O problema é o agora

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Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/05/politica/1504623466_872533.html

Após ler o TEXTO da Eliane Brum ao El País, me dei conta de que estamos num processo moribundo de espera. Esperamos as eleições de 2018, esperamos que lá na frente melhore. Muitos de nós achávamos que o problema era tirar a Dilma, até esses já perceberam que caíram numa armadilha, ou se deixaram cair pelo ódio histórico que se nutre pelo PT e pela esquerda. Após posse do interino, o Brasil experimenta uma época entreguista que não parece ter fim.

Privatizações sem critério, retirada de direitos trabalhistas, declarações machistas do próprio presidente interino no melhor estilho “The Handmaid’s Tale”, 50 milhões em dinheiro achados em bunker de Geddel Vieira Lima – que ocupou vagas no executivo com Lula, Dilma e Temer – e mais um milhão de escândalos que não vou mencionar aqui. Dentre estes, o que mais me perturba é o sucateamento, agora, do ensino público superior.

Ninguém aqui é anjo e acha que dentro da Universidade pública só tem gente do bem. Tem gente que se apropria da estrutura universitária para ganhar dinheiro, o famoso peculato, tem professor que ganha mais de 30 mil pra ir na faculdade 2 dias da semana, enfim, há problemas na estrutura sim, há problemas graves na ligação do conhecimento produzido nas universidades com a sociedade também. Mas isso em nenhum momento pode ser usado para desmontar aquilo que ainda funciona no Brasil, mesmo que aos trancos e barrancos. Enquanto escrevo, segundo o site http://www.conhecimentosemcortes.com.br/, a soma de cortes nas verbas de Universidades públicas e para fomento de Ciência e Tecnologia já ultrapassa os 12 bilhões.

Em qualquer país do mundo, saúde e educação são os últimos dois setores da economia onde se retira recursos em tempos de crise. No Brasil, são os primeiros. A UERJ, que é estadual, vive a maior crise da sua história, sem perspectiva de FUNCIONAMENTO neste semestre. O laboratório SIRIUS do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) que estava sendo construído em Campinas-SP também terá suas obras PARALISADAS. A União já chegou a “sugerir” à UERJ a sua privatização como única saída… Todas as faculdades e institutos de pesquisa públicos passam por um momento delicado e incerto AGORA.

Nesses momentos de crise, com governos conservadores, sempre a solução é a velha receita de bolo: contingenciar. É nesse momento em que se justifica o corte de gastos “na carne”, aquele papinho pra boi dormir, enquanto o discurso é esse, Temer DISTRIBUI bilhões em compra de votos e agrados à parlamentares.

Estamos assistindo a tudo isso sem força pra reagir. São tantos os golpes, são tantos os ataques à educação que estamos próximos do knockout e o juiz já abriu contagem…

Antes lutávamos por mudanças, agora tentamos miseravelmente pelo menos manter os restos daquilo que já identificávamos como precário e retrógrado.

Precisamos ficar em pé, resistir a tudo isso, se não houver luta eles vão passar o trator em tudo, precisamos, ao menos, salvar nossa alma e parte do já combalido e falho sistema de educação.

 

 

 

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Por que créditos suplementares foram motivo para impeachment e compra de votos não?

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Foto:  (Ueslei Marcelino/Reuters). http://exame.abril.com.br/brasil/como-3-consultorias-avaliam-o-primeiro-ano-de-temer-no-poder/.

O globo (clique aqui) já denunciou que o governo já empenhou 65% da verba de emendas parlamentares para deputados e senadores da situação previstas para o ano de 2017. Trata-se de uma estratégia suja de comprar votos dos deputados que hoje votarão a denúncia por CORRUPÇÃO passiva do interino Michel Temer (PMDB), apresentada pela Procuradoria-Geral da República. Se tem juiz que quer aplicar a teoria do domínio do fato, essa não é uma oportunidade também?

Mas como funciona essa compra “lícita”? As emendas são utilizadas pelos parlamentares para fazer pequenas “obras” (agrados) em suas bases eleitorais, assim, o governo libera essas verbas e os nobres parlamentares se comprometem a votar com o governo. Dos 6.1 bilhões previstos para 2017, 4 bilhões já foram liberados após o vídeo em que Joesley Batista grampeou o interino e expôs a lama em que eles atuam, quem não se lembra do “Temos que manter isso aí” do nosso interino? Segundo o globo, antes do diálogo entre Joesley e Temer, 89.44 milhões haviam sido autorizados em emendas (maio). No dia 19 de Julho, esse montante pulou para 2.1 BILHÕES. Enquanto isso, a UERJ suspende as atividades do semestre por falta de verbas.

