O mais pobre entre os presidentes do mundo tem o discurso mais rico da ONU

Jose Pepe Mujica, 78
Jose “Pepe” Mujica, 78

O atual presidente do Uruguai, José Mujica, conhecido popularmente como Pepe Mujica, discursou na ONU por quarenta minutos e abordou questões bastante simples em meio às discussões sempre densas que cercam a entidade. Fugindo um pouco dos discursos tradicionais, o presidente uruguaio discursou sobre o consumismo, a sociedade de acumulação, os gastos inúteis e o atual modelo de civilização.

Mujica citou que o Uruguai passou 50 anos se regozijando da conquista da copa de 50 sobre o Brasil, neste meio século o país era visto como a Suíça, mas na realidade era refém do império britânico e quando este sucumbiu a nação se viu completamente despreparada para enfrentar os novos desafios econômicos que surgiam. Ressaltou ainda a importância da utopia para as sociedades atuais, algo que relata com certa nostalgia dos tempos em que se a esperança nas civilizações era muito maior.

Me angustia, y de qué manera, el porvenir que no veré, y por el que me comprometo. Sí, es posible un mundo con una humanidad mejor, pero tal vez hoy la primera tarea sea cuidar la vida.

O presidente abordou questões delicadas como o embargo inútil a Cuba e os restos do colonialismo nas Malvinas, as espionagens feitas pelo governo americano e ainda ressaltou a necessidade de defender a Amazônia e os grandes rios da América, enfim, parece que as ideias de Pepe casam com as que foram abordadas aqui no blog (Grandes sistemas fluviaisA esquerda pedante e a direita letárgica).

Cargo con las culturas originales aplastadas, con los restos del colonialismo en Malvinas, con bloqueos inútiles a ese caimán bajo el sol del Caribe que se llama Cuba. Cargo con las consecuencias de la vigilancia electrónica que no hace otra cosa que sembrar desconfianza. Desconfianza que nos envenena inútilmente. Cargo con una gigantesca deuda social, con la necesidad de defender la Amazonia, los mares, nuestros grandes ríos de América.

Pepe explorou muito o consumismo. Mencionou o combate ao narcotráfico, à corrupção como as pragas contemporâneas, aquelas responsáveis pela ideia de que somos felizes quando enriquecemos materialmente. Hoje em dia, somos bem sucedidos apenas quando compramos, quando mostramos um carro novo (de preferência zero km, o que aumenta o status da pessoa), quando compramos um Iphone, quando compramos um apartamento 2 vezes mais caro do que era pra custar, enfim, quando consumimos.

El combate a la economía sucia, al narcotráfico, a la estafa, el fraude y la corrupción, plagas contemporáneas, prohijadas por ese antivalor, ese que sostiene que somos felices si nos enriquecemos sea como sea. Hemos sacrificado los viejos dioses inmateriales. Les ocupamos el templo con el dios mercado, que nos organiza la economía, la política, los hábitos, la vida y hasta nos financia en cuotas y tarjetas, la apariencia de felicidad.

Explorou também o que chamou de “a sociedade contra o amor”, tão denunciada aqui pelo blog e pelo ótimo Chico Sá. Hoje não temos tempo para relações humanas, para o amor, para a aventura, tudo isso é negligenciável porque isso é perda de tempo, e tempo é dinheiro meu amigo. É melhor uma viagem a Miami pra comprar do que trilhar a fantástica América Latina, pois a televisão (principalmente brasileira) nos ensina que é perigoso andar pela Bolívia, Colômbia e Equador, que o Uruguai só tem boi, que a Argentina é a Argentina, que a Venezuela só tem petróleo e Chavistas…

Lo peor: civilización contra la libertad que supone tener tiempo para vivir las relaciones humanas, lo único trascendente, el amor, la amistad, aventura, solidaridad, familia. Civilización contra tiempo libre no paga, que no se compra, y que nos permite contemplar y escudriñar el escenario de la naturaleza.

Mujica também salientou que hoje são gastos dois milhões de dólares por minuto em insumos de guerra (que o diga os EUA, que precisam sempre de um conflito pra desovar os investimentos feitos), enquanto o que se gasta em pesquisas na área de medicina é um quinto do que se gasta com armamentos. Para ele, toda vez que a política fracassa entramos em guerra e isso nos joga diretamente na pré-história. Citou com perplexidade o caso da lâmpada que está acesa a 100 anos na Califórnia e como gastamos com coisas inúteis, o quanto somos forçados ao consumo inútil. Pepe não citou, mas este raciocíno se aplica também à obsolescência programada, um claro ataque a sociedade que se vê obrigada a consumir mais e em conta gotas.

