam abandonar Berlim oriental, para melhor entender a sua atuação, sugiro o filme “The Lives of Others”, lançado em 2006 que retrata um caso de investigação de pessoas ligadas ao teatro e a literatura que eram espionados pela STASI.

No entanto, governos autoritários de direita já ocorreram, sobretudo na nossa América Latina e no Brasil, que acabou de publicar o relatório resultado das pesquisas realizadas pela Comissão da Verdade. Quando se compara os indicadores sociais de Berlin Oriental percebe-se que não eram tão atrasados assim, principalmente se comparados com outros países àquela época, inclusive as diferenças em relação ao lado ocidental existiam mas também não eram drásticas.

Além disso, o regime socialista tinha como objetivo o longo prazo, no entanto, a sociedade e os cidadãos daquela época não podiam esperar, a repressão também jogou contra e uma série de manifestações ocorreram de ambos os lados. É claro que estou aqui fazendo algumas reflexões de alguém que passou alguns dias em Berlim e não pode entender como foi esse período da história, no entanto, acho interessante compartilhar essas inquietações porque acho que o maior erro do regime foi o autoritarismo, aliado à influência russa, o que implodiu o regime socialista em Berlim oriental.

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Expectativa de vida em Berlim Ocidental e Oriental. Notar que apesar de existir diferença, os dados da DDR eram bons para o período, tanto isso era verdade que estes dados eram usados pela propaganda comunista soviética. Foto tirada no museu da Alemanha Oriental (http://www.ddr-museum.de/en.

Este post tem o tom de uma provocação, chamando o leitor a entender que há necessidade de obter informação de ambos os lados da história, pois ela contada pela ótica do vencedor provavelmente omitirá alguns dados que são importantes. Quando se visita Berlim atualmente, se tem a idéia de que nada funcionava no lado oriental, no entanto, aprofundando um pouco mais no tema fatalmente chegamos a conclusão de que isso não é totalmente verdade.

Os setores de educação funcionavam muito bem, não a toa eram alvo de propaganda do regime. A questão da igualdade sexual era abordada nos primeiros anos da história escolar, o estado já tinha políticas para métodos contraceptivos e aborto, além disso, o sexo antes do casamento era algo aceito pela sociedade.

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Foto também do DDR museum (http://www.ddr-museum.de/en).
Foto tirada no DDR musem (http://www.ddr-museum.de/en). Não sei qual parte do trecho é verdade, se é o último parágrafo ou o resto do texto.
Foto tirada no DDR musem (http://www.ddr-museum.de/en). Não sei qual parte do trecho é verdade, se é o último parágrafo ou o resto do texto.

Por fim, aqui não discuti a Alemanha antes de 1945 e as atrocidades cometidas contra os judeus, no entanto, percebi que Berlim apesar de extremamente organizada, disciplinada e bonita, deixa um pouco a desejar quanto a um aspecto que não se pode medir: relações sociais.

Senti que ali há uma gélida e estática maneira de conduzir as relações pessoais, não há muita conversa, não há troca de gentilezas entre as pessoas, enfim, em comparação com os EUA, Portugal, Argentina, Chile e França, países que já visitei, este foi o local onde mais me senti estrangeiro. Aqui o leitor pode discordar porque cada um sente e percebe as coisas de maneira diferente.

O post foi longo, mas espero que tenha despertado algo neste que agora lê estas últimas linhas: raiva, concordância, curiosidade e discordância, prefiro os dois últimos.

P.S: Nos protestos contra a eleição da Dilma também poderiam gritar “Volta pra Berlim Oriental” ao invés do já batido “Volta pra Cuba”. Em tempo: o dia que o PT for socialista/comunista eu passo a ser corinthiano.

As arenas e a nova territorialização do campeonato brasileiro de futebol

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Arena Amazônia

É claro que por ser geógrafo o meu título descambou para o território, mas de fato, o título é muito mais pretencioso do que aquilo que vou escrever neste post, que será extremamente simples.

Tenho ouvido os tradicionais do futebol vociferar contra a venda de jogos para as novas arenas, como por exemplo, Santos X São Paulo em Cuiabá, Botafogo e Flamengo na arena Amazonas, ou ainda o fantástico jogo de futsal em Brasília que levou quase 60.000 pessoas. Todos os jogos com renda infinitamente superiores às que seriam obtidas se os jogos tivessem acontecidos nas praças tradicionais.