Outra velha tática de Temer é exonerar Ministros que também são deputados , com isso, aumenta um pouco seus votos. Já foi feito isso na votação do Retrocesso trabalhista. Para essa votação 10 ministros foram exonerados:

  • Antonio Imbassahy (PSDB-BA), da Secretaria de Governo;
  • Bruno Araújo (PSDB-PE), das Cidades;
  • Fernando Coelho Filho (PSB-PE), de Minas e Energia;
  • Leonardo Picciani (PMDB-RJ), do Esporte;
  • Marx Beltrão (PMDB-AL), do Turismo;
  • Maurício Quintella (PR-AL), dos Transportes;
  • Mendonça Filho (DEM-PE), da Educação;
  • Osmar Terra (PMDB-RS), do Desenvolvimento Social;
  • Ronaldo Nogueira (PTB-RS), do Trabalho;
  • Sarney Filho (PV-MA), do Meio Ambiente

Em reportagem da BandNews (Clique Aqui), foi levantado que Rodrigo Maia (nosso possível futuro presidente) gastou mais de 600 mil reais — só com combustível — para voltar de Brasília-DF para Rio de Janeiro-RJ em três meses em jatinhos da FAB (Força Aérea Brasileira). Eliseu Padilha, ministro chefe da Casa Civil, fez 21 vôos para ou de Porto Alegre-RS, gastando 693 mil reais. Se o primeiro tivesse se deslocado apenas por vôos comerciais, teria economizado aproximadamente 545 mil reais, o segundo, a economia estaria próxima aos 600 mil. Ou seja, que república suporta esse tipo de farra?

E ainda tem gente preocupada com Maduro e a nova constituinte na Venezuela, pelo menos lá, em que pese as denúncias de fraude na eleição, os venezuelanos escolheram seu próprio presidente. Por aqui, as chamadas “pedaladas” fiscais custaram 52 bilhões aos cofres do banco Central e teve como resultado o impeachment — aqui obviamente estou sendo inocente e acreditando que a manobra não foi puramente política — no entanto, a compra de votos por 4 bilhões não é considerada crime.

Enfim, Ciro Gomes já disse que a denúncia que será votada hoje, por ter sido feita às pressas, não tem muita força e pode ser derrubada, no entanto, segundo ele, há uma outra denúncia baseada na delação de Eduardo Cunha que de fato irá acertar Temer em cheio, lá constaria até uma lista com os valores pagos aos deputados pra votar pró impeachment.

E segue esse mar de lama no país.

 

Diminuição da maioridade penal: mais uma prova da nossa inocuidade política

Nas últimas semanas a câmara dos deputados deu mais uma prova da sua inocuidade política, com tantas questões urgentes a serem resolvidas em época de estagnação econômica, os nobres deputados se preocupam com uma medida totalmente paliativa, que praticamente inocenta o governo das suas responsabilidades previstas na Constituição.

Para quem não sabe ou não viu, a PEC 171/93 quer alterar os artigos 129 e 228 da Constituição Federal, acrescentando um parágrafo que prevê a possibilidade de desconsiderar a inimputabilidade penal de menores de 18 anos. Trocando em miúdos, isso quer dizer que continuarão sendo julgados nas varas da Infância e Juventude, mas se o Ministério Público desejar poderá pedir para desconsiderar inimputabilidade, ou seja, o juiz decidirá se o adolescente tem capacidade para responder por seus atos. O leitor mais rápido já está imaginando o tamanho da burocracia a ser criada e a enorme possibilidade de corrupção que será aberta em caso de aprovação, dado que, até o mais inocente cachorro de rua sabe que os juízes não são esse colosso de honestidade que o senso comum prega.

A população carcerária do Brasil em 2013 apresentava 581 mil detentos em dezembro de 2013, último dado oficial disponível (Infopen, 2013), tendo passado dos 600 mil em 2014 através de estimativas. Possui ainda a  quarta maior população carcerária mundial, atrás de Estados Unidos, China e Rússia. De 1995 a 2010, subiu 136%, percentual abaixo apenas daquele registrado na Indonésia (145%). Somos recordistas mundiais em homicídios, cerca de 60 mil por ano. Foram 37 mil mortes em 1995, 45 mil em 2000 e 56 mil em 2012, será que prender resolve?

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Fonte: Carta Capital

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Link para o relatório da OMS (organização mundial da saúde) em inglês.