Importante citar que o Uruguai vem dando grandes passos políticos como a liberação do uso da maconha e o controle total do Estado sobre a produção, a legalização do aborto e um eficiente sistema de previdência social.

Muitos dirão que Mujica é mais um esquerdinha populista como tantos outros. Quem dera se isso fosse o ruim…

Por fim, não quero ser muito longo na reflexão e penso que abordei os principais pontos que me chamaram a atenção, se o leitor quiser conferir o texto na íntegra aqui vão os links:

Texto: http://www.republica.com.uy/discurso-completo-de-mujica/

Vídeo:

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Black Friday: triunfo do capitalismo ou sinal de enfraquecimento?

Nos Estados Unidos, desde a recessão de 2008 as vendas vinham aumentando, este ano, caiu 1,8% em relação ao ano passado. No entanto, as visitas às lojas aumentaram mais de 3.5%. Mas o que realmente mudou foram as vendas pela internet, que subiram 17,4% no Thanksgiving Day e 20,7% no dia seguinte, a sexta feira (http://www.nytimes.com/2012/11/26/business/chasing-early-sales-retailers-undercut-black-friday.html).

Por mais bobo que possa ser, o Brasil vem copiando bem a ideia do tio Sam, as vendas online dobraram em relação ao montante arrecadado no ano passado, embora muitas ofertas tenham sido maquiadas, fato que também ocorreu nos EUA. Enquanto o americano gastou por volta de 800 reais, o brasileiro gastou 400, se levarmos em conta o absurdo dos preços praticados no Brasil, ambos gastaram valores similares.

Do ponto de vista das vendas, é óbvio que o evento é um sucesso.  E é um sucesso porque as compras não são feitas por necessidade, mas em grande parte, e aí eu não saberia medir isso, pela pressão do mercado. Aqui eu poderia usar o jargão da pressão do capital, mas vou evitar pra não cair num discurso vazio.

Como muito bem apontou o blog do Sakamoto, o Black Friday é um sucesso pelas compras que são feitas não pela necessidade, mas pela pressão de “estar barato”, e aqui eu vou além, acho que o sucesso no Brasil (e também nos EUA) se deu por conta de compras supérfluas. É isso o que me preocupa. É claro que muitas pessoas aproveitam e compram por que têm necessidades: roupas, eletrônicos, calçados, isso é necessidade sim e, por favor, não confundam a crítica ao consumo exacerbado com a ideia de viver pelado numa caverna.

Vou tomar a liberdade de roubar mais uma ideia do blog do Sakamoto quando o texto se refere ao filme Wall-E, por sinal, fantástico. O robô protagonista do filme é o responsável por limpar o lixo produzido pelas pessoas, que após poluir a atmosfera também, foram viver em uma nave. Mais uma vez vou um pouco além, no filme lembro-me dos seres humanos serem gordos e mórbidos, pois as máquinas faziam tudo para as pessoas.

Pode parecer inocente, mas é uma crítica social muito forte. Para aonde vamos com esse consumismo fútil? O que queremos?

É isso que queremos?

Vejo cada vez mais pipocar esse tipo de prática: Black Friday, CyberMonday, Sexta maluca, liquidação de não sei o quê… Isso se justifica por um dado: no capitalismo não pode haver estagnação. Mercadoria parada significa diminuição de produção, que significa corte de gastos, que significa desemprego, por isso cada vez mais esses “Black Fridays” são utilizados. Nesse sentido, isso representaria um certo enfraquecimento do sistema capitalista atual, um modo de aliviar a estagnação e dar um impulso forçado no consumo.

Acho que esse é o verdadeiro motivo de algumas guerras terem sido travadas (exceto por aquelas que são travadas por motivos religiosos e étnicos, e muitas vezes as guerras étnicas foram travadas em virtude de expansionismos desenfreados): simplesmente evitar que o mundo se torne estável, pois isso faria o sistema ruir. No livro 1984 George Orwell já satirizava a situação, os países sempre estavam em guerra porque isso motivava as pessoas a produzir mais, tinham um objetivo a alcançar, um norte.

Evidentemente não prego aqui comunismo, socialismo, anarquismo ou qualquer utopia do tipo criada no começo do século 20, mesmo porque, isso nunca existiu.

O que chamo a atenção aqui é que precisamos de fato pensar se esse sistema tem um limite ou não. Se é isso que queremos e se esse sistema é o mais correto para vivermos em sociedade.

Fúteis como somos, isso só ocorrerá quando, e aí vou tomar emprestada outra ideia para usar aqui no blog, como diria o sambista Bezerra da Silva em um de seus sambas: “quando o morcego doar sangue e o saci cruzar as pernas”.