O Santos é um caso que conheço. Tem média inferior a 8.000 pessoas por jogo, contra o São Paulo na Vila, levaria no máximo umas 10.000 pessoas, em Cuiabá levou 34.000. O Flamengo levou 40.000 pessoas em Manaus contra o Botafogo (mando do Bota), Botafogo e Corinthians levaram 20.000. Enfim, as arenas que não estão em praças movimentadas, essencialmente Brasília, Manaus e Cuiabá funcionam como vetores de eventos futebolísticos para estes locais, pois anteriormente essas regiões viviam apenas com seus campeonatos estaduais, em geral fracos, e pitadas da Copa do Brasil, nesse sentido, as arenas colocaram estes locais no mapa do campeonato brasileiro da série A, ampliando a dimensão territorial do anterior campeonato nacional então restrito à região sul/sudeste e às vezes nordeste.

Longe de insinuar qualquer tipo de integração através das arenas, as discussões ao final das últimas eleições presidenciais nos provaram, essencialmente aos paulistas, que precisamos conhecer mais a realidade das outras regiões e, assim como o João Bigarella pensa, um dos maiores geólogos do mundo, precisamos fazer mais trabalhos de campo não só apenas no sentido de compreender os sistemas naturais, como é o principal viés dele, mas também conhecer os costumes regionais, as tradições, a cultura e aspectos políticos.

Somos um país culturalmente rico demais e precisamos nos conhecer melhor.

Lembrando que essa é uma prática comum na NFL americana e na liga universitária de futebol americano, que inclusive, posso relatar com conhecimento de causa pois no período em que estive por lá os torcedores se deslocavam para ir ver o time da sua universidade jogar, certa vez estive em San Antonio e ali haveria um jogo entre University of Texas (Texas Longhorns) e Baylor ou West Virginia, não me lembro ao certo, e por toda a cidade encontrava torcedores dos dois times consumindo a cidade literalmente, tanto culturalmente quanto explorando as culturas locais, comidas típicas e cervejarias antes dos jogos.

Guarani e Ponte Preta, dois times tradicionais de São Paulo, têm a chance de construir novas arenas e dar algum conforto aos seus torcedores, é claro que não é necessário e nem deve ser no padrão FIFA, que encarece e dificulta a manutenção no longo prazo, estes clubes têm que lidar diariamente com um tradicionalismo que prejudica a evolução natural do produto futebol e impedem a substituição dos arcaicos estádios do Moisés Lucarelli e do Brinco de Ouro por outros locais mais modernos e condizentes com a realidade atual dos clubes.

Estádios simples porém modernos, como os de Joinvile e o D. Afonso Henriques (onde joga o vitória de Guimarães) custaram menos de 100 milhões de reais, este último, posso lhes assegurar que é bastante aconchegante, além do que estádios pequenos fazem mais pressão, o que pode ser um fator positivo.

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Estádio do Vitória Guimarães, onde assisti um grande clássico da segunda liga portuguesa: Vitória de Guimarães B x Chaves. A essência da segunda divisão me acompanha em qualquer lugar do mundo.

Enfim, em tempos onde os piores ideais conservadores parecem querer assombrar a política do país, que estes tradionalismos retrógrados possam cair para que outras tradições possam florescer no tão agonizante futebol brasileiro.

O porquê de não conseguir odiar o Corinthians

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Torço contra, discuto, zico, vibro quando perde, vibrei demais quando caiu para a série B, vibrei bastante semana passada quando tomaram uma virada espetacular do Atlético-MG, mas nunca consegui odiá-los.

Este senhor, cujo nome lembra o grande filósofo grego, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira desempenhou um papel fundamental na história brasileira e não permite que eu consiga desprezar um momento tão importante dos corinthianos, o movimento criado por Washington Olivetto denominado “democracia corinthiana”.

Em tempos onde a direita coloca suas mangas de fora, lembro do importante papel exercido pelos corinthianos através de Sócrates, Vladimir, Casagrande e outros. Ali existia uma ilha de democracia cercada por um cenário opressor, ditatorial, retrógrado e conservador. Ali se jogava por prazer, o momento de ir ao campo não era a obrigação, era o clímax, palavras do próprio Dr. Sócrates. O bixo, era dividido até com os funcionários do clube.

