Vai passar. O brilhante fim da melhor Copa de uma geração.

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Hoje tomei a liberdade de pular uma sequência de posts que tinha planejado, onde iria relatar minhas experiências assistindo aos jogos da copa 2014. Portanto, o diário de um apaixonado pelo futebol parte II ficará para uma próxima oportunidade.

Vai passar. O último dia após a Copa soa para este autor como se fosse a noite que não terminou, com aquela ressaca que dói até n’alma. Acho que a letra da música “End of the night” da banda de punk celta americana Dropkick Murphys resume bem o fim desse torneio:

We live for the weekend, each city’s the same,
There’s a bar on the corner
where they don’t know your name.
There’s plenty of drinks, they’ve been savin’ your chair.
It’s our second home, we ain’t goin’ nowhere.

It’s the end, end of the night.
But we ain’t goin’ home.

Como diria nosso glorioso Galvão: “Amigo, acabou…” Mas nós não iremos pra casa, não ainda. Foi o fim da melhor copa que as pessoas da minha geração tiveram oportunidade de ver, os nascidos na década de 80, ao meu ver, não viram nenhuma copa melhor do que esta. Talvez a de 1998, com aqueles golaços (o meu preferido é o do Dennis Bergkamp contra a Argentina).

Com toda a desconfiança de determinados setores da imprensa, governo e da própria população, conseguimos organizar um evento de grande porte, no qual eu fui a favor desde o começo, mesmo com a certeza de que teriam falhas. E aqui aproveito pra fazer um adendo, pois a máfia dos ingressos escancarada pela polícia carioca é um exemplo de que não somos tão mal educados e corruptos quanto muitos adoram vociferar pelas redes sociais. Nunca a Fifa havia sido investigada tão de perto como foi aqui. Mais um adendo àqueles que adoram colocar comparações entre o Brasil e a Alemanha quanto a aspectos que claramente nos são desfavoráveis, e ninguém se orgulha disso, no entanto, o fato de gostar e discutir futebol não me deixa cego quanto a outros fatores que devemos melhorar como país.

Já o Brasil dentro de campo mostrou que está em situação complicada. Ou muda na raiz agora, e com isso conto com o bom senso do próprio Bom Senso através do Paulo André -ex Corinthians e dos políticos pra que mudem a CBF, caso contrário continuaremos onde estamos. E ao leitor que me chamar de oportunista, convido-o a ler meu post sobre o futebol no dia 27 de maio, onde tive a pretensão de analisar nossas competições nacionais e já alertava para a penúria administrativa em que vivemos. Aqui está o LINK.

Mais ainda do que o jogo contra a Alemanha onde fomos batidos por sete tentos, a decisão do terceiro lugar contra a Holanda nos mostrou o quanto somos dependentes de um jogador, o quanto não sabemos jogar coletivamente. Nossos volantes estavam a 100m uns dos outros, passes errados, pouco ímpeto na movimentação ofensiva foram alguns dos ingredientes que nos levaram a tomar outra goleada. Essa tão feia quanto a primeira.

Técnicamente não somos ruins, temos jogadores que são destaques nos seus clubes, embora já tenhamos sido melhores. Então o que ocorre?

A pressão pelo resultado nos atrapalhou? Pode ser, mas não justifica.

A convocação foi mal feita? Não, ou o caro leitor acha que com Robinho, Kaká e Ronaldinho Gaúcho a coisa seria diferente?

Se o leitor está me seguindo já sabe onde vamos chegar. Primeiro, não somos mais os melhores do mundo, não temos os melhores jogadores e isso é natural, mas precisamos entender isso e ser humildes. Segundo, nossos campeonatos não empolgam nem a Globo mais, e por que isso ocorre?

Podemos enumerar os fatores: um calendário esdrúxulo; horários de jogos absurdos, divisão de verbas totalmente desigual – e aqui existem exemplos que podem ser seguidos, como na própria Alemanha, onde a verba de televisão é dividida igualmente entre os clubes, ou na Inglaterra, onde 70% é dividido e o restante é distribuído em função do desempenho. Quando olho a verba dos grandes no campeonato paulista e a dos clubes do interior, lembro o quão assassina as federações regionais e a CBF têm sido para o futebol brasileiro. Assassinando os clubes do interior as federações aniquilam todo o trabalho de base que poderia revelar jogadores, e além deles, os técnicos.

O post é longo e a revolta também, mas vou tentar finalizar.

Neste domingo torci pra Alemanha, e não foi pela tal rivalidade com a Argentina, que muitos têm entendido como rivalidade contra o povo e o país, mas apenas uma rivalidade sadia. Peço licença novamente para fazer um terceiro e último adendo, vi muita gente legal escrevendo besteira nas redes sociais a respeito de torcer contra a Argentina, geralmente tais pessoas jamais pisaram num campo de futebol ou sequer chutaram uma bola pra entender que a rivalidade é sadia e só passa dos limites quando usada por torcedores que não respeitam uns aos outros. A rivalidade é ótima, do contrário teríamos um público chato como o do tênis nas arquibancadas, sem alma, sem vida.

Assisti ao jogo Argentina e Suiça ao lado deste Argentino. Eu, claro, torci pra Suiça, ele, pela sua Argentina. Conversamos bastante sobre a situação do futebol dos dois países, inclusive entre os intervalos da música "Brasil decime que se siente..."e alguns berros meus com o time suiço. Torcer contra a Argentina no futebol não tem problema algum e é sadio, principalmente quando há respeito entre os torcedores.
Assisti ao jogo Argentina e Suiça ao lado deste Argentino. Eu, claro, torci pra Suiça, ele, pela sua Argentina. Conversamos bastante sobre a situação do futebol dos dois países, nos provocamos, gritamos, inclusive entre os intervalos da música “Brasil decime que se siente…” e digo que foi divertido pra caramba, uma experiência fantástica. Torcer contra a Argentina no futebol não tem problema algum e é sadio, principalmente quando há respeito entre os torcedores.

