Jesus Comunista

Sei que esta afirmação faz arrepiar os pêlos de muita gente, o que diria Hitler, que ao ouvir essa afirmação se remexe debaixo do chão onde os seus restos mortais ainda persistem.

Que título mais besta! Sim, mas há uma explicação: o assunto me veio à tona, caros leitores, depois de ler uma passagem do livro “Capitães de Areia”, do baiano Jorge Amado, autor este tão criticado por eu mesmo alguns anos atrás, do alto da minha ignorância. Admito que neste momento, o assunto me incomodou e decidi escrever algo sobre na forma de uma crônica, resultado de alguns anseios que tenho tido nos últimos tempos de compartilhar algumas ideias, sobretudo aquelas erradas e polêmicas.

Voltando ao texto, esta passagem remete ao personagem denominado Padre José Pedro, que argumentava com o Cônego que os capitães da areia deveriam ser julgados pelos seus crimes levando-se em conta a situação de extrema pobreza e carência afetiva em que eles viviam. O Cônego, considerado pelo Padre como mais inteligente e mais próximo de Deus que ele próprio, responde ao Padre que ele era um comunista e que, portanto, era inimigo da igreja.

Nesse ponto paro e faço uma reflexão. De onde vem isso? Por que essa associação entre comunismo e cristianismo (poderia até citar outras) é tão rechaçada?

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse há algum tempo que Jesus teria sido o primeiro socialista (sim, há diferenças claras entre socialismo e comunismo) revolucionário, e que Judas teria sido o primeiro capitalista vendendo Jesus por algumas moedas. Bastou isso para que pipocassem textos e declarações da Igreja, sobretudo católica, criticando a afirmação de Chávez e a classificando como leviana. Por quê?

Este conflito já levou a Igreja Católica a apoiar (ou a não se manifestar, o que dá no mesmo) a limpeza étnica/cruzada de Hitler na Europa. Também se calou, a exemplo de Churchill e Roosevelt, na iminência do ataque alemão à Rússia, tendo depois que admitir e apoiar, muito a contragosto, o regime de Stálin como a única possibilidade até então, de impedir Hitler.

A igreja não apóia o comunismo porque este insiste na evolução da sociedade através da luta de classes, o que levaria à desordem, ao pecado, ao ateísmo, segundo ela própria. Já o cristianismo, totalmente contrária, prega o diálogo e o perdão. Sim, é perfeitamente possível reverter o quadro de extrema diferença entre ricos e pobres apenas no diálogo entre as partes, por isso observamos os Rockefeller dialogando com a população de Serra Leoa.

Deixo claro que a idéia aqui não é defender o comunismo, mesmo porque ele nunca existiu. O que existiu foram tentativas socialistas e que, em muitos casos, fizeram as mesmas atrocidades que outros países fizeram, inclusive deixando mais vítimas que o Nazismo, como foi o regime Stalinista.

Mas tenho que voltar ao tema novamente, mesmo porque não é meu objetivo bancar o anticristo como Nietzsche o fez, tampouco provar a existência de Deus, como Descartes, no seu discurso do Método (naquele contexto social, até o diabo tentaria).

Na realidade, o que vejo é uma grande aproximação da idéia central de ambos. Quanto ao comunismo, mesmo não sendo o objetivo deste texto dissertar profundamente sobre o assunto, arrisco a provocar o leitor afirmando que a idéia central seria o entendimento da sociedade através do materialismo histórico dialético, discutindo a evolução das sociedades ao longo da história sob a ótica do materialismo, da dicotomia entre proletariado x grandes capitalistas. Postula-se que a saída seria a abolição da propriedade privada e do Estado em função de um bem estar social que fosse capaz de diminuir as enormes desigualdades entre os povos. Utópico ou não, essa seria uma idéia, reducionista, do que seria este sistema.