Ver o clube jogar com a camisa “dia 15 vote”, em alusão as eleições para governador do estado de São Paulo, exercia o papel de chamar a população ao voto e pressionar os militares para que também o fizessem na sucessão presidencial.  No documentário produzido pela ESPN, “Democracia em preto e branco”, percebi que existem vários elementos que nos fazem contrair uma dívida de gratidão junto ao Corinthians em função do papel essencial exercido num meio onde o que impera é a alienação.

O documentário é narrado pela voz de Rita Lee, outra figura pouco explorada na história política brasileira mas de valor incomensurável e conta com a participação de outros encorajadores da democracia, como Fafá de Belém, que para minha surpresa apoia o candidato Aécio Neves nessas eleições.

Um dos pontos altos do documentário é o momento onde a emenda constitucional proposta por Dante de Oliveira em 1984, que acabava com o colégio eleitoral e restabelecia eleições diretas não foi aprovada por 22 votos, sendo Maluf, à época, um dos principais articuladores contrários à medida. Olhar o rosto dos manifestantes, entre eles Sócrates e Casagrande, os olhos marejados de lágrimas e com uma expressão completamente vaga e atônita após a recusa da emenda nos traz um pouco daquele momento, a partir dali, até o próprio Corinthians não seria mais o mesmo.

Em contraposição ao que publiquei no post anterior, quando vejo posições como as de Sócrates e o pedido de demissão do jornalista Xico Sá porque estava sendo bloqueado na Folha por apoiar Dilma, passo a restabelecer minha fé e esperança de que ainda há pessoas que fazem a vida valer a pena, que ainda há espaço para emoções e há uma resistência à onde de ódio e indiferença que insiste em querer dominar a sociedade brasileira.

Enfim, como vi o documentário ontem e fiquei bastante emocionado, me senti obrigado a prestar uma homenagem àquele que foi meu maior ídolo no futebol, mesmo sem ter assistido a uma única partida oficial sua.

Obrigado Sócrates por ter existido e tornado o futebol uma ferramenta de contestação política e de difusão de idéias novas.

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Do ato de perder a fé no SER humano

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Coloco em letras maiúsculas mesmo porque falta praticar o ato de ser e se sentir humano, muito embora muitos cachorros o façam melhor do que pessoas.

Num cenário onde impera a idiotização, o facebook tornou-se uma grande ferramenta que nos ajuda a conhecer a ignorância do ser humano e até onde ela pode chegar. No caso brasileiro isso é levado às últimas consequências.

Ver o paulista reeleger o seu governador com 57% dos votos válidos não é nada assustador quando olhamos para os eleitos da câmara dos deputados e dos senadores de vários estados. Classificada como a mais conservadora desde 1964, a câmara para os próximos quatro anos terá Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro também (sim, elegeram eles também, família reunida),  Celso Russomano, Jardel, Collor, filho de Renan Calheiros (governador de Alagoas), filho de Jader Barbalho foi para o segundo turno para o governo do Pará, Bruno Covas, José Serra, Marco Feliciano e por aí vai. Interessante lembrar que as manifestações de junho de 2013 pediam mudanças e avanços na área política e social, o resultado foi a eleição de uma bancada extremamente conservadora composta por militares, religiosos e ruralistas.

Não bastasse isso, o facebook nos mostra o lado mais vil e cruel do ser humano. Debates sobre a diminuição da maioridade penal terminam com desejos de que aquele que é contra seja atingido por algum ato criminoso cometido por um menor, até por parte dos religiosos esse desejo pelo sangue está presente. Tais pessoas deveriam ser as primeiras a brigar por um conjunto de medidas e programas sociais para que o pobre que ela tanto teme não venha a subtrair algum bem do seu patrimônio. Pois bem, ela faz justamente o contrário, briga para que o pobre continue miserável e para que a polícia puna os criminosos, este tipo de gente não entende que sob tais condições sociais, prende-se um e aparecem mais dois assaltantes, o problema, neste exemplo, não está na punição, está no motivo pelo qual o ser humano é levado a cometer um crime e correr riscos, quanto menos oportunidades, mais ele vai assaltar, roubar e matar.

