Diário de um apaixonado pelo futebol – parte I

A despeito de todas as consequencias políticas de ser sede de um grande evento como este, irei me eximir, pelo menos neste post, de comentar tais desdobramentos. Aqui será o espaço de dividir minhas sensações como torcedor, agraciado que fui com 4 ingressos para a copa por 145R$.  Veja bem então, caro leitor, a idéia de que esta copa foi feita PARA ricos, embora a maioria esmagadora das assistências a seja, não é uma idéia tão simples e linear assim. Mesmo que existam setores populares (como os que fui e ainda irei) de algum modo não se vê o torcedor brasileiro nos estádios, aquele que grita, tem cantos, se descabela, aquele no qual me incluo, o texto publicado AQUI mesmo sobre a série A2 do paulista me credencia a pensar assim sobre eu mesmo. Pelo contrário, o que se vê dos brasileiros nos estádios é um canto tão bobo, mercadológico, vendido e ainda por cima copiado do volei.

Pulando para a minha experiência. O cenário foi o jogo Inglaterra X Uruguai no estádio de Itaquera, dia 19/06/2014. Reparem como fiquei bem posicionado no campo, conseguia ver a expressão e em determinados momentos alguns berros dos jogadores no calor do jogo.

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Antes do jogo, tudo muito eficiente, metrô funcionando direitinho, expresso da copa levando a maioria dos torcedores para o estádio e em tempo hábil: 20min bastam da estação Luz para a Corinthians-Itaquera, local onde se localiza o estádio.

Do lado de fora, tudo muito bem organizado também, embora a lata de cerveja custasse R$5,00 não achei nada muito diferente do que já se pratica em eventos de importância bem menor. Dentro do estádio é o dobro, 10 pila a Brahma e 13 a Bud, aí sim, os caras forçaram.

Falando do estádio, se de fora muitos torceram o nariz, de dentro ele impressiona. Todos os lugares parecem avançar sobre o gramado, de forma que você consegue assistir muito bem o jogo de qualquer ponto, mesmo das arquibancadas móveis, onde fiquei no segundo jogo que fui (Chile x Holanda). Nas fotos acima destaco novamente a proximidade do torcedor do campo.

Devo admitir que saí impressionado com a torcida do Uruguai e decepcionado, é claro, com a brasileira. A diversidade dos cantos, a paixão e a emoção dos uruguaios no jogo é contagiante, e parece que eles adoram essa situação de penúria, dificuldade, jogos apertados, parece que crescem nessas situações. A atmosfera do campo também foi emocionante, a torcida inglesa também é muito apaixonada, afinal de contas, eles inventaram essa bagaça. No entanto, como fiquei próximo aos torcedores uruguaios, minha já velada paixão quase que cega pelo futebol latino permitiu-me cantar as musicas uruguaias e me inebriar com o momento, e com certeza não era resultado do alcool, pois já mencionei o preço salgado da cerveja.

Minha primeira experiência num jogo internacional de futebol, numa Copa do Mundo, no Brasil, sou obrigado a compartilhar parte das emoções que experimentei aqui no blog, através de palavras, o que não é fácil.

O segundo gol do Luisito Suárez (que ontem mordeu o Chiellini no ombro numa cena pra lá de ridícula) fez com que a massa uruguaia explodisse. E devo narrar aqui que olhei o tempo todo pra ele, desde o lançamento, quando ele observava Edinson Cavani brigar de cabeça com o zagueiro inglês, até o momento que ele percebeu que a bola sobraria pra ele. Neste momento vi que a expressão dele mudou, quase que prevendo que faria o gol derradeiro, ele então parte em direção a bola com uma vontade incrível e uma segurança de que faria o gol que parece ter sido sentida pelos uruguaios, ele domina a bola, avança alguns metros e fuzila o goleiro Hart com um chute cruzado a meia altura. Explosão uruguaia! Era o gol que fazia a celeste respirar na Copa! Ele sai correndo na direção onde estávamos batendo no peito e no escudo celeste, amigo, quem não sentir nada numa cena destas não é humano.

Essa copa, não sei se o leitor também passa por isso, renova a minha paixão pelo futebol que admito, ultimamente andava completamente em estado de dormência, mesmo com a gangorra que tem sido a vida do meu querido Comercial F.C nos últimos 5 anos.

Se antes a Alemanha já tinha ganhado a minha simpatia, agora admito que sou Celeste até que cruze o caminho do Brasil, embora já ache que a Colômbia, próximo adversário uruguaio, é muito mais time.