Quando observamos as duas últimas figuras notamos que, embora o número de homicídios seja o valor absoluto, os países com maior população carcerária se repetem no gráfico de homicídios de 2012, ou seja, as políticas de encarceramento em massa não estão trazendo resultado satisfatório, sobretudo no Brasil, onde os dados são alarmantes.

Além disso, a superlotação das cadeias e a falta de um sistema prisional planejado faz com que praticamente não exista recuperação. Segundo o juiz Luís Geraldo Sant’ana Lanfredi, “Presídio é um ambiente criminógeno. Prender deveria ser exceção, não regra”. O complexo penitenciário de Recife é exemplo da falta de eficiência do sistema, planejado para abrigar 2 mil detentos, recebe 7 mil atualmente, lá não faltam foices, homicídios, torturas, tudo denunciado pela mídia. Em caso de aprovação, a PEC colocaria lado a lado as organizações criminosas e os jovens de 16 anos, facilitando a cooptação por parte dos detentos.

Nos 54 países que reduziram a maioridade penal não se registrou redução da violência. A Espanha e a Alemanha voltaram atrás na decisão de criminalizar menores de 18 anos. Hoje, 70% dos países estabelecem 18 anos como idade penal mínima. Entre os que não adotam essa medida, Estados Unidos e Rússia, dois dos países que se encontram entre aqueles com maior número absoluto de homicídios.

A Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Publica) estima que os menores de 16 a 18 anos são responsáveis por 0,9% do total dos crimes praticados no Brasil. Se considerados apenas homicídios e tentativas de homicídio, o percentual cai para 0,5%. Ou seja, estamos gastando tempo numa discussão que resolverá 1% dos problemas, e quanto às discussões mais amplas de educação? Políticas carcerárias? Não, quanto a isso muito pouco tem sido feito, e é o que de fato seria mais efetivo no ataque ao problema.

Enfim, não vou enumerar os muitos argumentos contra a aprovação da PEC, eles estão espalhados pela internet e você pode consultá-los nos links no fim do texto, assim como os argumentos à favor. Apenas concluo que é neste período onde o brasileiro reclama e vai para as ruas pedir mais eficiência dos governantes e mais planejamento, é, ao mesmo tempo, o período em que também quer tomar medidas imediatas sem que qualquer cenário futuro seja discutido, essa é a contradição que tanto nos marca, se Sérgio Buarque de Holanda ainda fosse vivo, certamente teria que incluir esse novo traço na identidade do brasileiro.

Não comentarei também a citação de trechos da bíblia no texto da proposta de emenda constitucional, algo que usa desse tipo de subterfúgio como argumentação apenas revela como nossa câmara é fraca também no aspecto jurídico e intelectual.

Os bandidos que mais assolam o Brasil estão no legislativo (possuem imunidade parlamentar), no judiciário, no executivo e em alguns órgãos privados como empreiteiras e bancos, será que eles têm entre 16 e 18 anos? E você achando que a diminuição da maioridade penal fará o país menos criminoso e violento.

Links

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-morte-de-eduardo-e-a-maioridade-penal-6009.html

http://www.cartacapital.com.br/revista/838/se-cadeia-resolvesse-4312.html

https://18razoes.wordpress.com/quem-somos/

http://noticias.terra.com.br/brasil/reducao-da-maioridade-penal-segue-na-contramao-mundial,b5bb9cbae7e8c410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

http://nelcisgomes.jusbrasil.com.br/noticias/116624331/todos-os-paises-que-reduziram-a-maioridade-penal-nao-diminuiram-a-violencia

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/07/pec-da-reducao-da-maioridade-penal-cita-biblia-e-e-criticada-por-teologos.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/03/31/veja-cinco-motivos-a-favor-e-cinco-contra-a-reducao-da-maioridade-penal.htm

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/segundo-ministerio-da-justica-menores-cometem-menos-de-1-dos-crimes-no-pais/

http://www.metrojornal.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-maior-numero-de-homicidios-do-mundo-aponta-oms-150509

A outra história haitiana

tropas-estrangeiras-haitiEx-colônia francesa, a história do Haiti vem ganhando bastante espaço na mídia internacional, sobretudo no Brasil, país que participa ativamente na tentativa de “estabilização política” através de “missões de paz” realizadas pelo seu exército. As aspas se fazem necessárias porque nós raramente paramos pra pensar qual a dimensão das palavras e expressões com que somos bombardeados diariamente, incluindo este autor.