Vômitos idiotas sobre os programas sociais também estão na moda, já perdi a conta de quanta estupidez já foi escrita e reproduzida também por universitários (incluindo aqueles que foram para o exterior e deveriam ter uma visão mais ampla), sobre o bolsa família e auxílio reclusão. No entanto, quando Fernando Henrique Cardoso declara que o PT consegue se eleger baseado no voto dos menos esclarecidos ele também prova o quanto é mal intencionado. Ou seja, a idiotice do brasileiro é geral, não dá pra atribuir a uma determinada classe social o privilégio de ser idiota. Portanto, se o FHC, com doutorado na Sorbonne dá este tipo de declaração, e como ele a maioria da classe média se idiotiza igualmente, o que esperar das demais pessoas completamente soltas nesse molho bizarro que é a política brasileira?

Determinadas declarações têm passado do cunho político e entrado no ramo da maldade, da falta de educação, na falta de ética e, sobretudo, na falta de humanidade. Exemplos como aquele dado pela torcida do Grêmio há alguma semanas atrás colocam em cheque a minha fé no ser humano.

O único alento que consigo me apegar é ao bom desempenho de legendas como o PSOL, através de figuras como Luciano Genro, Ivan Valente, Jean Wyllys, Marcelo Freixo que tiveram grande alcance e terão papel fundamental para propor e discutir medidas sociais, além disso, terão que lidar com uma bancada extremamente conservadora e inflamada pela idiotização de uma população que vota sem qualquer critério. Além disso, a eleição de Flávio Dino do PC do B no Maranhão derrotando o candidato de Sarney também coloca o foco numa gestão inovadora que poderá ser realizada naquele estado, para o bem ou para o mal, mas queremos mudanças, não?

A cada quatro anos o brasileiro descobre que o país está uma merda e deveria ser a Alemanha, a Suécia ou a Noruega, concentra todos os seus esforços políticos em tirar a figura do presidente ou governador do cargo e se esquece que política é feita nos bastidores, nas câmaras de deputados e vereadores, nas assembléias legislativas estaduais, no senado, na surdina.

E aí elege a bancada mais conservadora possível…

A outra história haitiana

tropas-estrangeiras-haitiEx-colônia francesa, a história do Haiti vem ganhando bastante espaço na mídia internacional, sobretudo no Brasil, país que participa ativamente na tentativa de “estabilização política” através de “missões de paz” realizadas pelo seu exército. As aspas se fazem necessárias porque nós raramente paramos pra pensar qual a dimensão das palavras e expressões com que somos bombardeados diariamente, incluindo este autor.

Primeiro país latinoamericano a tornar-se independente, o país sofreu com seguidas ditaduras e uma crônica crise social e econômica desde então. Quando colônia, chegou a competir no mercado internacional com o açúcar brasileiro no séc.XVIII. Por sua posição estratégica na América Central, caminho do canal do Panamá que liga as três Américas e pela possibilidade de controle inclusive do território de Cuba, o país foi alvo de intervenções americanas desde o início do séc XX.

Em 1993, após seguidos golpes militares, Jean Bertrand Aristide é reconduzido ao poder com auxílio dos Estados Unidos, ele havia sido eleito em 1990 com 67% dos votos. Naquele mesmo ano (1993), grupos paramilitares impediram o desembarque de soldados norte-americanos integrantes de uma força de paz da Onu, em 1994 o mesmo órgão decretou bloqueio total ao país. A junta militar que governava o país após a deposição de Aristide em 1990 empossou um civil para exercer a presidência até as eleições de 1995, que foi denunciada como ilegal pelos EUA. Neste momento a ONU autoriza a intervenção militar, liderada pelos americanos. Como resultado, Aristide foi reconduzido ao poder e teve que lidar com um cenário de destruição, além do bloqueio comercial e crises sociais.

Sua reeleição em 2000 foi marcada pela suspeita de manipulação, em 2004 o exército deu início a um golpe militar que culminou com a condução de Aristides ao seu asilo na África do Sul. É neste ponto que a participação brasileira toma corpo no país, o presidente interino requisitou assistência das Nações Unidas para auxílio na transição política e segurança interna. Foi criado então o MINUSTAH (Missão Nacional das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti) pelo conselho de segurança da ONU, que seria liderada pelo Brasil mas que possuia ajuda de outros países como Argentina, Bolívia, Chade, Chile entre outros.