Quanto ao Cristianismo, e aí me preparo pra receber umas severas críticas, tem a idéia central (pelo menos deveria ser) pautada no amor e no bom relacionamento entre os homens, o que nada mais é que vivermos em harmonia uns com os outros e, com isso, recupero as idéias de fraternidade e igualdade entre os povos. Ora bolas, as idéias não se parecem? Ou ainda esperamos que o capitalismo atue com esse papel? Claro que não, o sistema só se sustenta, e não sei até quando, porque existe o rico e o pobre, e é desta dicotomia que derivam tanto o capitalismo quanto o cristianismo, me referindo aqui do séc XV até os dias de hoje.

FIM DA PARTE SÉRIA

Esta aproximação fica clara (?) nos trechos da bíblia aqui reproduzidos. Antes que o leitor pergunte, não, eu não a li inteira, estive ocupado lendo outras obras, mesmo porque, existem muitos outros livros que também merecem a minha atenção.

“Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada” (Mt.10:34). Em outra passagem, Jesus diz:Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt. 10:37).  

Aqui Jesus nos apresenta a idéia de luta de classes, a revolução como saída para o atual modelo de acumulação capitalista, a tomada de poder pelo proletariado! Ou seria o autoritarismo e a intolerância contra a oposição? Pois, se observarmos o contexto, Jesus disse isso em relação àqueles que supostamente não estariam dispostos a segui-lo. De qualquer forma, a idéia é próxima aos regimes que observamos na Rússia Stalinista, 1940 anos depois.

E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas (Mt. 21:12);
13 E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões (MT. 21:13).

Aqui não há dúvidas, a revolta contra a base do capitalismo, o lucro através da mercantilização da mercadoria “religião”. Jesus, com a experiência adquirida como carpinteiro, sabia muito bem o quanto seu trabalho era explorado e o quanto a sua mais valia era roubada.

Mateus 19: 16-26

16 E eis que se aproximou dele um jovem, e lhe disse: Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?

17 Respondeu-lhe ele: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom; mas se é que queres entrar na vida, guarda os mandamentos.

18 Perguntou-lhe ele: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho;

19 honra a teu pai e a tua mãe; e amarás o teu próximo como a ti mesmo.

20 Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda?

21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue- me.

22 Mas o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste; porque possuía muitos bens.

23 Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus.

24 E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.

Esta passagem revela claramente toda a fúria de Jesus contra o sistema de acumulação capitalista. Ainda que existam algumas teorias que interpretem que a palavra Camelo foi mal traduzida do hebraico, e que o “fundo duma agulha” possa significar as portas por onde entravam os habitantes de Jerusalém, essa passagem demonstra, sem dúvidas, que não há reino de Deus para aqueles apegados aos bens materiais. Portanto, a condenação de Jesus não está na riqueza, mas no uso que dela foi feito pelo homem.

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Embora admita que o comunismo e o socialismo pudessem se configurar como religião também, considero um contracenso qualquer manifestação de religiosos cristãos contra tais ideias, pelo menos nos moldes em que estou acostumado a ouvir, já que partilham de ideologias semelhantes. Afinal de contas, me parece que este é o período em que a humanidade começa a repensar seus pré-conceitos, negar a utopia do comunismo é aceitar ISTO e a realidade do capitalismo.

“Se eu dou comida aos pobres, eles me chamam de santo. Se eu pergunto por que os pobres não têm comida, eles me chamam de comunista”. Dom Helder Câmara, 1999.

Para um primeiro post acho que há bastante coisa séria e bastante besteira, aí cada um que decida com qual ficar!

Abraços a todos os irmãos, ou seriam, camaradas?

Filmes recomendados: “Dr. Zhivago” (David Lean), “O Inferno de São Judas” (Aisling Walsh).

Livros recomendados: “Capitães de Areia” (Jorge Amado), “Discurso do Método” (Descartes), “O Anticristo” (Nietzsche), “Junho de 1941 – Hitler e Stalin” (John Lukacs).

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