Torci pela Alemanha porque entendo que o futebol praticado por ela a tempos é maravilhoso, é coletivo, é solidário, é divertido, é irresponsavelmente ofensivo, é simpático. Para nossos irmãos Argentinos que contribuíram demais para as arquibancadas com suas músicas e entusiasmo, o meu muito obrigado por virem e por tornarem os estádios menos leitecomperizados. Lutaram bastante e até tiveram grandes chances de ganhar, Higuain e Messi tiveram suas chances.

O que dizer de Robben e de sua Holanda? Da França com seu jovem e promissor Pogba? Da garra Uruguaia? Da irreverência Colombiana?

Amigos, foi ótimo recebê-los por aqui, voltem sempre!

Reforço: é hora de modificar a CBF e as federações estaduais e isso tem que partir de quem financia o futebol, Ministério dos Esportes e rede Globo, pois é ela inclusive o maior credor (ao lado do próprio governo) dos clubes brasileiros. Só assim chegaremos nas competições não para ganhar, pois sempre somos favoritos, mas pra jogar um futebol que resgate os valores lúdicos de se divertir com o jogo, com alguma organização dentro e fora de campo.

Homenagem do Homer ao gordo mais sujo do planeta.
Homenagem do Homer ao gordo mais sujo do planeta.

 

A falsa rivalidade Brasil-Argentina: origem ibérica e vômito militar

Brasil-Argentina

A rivalidade entre Brasil e Argentina sempre foi bastante exacerbada, principalmente no meio futebolístico, onde geralmente se concentra a grande parcela ignorante da população de ambos países.

No cenário político, as disputas começam com conflitos entre os colonizadores Espanha e Portugal no que tange à divisão das bacias Platina e Amazônica. Brasil e Argentina herdam essa disputa e entram no século XIX trocando farpas nas guerras platinas, impulsionada pelo fato de que ambos os países conseguem sua independência neste período.

A partir da década de 60 (séc. XX), Argentina e  Brasil, ambos em ditaduras, passam por diferentes cenários externos. A Argentina via a construção da hidrelétrica de Itaipu entre Brasil e Paraguai como mais uma manobra geopolítica brasileira (Com o apoio dos EUA); derrota para o Chile quanto a questão do canal de Beagle na Terra do Fogo; não bastasse isso, também sofre onerosa derrota contra os britânicos na disputa das Malvinas. O Brasil, pelo contrário, entraria na época do “Milagre Econômico” (que tentamos corrigir até hoje, pois é daqui que vem grande parte das nossas radicais diferenças entre classes sociais), recebia apoio velado dos EUA à ditadura militar e conseguia diplomaticamente estender sua hegemonia ao longo da América do Sul.

No entender deste pobre autor, é na ditadura militar brasileira que a rivalidade se acirra. Os militares brasileiros tinham um plano de hegemonia sulamericana sobre a Argentina, Itaipu é apenas um dos exemplos. Além disso, a neutralidade Argentina durante a segunda gerra mundial fez com que o Brasil conquistasse a confiança do Tio Sam, que passou a ver o Brasil como o legítimo líder sulamericano. Aliado a isso, o pensamento geopolítico de alguns militares, como Golbery de Couto e Silva, fortemente influenciado por uma teoria ratzelniana, entende que existia uma espécie de “destino manifesto” brasileiro, de caráter altamente anti-argentino.

Se a geografia atribuiu à costa brasileira e a seu promontório nordestino um quase monopólio de domínio no Atlântico Sul, esse monopólio é brasileiro, deve ser exercido por nós exclusivamente, por mais que estejamos, sem tergiversações, dispostos a utilizá-lo em beneficio de nossos irmãos do norte, a que nos ligam tantos e tão tradicionais laços de amizade e de interesses. […]Também nós podemos invocar um destino manifesto, tanto mais quanto ele não colide no Caribe com os de nossos irmãos maiores do norte[…]. Couto e Silva, 1967.

Portanto, neste momento, nos moldes do livro 1984 de Orwell, tínhamos um inimigo invisível que precisávamos combater, isso motivaria a população, uniria os brasileiros em torno de um objetivo: ser hegemônico na América do Sul, passando por cima de quem precisar. Houve até uma corrida armamentista, sim, nos moldes da Guerra Fria, entre os governos militares argentino e brasileiro, que só foi superado devido a uma série de tratados realizados em função dos subsequentes governos civis em ambos países.

Estava acirrada a rivalidade criada por Espanhóis e Portugueses e reanimada por militares de ambos os países, com destaque para o Brasil, que passava por melhor momento econômico que a Argentina. Rivalidade esta incorporada principalmente ao esporte.

Pra terminar, uma pequena provocação: não sou gaúcho e não quero ser argentino, mas minhas recentes experiências não me permitem torcer contra a Argentina em nenhum segmento.

Fontes:

COUTO E SILVA, G. Geopolítica do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1967.

DIAZ, C.M & BRAGA, P.L.M. Rivalidade entre Brasil e Argentina: construção de uma cooperação pacifico-nuclear. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, EDUFSC, n. 40, p. 491-508, Outubro de 2006.