Segundo o pesquisador haitiano Franck Seguy, que defendeu tese de doutorado na Unicamp com o título A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, a atuação brasileira no país faz parte de um projeto subimperialista em busca de uma cadeira no conselho de segurança da ONU.

Para o pesquisador, o Brasil à época sob o governo Lula, queria mostrar aos atores da política internacional que era capaz de lidar com a situação, sendo portanto merecedor de um posto de maior destaque na ONU. Seguy vai ainda além, denuncia que esta ação imperialista do Brasil também tem motivação econômica, já que o Haiti oferece uma extensão para o mercado brasileiro no setor têxtil, além disso, José Alencar, à época vice presidente, era um dos maiores empresários do mundo no setor, sendo o filho dele bastante atuante naquele país. Segundo o autor, um estudo realizado antes do terremoto de 2010 por um economista chamado Paul Collier apontava que a mão de obra mais barata existente era a haitiana, ainda mais barata que a chinesa.

Definindo a questão, Seguy aponta que estes dois fatores explicam porque o Brasil ocupa o Haiti e presta este serviço terceirizado ao imperialismo. Para ele os EUA terceirizaram o papel imperialista a outros países, por esse motivo encontram-se lá militares brasileiros, chilenos, bolivianos, paraguaios, uruguaios, senegaleses entre outros.

Voltando ao primeiro parágrafo do texto, onde as aspas foram usadas na palavra estabilização, Seguy aponta que a “missão de paz” nada mais é do que uma garantia da ordem vigente, ou seja, precariedade, manutenção do trabalhador ganhando 4 dólares/dia. Para ele o papel da Minustah é reprimir movimentos sociais e operários de um modo geral.

Claro que a grande mídia mostra um soldado brasileiro ajudando alguém individualmente, chorando, para mostrar o soldado brasileiro como um sujeito simpático e sensível à miséria humana. Claro que a grande mídia faz isso, para enganar quem não vai analisar com profundidade. Mas quem convive com os haitianos sabe que o Exército está fazendo um papel muito repressivo em relação ao povo.

O episódio da morte do general brasileiro Urano Teixeira da Mata Bacelar, oficialmente considerada como suicídio, pode ser alvo de manipulação pois há indícios da perícia que refutam essa tese, além disso, o general naquele período havia contestado uma ordem oficial dizendo que os haitianos não precisavam de repressão, mas sim de ajuda pra sair da miséria. Ainda não se sabe ao certo as circunstâncias de sua morte.

A fragilidade do Haiti é gritante, o terremoto de 2010 de 7.2 na escala Richter matou 300.000 pessoas, enquanto um evento de 8.9 no Chile fez 100 vítimas. Esta somatória de atenuantes faz com que haja elevada migração de haitianos para outros países, sobretudo o Brasil, conforme parcialmente explorado em texto anterior para o site Causas Perdidas (LINK). No entanto, ao contrário do que foi mostrado por nós neste texto, o pesquisador haitiano diz que mais de 80% daqueles que possuem diploma superior está fora do país, e que no Canadá, somente em Quebec, existem mais médicos haitianos do que no próprio Haiti, ou seja, apenas a fração menos qualificada é aquela que está migrando para o Brasil.

Migração esta que já foi alvo de discussão acalorada entre o governador do Acre Tião Viana e Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o segundo acusava o primeiro de “enviar” haitianos para São Paulo sem qualquer tipo de preparação ou estrutura.

Este texto traz uma série de informações novas a respeito da questão haitiana, uma outra história, um outro lado de ver a questão, o mais importante, o lado de um pesquisador que entende in loco o xadrez geopolítico envolvido. Ou seja, o Brasil exerce, em menor escala, o papel imperialista que tanto criticou nos EUA, e começa a sentir os efeitos colaterais de suas ações, como o desejo do povo haitiano de que a MINUSTAH saia do país imediatamente.

A impressão que nos dá é a de que o sonho do oprimido é ser o opressor, nem que pra isso tenha que jogar o seu jogo sujo.

