As arenas e a nova territorialização do campeonato brasileiro de futebol

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Arena Amazônia

É claro que por ser geógrafo o meu título descambou para o território, mas de fato, o título é muito mais pretencioso do que aquilo que vou escrever neste post, que será extremamente simples.

Tenho ouvido os tradicionais do futebol vociferar contra a venda de jogos para as novas arenas, como por exemplo, Santos X São Paulo em Cuiabá, Botafogo e Flamengo na arena Amazonas, ou ainda o fantástico jogo de futsal em Brasília que levou quase 60.000 pessoas. Todos os jogos com renda infinitamente superiores às que seriam obtidas se os jogos tivessem acontecidos nas praças tradicionais.

O Santos é um caso que conheço. Tem média inferior a 8.000 pessoas por jogo, contra o São Paulo na Vila, levaria no máximo umas 10.000 pessoas, em Cuiabá levou 34.000. O Flamengo levou 40.000 pessoas em Manaus contra o Botafogo (mando do Bota), Botafogo e Corinthians levaram 20.000. Enfim, as arenas que não estão em praças movimentadas, essencialmente Brasília, Manaus e Cuiabá funcionam como vetores de eventos futebolísticos para estes locais, pois anteriormente essas regiões viviam apenas com seus campeonatos estaduais, em geral fracos, e pitadas da Copa do Brasil, nesse sentido, as arenas colocaram estes locais no mapa do campeonato brasileiro da série A, ampliando a dimensão territorial do anterior campeonato nacional então restrito à região sul/sudeste e às vezes nordeste.

Longe de insinuar qualquer tipo de integração através das arenas, as discussões ao final das últimas eleições presidenciais nos provaram, essencialmente aos paulistas, que precisamos conhecer mais a realidade das outras regiões e, assim como o João Bigarella pensa, um dos maiores geólogos do mundo, precisamos fazer mais trabalhos de campo não só apenas no sentido de compreender os sistemas naturais, como é o principal viés dele, mas também conhecer os costumes regionais, as tradições, a cultura e aspectos políticos.

Somos um país culturalmente rico demais e precisamos nos conhecer melhor.

Lembrando que essa é uma prática comum na NFL americana e na liga universitária de futebol americano, que inclusive, posso relatar com conhecimento de causa pois no período em que estive por lá os torcedores se deslocavam para ir ver o time da sua universidade jogar, certa vez estive em San Antonio e ali haveria um jogo entre University of Texas (Texas Longhorns) e Baylor ou West Virginia, não me lembro ao certo, e por toda a cidade encontrava torcedores dos dois times consumindo a cidade literalmente, tanto culturalmente quanto explorando as culturas locais, comidas típicas e cervejarias antes dos jogos.

Guarani e Ponte Preta, dois times tradicionais de São Paulo, têm a chance de construir novas arenas e dar algum conforto aos seus torcedores, é claro que não é necessário e nem deve ser no padrão FIFA, que encarece e dificulta a manutenção no longo prazo, estes clubes têm que lidar diariamente com um tradicionalismo que prejudica a evolução natural do produto futebol e impedem a substituição dos arcaicos estádios do Moisés Lucarelli e do Brinco de Ouro por outros locais mais modernos e condizentes com a realidade atual dos clubes.

Estádios simples porém modernos, como os de Joinvile e o D. Afonso Henriques (onde joga o vitória de Guimarães) custaram menos de 100 milhões de reais, este último, posso lhes assegurar que é bastante aconchegante, além do que estádios pequenos fazem mais pressão, o que pode ser um fator positivo.

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Estádio do Vitória Guimarães, onde assisti um grande clássico da segunda liga portuguesa: Vitória de Guimarães B x Chaves. A essência da segunda divisão me acompanha em qualquer lugar do mundo.

Enfim, em tempos onde os piores ideais conservadores parecem querer assombrar a política do país, que estes tradionalismos retrógrados possam cair para que outras tradições possam florescer no tão agonizante futebol brasileiro.

O porquê de não conseguir odiar o Corinthians

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Torço contra, discuto, zico, vibro quando perde, vibrei demais quando caiu para a série B, vibrei bastante semana passada quando tomaram uma virada espetacular do Atlético-MG, mas nunca consegui odiá-los.

Este senhor, cujo nome lembra o grande filósofo grego, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira desempenhou um papel fundamental na história brasileira e não permite que eu consiga desprezar um momento tão importante dos corinthianos, o movimento criado por Washington Olivetto denominado “democracia corinthiana”.

Em tempos onde a direita coloca suas mangas de fora, lembro do importante papel exercido pelos corinthianos através de Sócrates, Vladimir, Casagrande e outros. Ali existia uma ilha de democracia cercada por um cenário opressor, ditatorial, retrógrado e conservador. Ali se jogava por prazer, o momento de ir ao campo não era a obrigação, era o clímax, palavras do próprio Dr. Sócrates. O bixo, era dividido até com os funcionários do clube.

Ver o clube jogar com a camisa “dia 15 vote”, em alusão as eleições para governador do estado de São Paulo, exercia o papel de chamar a população ao voto e pressionar os militares para que também o fizessem na sucessão presidencial.  No documentário produzido pela ESPN, “Democracia em preto e branco”, percebi que existem vários elementos que nos fazem contrair uma dívida de gratidão junto ao Corinthians em função do papel essencial exercido num meio onde o que impera é a alienação.

O documentário é narrado pela voz de Rita Lee, outra figura pouco explorada na história política brasileira mas de valor incomensurável e conta com a participação de outros encorajadores da democracia, como Fafá de Belém, que para minha surpresa apoia o candidato Aécio Neves nessas eleições.

Um dos pontos altos do documentário é o momento onde a emenda constitucional proposta por Dante de Oliveira em 1984, que acabava com o colégio eleitoral e restabelecia eleições diretas não foi aprovada por 22 votos, sendo Maluf, à época, um dos principais articuladores contrários à medida. Olhar o rosto dos manifestantes, entre eles Sócrates e Casagrande, os olhos marejados de lágrimas e com uma expressão completamente vaga e atônita após a recusa da emenda nos traz um pouco daquele momento, a partir dali, até o próprio Corinthians não seria mais o mesmo.

Em contraposição ao que publiquei no post anterior, quando vejo posições como as de Sócrates e o pedido de demissão do jornalista Xico Sá porque estava sendo bloqueado na Folha por apoiar Dilma, passo a restabelecer minha fé e esperança de que ainda há pessoas que fazem a vida valer a pena, que ainda há espaço para emoções e há uma resistência à onde de ódio e indiferença que insiste em querer dominar a sociedade brasileira.

Enfim, como vi o documentário ontem e fiquei bastante emocionado, me senti obrigado a prestar uma homenagem àquele que foi meu maior ídolo no futebol, mesmo sem ter assistido a uma única partida oficial sua.

Obrigado Sócrates por ter existido e tornado o futebol uma ferramenta de contestação política e de difusão de idéias novas.

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