Primeiro país latinoamericano a tornar-se independente, o país sofreu com seguidas ditaduras e uma crônica crise social e econômica desde então. Quando colônia, chegou a competir no mercado internacional com o açúcar brasileiro no séc.XVIII. Por sua posição estratégica na América Central, caminho do canal do Panamá que liga as três Américas e pela possibilidade de controle inclusive do território de Cuba, o país foi alvo de intervenções americanas desde o início do séc XX.

Em 1993, após seguidos golpes militares, Jean Bertrand Aristide é reconduzido ao poder com auxílio dos Estados Unidos, ele havia sido eleito em 1990 com 67% dos votos. Naquele mesmo ano (1993), grupos paramilitares impediram o desembarque de soldados norte-americanos integrantes de uma força de paz da Onu, em 1994 o mesmo órgão decretou bloqueio total ao país. A junta militar que governava o país após a deposição de Aristide em 1990 empossou um civil para exercer a presidência até as eleições de 1995, que foi denunciada como ilegal pelos EUA. Neste momento a ONU autoriza a intervenção militar, liderada pelos americanos. Como resultado, Aristide foi reconduzido ao poder e teve que lidar com um cenário de destruição, além do bloqueio comercial e crises sociais.

Sua reeleição em 2000 foi marcada pela suspeita de manipulação, em 2004 o exército deu início a um golpe militar que culminou com a condução de Aristides ao seu asilo na África do Sul. É neste ponto que a participação brasileira toma corpo no país, o presidente interino requisitou assistência das Nações Unidas para auxílio na transição política e segurança interna. Foi criado então o MINUSTAH (Missão Nacional das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti) pelo conselho de segurança da ONU, que seria liderada pelo Brasil mas que possuia ajuda de outros países como Argentina, Bolívia, Chade, Chile entre outros.

Segundo o pesquisador haitiano Franck Seguy, que defendeu tese de doutorado na Unicamp com o título A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, a atuação brasileira no país faz parte de um projeto subimperialista em busca de uma cadeira no conselho de segurança da ONU.

Para o pesquisador, o Brasil à época sob o governo Lula, queria mostrar aos atores da política internacional que era capaz de lidar com a situação, sendo portanto merecedor de um posto de maior destaque na ONU. Seguy vai ainda além, denuncia que esta ação imperialista do Brasil também tem motivação econômica, já que o Haiti oferece uma extensão para o mercado brasileiro no setor têxtil, além disso, José Alencar, à época vice presidente, era um dos maiores empresários do mundo no setor, sendo o filho dele bastante atuante naquele país. Segundo o autor, um estudo realizado antes do terremoto de 2010 por um economista chamado Paul Collier apontava que a mão de obra mais barata existente era a haitiana, ainda mais barata que a chinesa.

Definindo a questão, Seguy aponta que estes dois fatores explicam porque o Brasil ocupa o Haiti e presta este serviço terceirizado ao imperialismo. Para ele os EUA terceirizaram o papel imperialista a outros países, por esse motivo encontram-se lá militares brasileiros, chilenos, bolivianos, paraguaios, uruguaios, senegaleses entre outros.

Voltando ao primeiro parágrafo do texto, onde as aspas foram usadas na palavra estabilização, Seguy aponta que a “missão de paz” nada mais é do que uma garantia da ordem vigente, ou seja, precariedade, manutenção do trabalhador ganhando 4 dólares/dia. Para ele o papel da Minustah é reprimir movimentos sociais e operários de um modo geral.

Claro que a grande mídia mostra um soldado brasileiro ajudando alguém individualmente, chorando, para mostrar o soldado brasileiro como um sujeito simpático e sensível à miséria humana. Claro que a grande mídia faz isso, para enganar quem não vai analisar com profundidade. Mas quem convive com os haitianos sabe que o Exército está fazendo um papel muito repressivo em relação ao povo.

O episódio da morte do general brasileiro Urano Teixeira da Mata Bacelar, oficialmente considerada como suicídio, pode ser alvo de manipulação pois há indícios da perícia que refutam essa tese, além disso, o general naquele período havia contestado uma ordem oficial dizendo que os haitianos não precisavam de repressão, mas sim de ajuda pra sair da miséria. Ainda não se sabe ao certo as circunstâncias de sua morte.