Espero colocar as minhas impressões em breve sobre o jogo que já fui, Holanda e Chile, o que ainda vou Bélgica e Coréia, e por fim, Argentina e o segundo lugar do grupo da França, Equador ou Suiça.

Aqui vai uma pequena homenagem aos torcedores Uruguaios, reproduzo alguns dos cantos, para que o brasileiro possa saber o que é uma torcida.

“Soy Celeste, Soy Celeste, Celeste Soy Yo”

“Volveremos, volveremos, volveremos otra vez, volveremos a ser campeones, como en la primera vez”

“Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta, es un inglés”

Enquanto o futebol brasileiro agoniza…

Semelhanças com o romance de William Faulkner (Enquanto Agonizo, de 1930) não podem ser descartadas. No futebol brasileiro, umas 10 ou 15 personagens também são responsáveis pela condução do enredo que fatalmente pode culminar com o falecimento deste esporte por estas bandas. Entre eles citamos Marins, Teixeiras, Havelanges, Farahs e outros narradores desse romance que provavalmente não receberão nenhum prêmio.

Como o nível dos nacionais é horroroso! Público medíocre, jogadores cavando faltas e simulações absurdas, reclamações com o árbitro intermináveis, técnica inexistente, enfim, são muitos os motivos que o torcedor têm pra não assistir a um jogo de futebol.

São tantas as minhas decepções que elas não caberiam num texto, inclusive tenho renegado minhas quartas feiras à noite e domingos em busca de qualquer outra programação possível, desde que não seja assistir Oeste X Corinthians, Chapecoense X Corinthians, Figueirense e Santos, Santos X Flamengo, enfim, uma série de jogos medíocres que nem o mais fanático consegue aguentar.

Prometo que encerro a minha linha de argumentação neste parágrafo com duas situações que mostram o por que temos públicos menores que o campeonato neozelandês. O primeiro ocorreu em Itápolis-SP dia 13 de maio de 2014, no maravilhoso jogo entre Oeste e Ponte Preta as 21h45, pela série B do brasileiro. Já não bastasse o horário péssimo, numa terça feira para um jogo horroroso, a polícia militar proibiu a entrada dos torcedores com chinelo, isso mesmo, mais de 30 pares foram recolhidos na entrada do campo.

Bizarro, mas isso aconteceu.

O segundo fato, um pouco menos bizarro, foi a rodada da série C do dia 25/05, dois dias atrás, pasmem, numa segunda feira! O jogo em questão era Guarani x Guaratinguetá que ocorreu às 21h30 na cidade de Americana-SP,  em virtude da reforma do estádio do Guarani que receberá a delegação da Nigéria para a Copa do Mundo. Detalhe, o jogo terminou 1 X 5 para o Guaratinguetá, imaginem a felicidade dos torcedores do Guarani num jogo que terminou perto da meia noite de uma segunda, com uma goleada contra de 5…

O que quero salientar é que estão destruindo nosso futebol nacional, e como os dirigentes são competentes nisso! Neste ano teve até dirigente que declarou que só paga salário de jogador bom, jogador ruim ele atrasa mesmo. Este dirigente preside um dos clubes mais tradicionais do estado de São Paulo, o Comercial de Ribeirão Preto, cidade que receberá a delegação francesa de futebol. Quanto profissionalismo!

Enquanto outras ligas batem recorde de público, inclusive com os nossos jogadores como astros maiores, as nossas agonizam e são conduzidas de maneira leviana. Ainda bem que vem aí a Copa do Mundo, porque faz tempo que não vejo uma partida de futebol em terras brasileiras e do jeito que a coisa anda, só a Libertadores salva, mais pela disputa e entrega do que pela técnica.

A sorte do futebol é que tem um público extremamente fiel, que embora esteja cansado de ser maltratado, ainda sustenta todo este circo que é o futebol brasileiro. Troque o fanatismo do brasileiro por futebol para qualquer outro esporte e o cenário seria igual ao do volei e basquete, com clubes reféns de patrocinadores que mudam de cidade ano a ano, embora alguns clubes de futebol paulistas já usem essa prática. Estes dois esportes que, coitados, também sobrevivem das migalhas que sobram das ligas de futebol, sofrem com o descrédito do público pois o time pode ser campeão ou vice em um ano e sumir no outro.

Enfim amigos, ou decidimos mudar o cenário emcampando algumas das lutas do Bom Senso F.C ou, a exemplo do romance de William Faulkner, já vamos nos preparar para o longo enterro do futebol nacional, que apesar de ainda vivo, já tem neste autor um filho desgarrado.