Links:

http://www.brasildefato.com.br/node/28632

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Haiti

Dossiê Jango (Paulo Henrique Fontenelle, 2013) – Uma parte da história que não foi contada

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É sempre difícil escrever sobre um filme ou documentário porque sempre paira a chance de um spoiler nas entrelinhas. Mas neste post gostaria de comentar bem rapidamente algumas reflexões sobre o período de deposição do ex-presidente João Goulart desde o golpe militar de 1 de Abril de 1964 e seus desdobramentos, tema do documentário Dossiê Jango, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

O documentário conta com algumas gravações da época, inclusive uma que chamou-me a atenção foi a do então presidente americano Lyndon Johson, conversando sobre o complô armado entre militares e governadores brasileiros para derrubar Jango, Johnson chega a mencionar que a operação deveria inclusive seguir os moldes daquela realizada no controle do canal do Panamá. Enfim, são muitos os diálogos interessantes com os principais envolvidos no conflito, é uma obra que deve ser assistida por nós brasileiros, inclusive agora em tempos de eleição. Esse período da história é pouco estudado no Brasil, pouco se fala de Jango e dos desdobramentos da sua deposição nos livros didáticos, nesse sentido entendo que a comissão da verdade tem um papel essencial para que seja feito o resgate dos fatos e, inclusive, julgar e punir os culpados ainda vivos.

Por que Jango foi deposto? Jango tinha mais de 80% de popularidade, havia promovido mudanças sociais importantes, tinha avanços também na questão agrária, no entanto, apesar de ser um exímio capitalista, já que possuía muitas terras em seu nome, foi constantemente acusado pelos opositores de ser comunista, palavra chave para começar qualquer ataque político. O golpe teve apoio também da armada americana, que se preparava para dar apoio, no entanto, o recuo de Jango para evitar uma guerra civil dispensou a ajuda. Mal sabiam, mas ali começava um longo período de repressão, estendendo-se à toda a América Latina.

Do seu exílio em São Borja-RS, percebeu que se quisesse voltar ao Brasil teria que se aliar a antigos desafetos, incluindo o jornalista Carlos Lacerda. Formou-se então a chamada Frente Ampla, que reunia também o ex-presidente Juscelino Kubitschek e surgia como opção política aos militares, que temiam pelo crescimento do levante.

Nesse momento entra em cena a Operação Condor, uma aliança política e militar entre os vários regimes sulamericanos e a CIA americana, com o objetivo de reprimir líderes de esquerda que se opunham às ditaduras e de algum modo se aproximavam de Fidel Castro. Repressão leia-se assassinatos.

As circunstâncias da morte de Jango foram no mínimo estranhas. A versão oficial dá conta de que ele teve um ataque cardíaco, no entanto, não foi feita autópsia no corpo, o que alimenta a tese de um possível envenenamento já que, como relatado no documentário, entre todas as pessoas envolvidas na investigação de sua morte, 18 morreram, incluindo Zelmar Michelini e Gutierrez Ruiz, amigos de Jango e politicos uruguaios que foram sequestrados e assassinados dois anos depois. Na operação Condor havia pesquisas sobre compostos químicos capazes de acelerar o batimento cardíaco com o objetivo de assassinar sem levantar suspeitas, o que se encaixaria na circunstância da morte de Jango. No entanto, essa tese exigiria a existência de um agente duplo, alguém ligado a Jango sob ordens da operação Condor. Além disso, JK, oficialmente morto em acidente de carro também suscita dúvida, já que a exumação do corpo do seu motorista naquele dia indicou uma perfuração no crânio, provavelmente devido a um projétil.

Tentativas de investigação sempre esbarraram na resistência de políticos e da própria esposa de Jango, sobre a qual também pairam suspeitas de envolvimento no caso. Segundo o empresário uruguaio Enrique Foch Diaz e Mário Neira, agente da operação Condor que investigava a vida de Jango à época, a tese do envenenamento é clara e irrefutável. Para o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, que conviveu com Jango no exílio, a tese do envenenamento não se sustenta e ainda critica duramente o uruguaio Mario Neira e também o filho de Jango, João Vicente, que continua a investigar e pedir indenizações para os governos brasileiro e americano, para o historiador, Jango tinha sérios problemas cardíacos e morreu devido a essas complicações.

Aqui relatei os fatos de uma maneira que provavelmente confundiu ainda mais o leitor, portanto, sugiro encarecidamente que vejam o documentário e tirem suas próprias conclusões.