A fragilidade do Haiti é gritante, o terremoto de 2010 de 7.2 na escala Richter matou 300.000 pessoas, enquanto um evento de 8.9 no Chile fez 100 vítimas. Esta somatória de atenuantes faz com que haja elevada migração de haitianos para outros países, sobretudo o Brasil, conforme parcialmente explorado em texto anterior para o site Causas Perdidas (LINK). No entanto, ao contrário do que foi mostrado por nós neste texto, o pesquisador haitiano diz que mais de 80% daqueles que possuem diploma superior está fora do país, e que no Canadá, somente em Quebec, existem mais médicos haitianos do que no próprio Haiti, ou seja, apenas a fração menos qualificada é aquela que está migrando para o Brasil.

Migração esta que já foi alvo de discussão acalorada entre o governador do Acre Tião Viana e Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o segundo acusava o primeiro de “enviar” haitianos para São Paulo sem qualquer tipo de preparação ou estrutura.

Este texto traz uma série de informações novas a respeito da questão haitiana, uma outra história, um outro lado de ver a questão, o mais importante, o lado de um pesquisador que entende in loco o xadrez geopolítico envolvido. Ou seja, o Brasil exerce, em menor escala, o papel imperialista que tanto criticou nos EUA, e começa a sentir os efeitos colaterais de suas ações, como o desejo do povo haitiano de que a MINUSTAH saia do país imediatamente.

A impressão que nos dá é a de que o sonho do oprimido é ser o opressor, nem que pra isso tenha que jogar o seu jogo sujo.

Links:

http://www.brasildefato.com.br/node/28632

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Haiti

Dossiê Jango (Paulo Henrique Fontenelle, 2013) – Uma parte da história que não foi contada

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É sempre difícil escrever sobre um filme ou documentário porque sempre paira a chance de um spoiler nas entrelinhas. Mas neste post gostaria de comentar bem rapidamente algumas reflexões sobre o período de deposição do ex-presidente João Goulart desde o golpe militar de 1 de Abril de 1964 e seus desdobramentos, tema do documentário Dossiê Jango, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

O documentário conta com algumas gravações da época, inclusive uma que chamou-me a atenção foi a do então presidente americano Lyndon Johson, conversando sobre o complô armado entre militares e governadores brasileiros para derrubar Jango, Johnson chega a mencionar que a operação deveria inclusive seguir os moldes daquela realizada no controle do canal do Panamá. Enfim, são muitos os diálogos interessantes com os principais envolvidos no conflito, é uma obra que deve ser assistida por nós brasileiros, inclusive agora em tempos de eleição. Esse período da história é pouco estudado no Brasil, pouco se fala de Jango e dos desdobramentos da sua deposição nos livros didáticos, nesse sentido entendo que a comissão da verdade tem um papel essencial para que seja feito o resgate dos fatos e, inclusive, julgar e punir os culpados ainda vivos.

Por que Jango foi deposto? Jango tinha mais de 80% de popularidade, havia promovido mudanças sociais importantes, tinha avanços também na questão agrária, no entanto, apesar de ser um exímio capitalista, já que possuía muitas terras em seu nome, foi constantemente acusado pelos opositores de ser comunista, palavra chave para começar qualquer ataque político. O golpe teve apoio também da armada americana, que se preparava para dar apoio, no entanto, o recuo de Jango para evitar uma guerra civil dispensou a ajuda. Mal sabiam, mas ali começava um longo período de repressão, estendendo-se à toda a América Latina.

Do seu exílio em São Borja-RS, percebeu que se quisesse voltar ao Brasil teria que se aliar a antigos desafetos, incluindo o jornalista Carlos Lacerda. Formou-se então a chamada Frente Ampla, que reunia também o ex-presidente Juscelino Kubitschek e surgia como opção política aos militares, que temiam pelo crescimento do levante.

Nesse momento entra em cena a Operação Condor, uma aliança política e militar entre os vários regimes sulamericanos e a CIA americana, com o objetivo de reprimir líderes de esquerda que se opunham às ditaduras e de algum modo se aproximavam de Fidel Castro. Repressão leia-se assassinatos.

As circunstâncias da morte de Jango foram no mínimo estranhas. A versão oficial dá conta de que ele teve um ataque cardíaco, no entanto, não foi feita autópsia no corpo, o que alimenta a tese de um possível envenenamento já que, como relatado no documentário, entre todas as pessoas envolvidas na investigação de sua morte, 18 morreram, incluindo Zelmar Michelini e Gutierrez Ruiz, amigos de Jango e politicos uruguaios que foram sequestrados e assassinados dois anos depois. Na operação Condor havia pesquisas sobre compostos químicos capazes de acelerar o batimento cardíaco com o objetivo de assassinar sem levantar suspeitas, o que se encaixaria na circunstância da morte de Jango. No entanto, essa tese exigiria a existência de um agente duplo, alguém ligado a Jango sob ordens da operação Condor. Além disso, JK, oficialmente morto em acidente de carro também suscita dúvida, já que a exumação do corpo do seu motorista naquele dia indicou uma perfuração no crânio, provavelmente devido a um projétil.

Tentativas de investigação sempre esbarraram na resistência de políticos e da própria esposa de Jango, sobre a qual também pairam suspeitas de envolvimento no caso. Segundo o empresário uruguaio Enrique Foch Diaz e Mário Neira, agente da operação Condor que investigava a vida de Jango à época, a tese do envenenamento é clara e irrefutável. Para o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, que conviveu com Jango no exílio, a tese do envenenamento não se sustenta e ainda critica duramente o uruguaio Mario Neira e também o filho de Jango, João Vicente, que continua a investigar e pedir indenizações para os governos brasileiro e americano, para o historiador, Jango tinha sérios problemas cardíacos e morreu devido a essas complicações.

Aqui relatei os fatos de uma maneira que provavelmente confundiu ainda mais o leitor, portanto, sugiro encarecidamente que vejam o documentário e tirem suas próprias conclusões.

Vai passar. O brilhante fim da melhor Copa de uma geração.

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Hoje tomei a liberdade de pular uma sequência de posts que tinha planejado, onde iria relatar minhas experiências assistindo aos jogos da copa 2014. Portanto, o diário de um apaixonado pelo futebol parte II ficará para uma próxima oportunidade.

Vai passar. O último dia após a Copa soa para este autor como se fosse a noite que não terminou, com aquela ressaca que dói até n’alma. Acho que a letra da música “End of the night” da banda de punk celta americana Dropkick Murphys resume bem o fim desse torneio:

We live for the weekend, each city’s the same,
There’s a bar on the corner
where they don’t know your name.
There’s plenty of drinks, they’ve been savin’ your chair.
It’s our second home, we ain’t goin’ nowhere.

It’s the end, end of the night.
But we ain’t goin’ home.

Como diria nosso glorioso Galvão: “Amigo, acabou…” Mas nós não iremos pra casa, não ainda. Foi o fim da melhor copa que as pessoas da minha geração tiveram oportunidade de ver, os nascidos na década de 80, ao meu ver, não viram nenhuma copa melhor do que esta. Talvez a de 1998, com aqueles golaços (o meu preferido é o do Dennis Bergkamp contra a Argentina).

Com toda a desconfiança de determinados setores da imprensa, governo e da própria população, conseguimos organizar um evento de grande porte, no qual eu fui a favor desde o começo, mesmo com a certeza de que teriam falhas. E aqui aproveito pra fazer um adendo, pois a máfia dos ingressos escancarada pela polícia carioca é um exemplo de que não somos tão mal educados e corruptos quanto muitos adoram vociferar pelas redes sociais. Nunca a Fifa havia sido investigada tão de perto como foi aqui. Mais um adendo àqueles que adoram colocar comparações entre o Brasil e a Alemanha quanto a aspectos que claramente nos são desfavoráveis, e ninguém se orgulha disso, no entanto, o fato de gostar e discutir futebol não me deixa cego quanto a outros fatores que devemos melhorar como país.

Já o Brasil dentro de campo mostrou que está em situação complicada. Ou muda na raiz agora, e com isso conto com o bom senso do próprio Bom Senso através do Paulo André -ex Corinthians e dos políticos pra que mudem a CBF, caso contrário continuaremos onde estamos. E ao leitor que me chamar de oportunista, convido-o a ler meu post sobre o futebol no dia 27 de maio, onde tive a pretensão de analisar nossas competições nacionais e já alertava para a penúria administrativa em que vivemos. Aqui está o LINK.

Mais ainda do que o jogo contra a Alemanha onde fomos batidos por sete tentos, a decisão do terceiro lugar contra a Holanda nos mostrou o quanto somos dependentes de um jogador, o quanto não sabemos jogar coletivamente. Nossos volantes estavam a 100m uns dos outros, passes errados, pouco ímpeto na movimentação ofensiva foram alguns dos ingredientes que nos levaram a tomar outra goleada. Essa tão feia quanto a primeira.

Técnicamente não somos ruins, temos jogadores que são destaques nos seus clubes, embora já tenhamos sido melhores. Então o que ocorre?

A pressão pelo resultado nos atrapalhou? Pode ser, mas não justifica.

A convocação foi mal feita? Não, ou o caro leitor acha que com Robinho, Kaká e Ronaldinho Gaúcho a coisa seria diferente?

Se o leitor está me seguindo já sabe onde vamos chegar. Primeiro, não somos mais os melhores do mundo, não temos os melhores jogadores e isso é natural, mas precisamos entender isso e ser humildes. Segundo, nossos campeonatos não empolgam nem a Globo mais, e por que isso ocorre?

Podemos enumerar os fatores: um calendário esdrúxulo; horários de jogos absurdos, divisão de verbas totalmente desigual – e aqui existem exemplos que podem ser seguidos, como na própria Alemanha, onde a verba de televisão é dividida igualmente entre os clubes, ou na Inglaterra, onde 70% é dividido e o restante é distribuído em função do desempenho. Quando olho a verba dos grandes no campeonato paulista e a dos clubes do interior, lembro o quão assassina as federações regionais e a CBF têm sido para o futebol brasileiro. Assassinando os clubes do interior as federações aniquilam todo o trabalho de base que poderia revelar jogadores, e além deles, os técnicos.

O post é longo e a revolta também, mas vou tentar finalizar.

Neste domingo torci pra Alemanha, e não foi pela tal rivalidade com a Argentina, que muitos têm entendido como rivalidade contra o povo e o país, mas apenas uma rivalidade sadia. Peço licença novamente para fazer um terceiro e último adendo, vi muita gente legal escrevendo besteira nas redes sociais a respeito de torcer contra a Argentina, geralmente tais pessoas jamais pisaram num campo de futebol ou sequer chutaram uma bola pra entender que a rivalidade é sadia e só passa dos limites quando usada por torcedores que não respeitam uns aos outros. A rivalidade é ótima, do contrário teríamos um público chato como o do tênis nas arquibancadas, sem alma, sem vida.

Assisti ao jogo Argentina e Suiça ao lado deste Argentino. Eu, claro, torci pra Suiça, ele, pela sua Argentina. Conversamos bastante sobre a situação do futebol dos dois países, inclusive entre os intervalos da música "Brasil decime que se siente..."e alguns berros meus com o time suiço. Torcer contra a Argentina no futebol não tem problema algum e é sadio, principalmente quando há respeito entre os torcedores.
Assisti ao jogo Argentina e Suiça ao lado deste Argentino. Eu, claro, torci pra Suiça, ele, pela sua Argentina. Conversamos bastante sobre a situação do futebol dos dois países, nos provocamos, gritamos, inclusive entre os intervalos da música “Brasil decime que se siente…” e digo que foi divertido pra caramba, uma experiência fantástica. Torcer contra a Argentina no futebol não tem problema algum e é sadio, principalmente quando há respeito entre os torcedores.

Torci pela Alemanha porque entendo que o futebol praticado por ela a tempos é maravilhoso, é coletivo, é solidário, é divertido, é irresponsavelmente ofensivo, é simpático. Para nossos irmãos Argentinos que contribuíram demais para as arquibancadas com suas músicas e entusiasmo, o meu muito obrigado por virem e por tornarem os estádios menos leitecomperizados. Lutaram bastante e até tiveram grandes chances de ganhar, Higuain e Messi tiveram suas chances.

O que dizer de Robben e de sua Holanda? Da França com seu jovem e promissor Pogba? Da garra Uruguaia? Da irreverência Colombiana?

Amigos, foi ótimo recebê-los por aqui, voltem sempre!

Reforço: é hora de modificar a CBF e as federações estaduais e isso tem que partir de quem financia o futebol, Ministério dos Esportes e rede Globo, pois é ela inclusive o maior credor (ao lado do próprio governo) dos clubes brasileiros. Só assim chegaremos nas competições não para ganhar, pois sempre somos favoritos, mas pra jogar um futebol que resgate os valores lúdicos de se divertir com o jogo, com alguma organização dentro e fora de campo.

Homenagem do Homer ao gordo mais sujo do planeta.
Homenagem do Homer ao gordo mais sujo do planeta.

 

Diário de um apaixonado pelo futebol – parte I

A despeito de todas as consequencias políticas de ser sede de um grande evento como este, irei me eximir, pelo menos neste post, de comentar tais desdobramentos. Aqui será o espaço de dividir minhas sensações como torcedor, agraciado que fui com 4 ingressos para a copa por 145R$.  Veja bem então, caro leitor, a idéia de que esta copa foi feita PARA ricos, embora a maioria esmagadora das assistências a seja, não é uma idéia tão simples e linear assim. Mesmo que existam setores populares (como os que fui e ainda irei) de algum modo não se vê o torcedor brasileiro nos estádios, aquele que grita, tem cantos, se descabela, aquele no qual me incluo, o texto publicado AQUI mesmo sobre a série A2 do paulista me credencia a pensar assim sobre eu mesmo. Pelo contrário, o que se vê dos brasileiros nos estádios é um canto tão bobo, mercadológico, vendido e ainda por cima copiado do volei.

Pulando para a minha experiência. O cenário foi o jogo Inglaterra X Uruguai no estádio de Itaquera, dia 19/06/2014. Reparem como fiquei bem posicionado no campo, conseguia ver a expressão e em determinados momentos alguns berros dos jogadores no calor do jogo.

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Antes do jogo, tudo muito eficiente, metrô funcionando direitinho, expresso da copa levando a maioria dos torcedores para o estádio e em tempo hábil: 20min bastam da estação Luz para a Corinthians-Itaquera, local onde se localiza o estádio.

Do lado de fora, tudo muito bem organizado também, embora a lata de cerveja custasse R$5,00 não achei nada muito diferente do que já se pratica em eventos de importância bem menor. Dentro do estádio é o dobro, 10 pila a Brahma e 13 a Bud, aí sim, os caras forçaram.

Falando do estádio, se de fora muitos torceram o nariz, de dentro ele impressiona. Todos os lugares parecem avançar sobre o gramado, de forma que você consegue assistir muito bem o jogo de qualquer ponto, mesmo das arquibancadas móveis, onde fiquei no segundo jogo que fui (Chile x Holanda). Nas fotos acima destaco novamente a proximidade do torcedor do campo.

Devo admitir que saí impressionado com a torcida do Uruguai e decepcionado, é claro, com a brasileira. A diversidade dos cantos, a paixão e a emoção dos uruguaios no jogo é contagiante, e parece que eles adoram essa situação de penúria, dificuldade, jogos apertados, parece que crescem nessas situações. A atmosfera do campo também foi emocionante, a torcida inglesa também é muito apaixonada, afinal de contas, eles inventaram essa bagaça. No entanto, como fiquei próximo aos torcedores uruguaios, minha já velada paixão quase que cega pelo futebol latino permitiu-me cantar as musicas uruguaias e me inebriar com o momento, e com certeza não era resultado do alcool, pois já mencionei o preço salgado da cerveja.

Minha primeira experiência num jogo internacional de futebol, numa Copa do Mundo, no Brasil, sou obrigado a compartilhar parte das emoções que experimentei aqui no blog, através de palavras, o que não é fácil.

O segundo gol do Luisito Suárez (que ontem mordeu o Chiellini no ombro numa cena pra lá de ridícula) fez com que a massa uruguaia explodisse. E devo narrar aqui que olhei o tempo todo pra ele, desde o lançamento, quando ele observava Edinson Cavani brigar de cabeça com o zagueiro inglês, até o momento que ele percebeu que a bola sobraria pra ele. Neste momento vi que a expressão dele mudou, quase que prevendo que faria o gol derradeiro, ele então parte em direção a bola com uma vontade incrível e uma segurança de que faria o gol que parece ter sido sentida pelos uruguaios, ele domina a bola, avança alguns metros e fuzila o goleiro Hart com um chute cruzado a meia altura. Explosão uruguaia! Era o gol que fazia a celeste respirar na Copa! Ele sai correndo na direção onde estávamos batendo no peito e no escudo celeste, amigo, quem não sentir nada numa cena destas não é humano.

Essa copa, não sei se o leitor também passa por isso, renova a minha paixão pelo futebol que admito, ultimamente andava completamente em estado de dormência, mesmo com a gangorra que tem sido a vida do meu querido Comercial F.C nos últimos 5 anos.

Se antes a Alemanha já tinha ganhado a minha simpatia, agora admito que sou Celeste até que cruze o caminho do Brasil, embora já ache que a Colômbia, próximo adversário uruguaio, é muito mais time.

Espero colocar as minhas impressões em breve sobre o jogo que já fui, Holanda e Chile, o que ainda vou Bélgica e Coréia, e por fim, Argentina e o segundo lugar do grupo da França, Equador ou Suiça.

Aqui vai uma pequena homenagem aos torcedores Uruguaios, reproduzo alguns dos cantos, para que o brasileiro possa saber o que é uma torcida.

“Soy Celeste, Soy Celeste, Celeste Soy Yo”

“Volveremos, volveremos, volveremos otra vez, volveremos a ser campeones, como en la primera vez”

“Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta, es un inglés”