O porquê de não conseguir odiar o Corinthians

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Torço contra, discuto, zico, vibro quando perde, vibrei demais quando caiu para a série B, vibrei bastante semana passada quando tomaram uma virada espetacular do Atlético-MG, mas nunca consegui odiá-los.

Este senhor, cujo nome lembra o grande filósofo grego, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira desempenhou um papel fundamental na história brasileira e não permite que eu consiga desprezar um momento tão importante dos corinthianos, o movimento criado por Washington Olivetto denominado “democracia corinthiana”.

Em tempos onde a direita coloca suas mangas de fora, lembro do importante papel exercido pelos corinthianos através de Sócrates, Vladimir, Casagrande e outros. Ali existia uma ilha de democracia cercada por um cenário opressor, ditatorial, retrógrado e conservador. Ali se jogava por prazer, o momento de ir ao campo não era a obrigação, era o clímax, palavras do próprio Dr. Sócrates. O bixo, era dividido até com os funcionários do clube.

Ver o clube jogar com a camisa “dia 15 vote”, em alusão as eleições para governador do estado de São Paulo, exercia o papel de chamar a população ao voto e pressionar os militares para que também o fizessem na sucessão presidencial.  No documentário produzido pela ESPN, “Democracia em preto e branco”, percebi que existem vários elementos que nos fazem contrair uma dívida de gratidão junto ao Corinthians em função do papel essencial exercido num meio onde o que impera é a alienação.

O documentário é narrado pela voz de Rita Lee, outra figura pouco explorada na história política brasileira mas de valor incomensurável e conta com a participação de outros encorajadores da democracia, como Fafá de Belém, que para minha surpresa apoia o candidato Aécio Neves nessas eleições.

Um dos pontos altos do documentário é o momento onde a emenda constitucional proposta por Dante de Oliveira em 1984, que acabava com o colégio eleitoral e restabelecia eleições diretas não foi aprovada por 22 votos, sendo Maluf, à época, um dos principais articuladores contrários à medida. Olhar o rosto dos manifestantes, entre eles Sócrates e Casagrande, os olhos marejados de lágrimas e com uma expressão completamente vaga e atônita após a recusa da emenda nos traz um pouco daquele momento, a partir dali, até o próprio Corinthians não seria mais o mesmo.

Em contraposição ao que publiquei no post anterior, quando vejo posições como as de Sócrates e o pedido de demissão do jornalista Xico Sá porque estava sendo bloqueado na Folha por apoiar Dilma, passo a restabelecer minha fé e esperança de que ainda há pessoas que fazem a vida valer a pena, que ainda há espaço para emoções e há uma resistência à onde de ódio e indiferença que insiste em querer dominar a sociedade brasileira.

Enfim, como vi o documentário ontem e fiquei bastante emocionado, me senti obrigado a prestar uma homenagem àquele que foi meu maior ídolo no futebol, mesmo sem ter assistido a uma única partida oficial sua.

Obrigado Sócrates por ter existido e tornado o futebol uma ferramenta de contestação política e de difusão de idéias novas.

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Dossiê Jango (Paulo Henrique Fontenelle, 2013) – Uma parte da história que não foi contada

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É sempre difícil escrever sobre um filme ou documentário porque sempre paira a chance de um spoiler nas entrelinhas. Mas neste post gostaria de comentar bem rapidamente algumas reflexões sobre o período de deposição do ex-presidente João Goulart desde o golpe militar de 1 de Abril de 1964 e seus desdobramentos, tema do documentário Dossiê Jango, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

O documentário conta com algumas gravações da época, inclusive uma que chamou-me a atenção foi a do então presidente americano Lyndon Johson, conversando sobre o complô armado entre militares e governadores brasileiros para derrubar Jango, Johnson chega a mencionar que a operação deveria inclusive seguir os moldes daquela realizada no controle do canal do Panamá. Enfim, são muitos os diálogos interessantes com os principais envolvidos no conflito, é uma obra que deve ser assistida por nós brasileiros, inclusive agora em tempos de eleição. Esse período da história é pouco estudado no Brasil, pouco se fala de Jango e dos desdobramentos da sua deposição nos livros didáticos, nesse sentido entendo que a comissão da verdade tem um papel essencial para que seja feito o resgate dos fatos e, inclusive, julgar e punir os culpados ainda vivos.

Por que Jango foi deposto? Jango tinha mais de 80% de popularidade, havia promovido mudanças sociais importantes, tinha avanços também na questão agrária, no entanto, apesar de ser um exímio capitalista, já que possuía muitas terras em seu nome, foi constantemente acusado pelos opositores de ser comunista, palavra chave para começar qualquer ataque político. O golpe teve apoio também da armada americana, que se preparava para dar apoio, no entanto, o recuo de Jango para evitar uma guerra civil dispensou a ajuda. Mal sabiam, mas ali começava um longo período de repressão, estendendo-se à toda a América Latina.

Do seu exílio em São Borja-RS, percebeu que se quisesse voltar ao Brasil teria que se aliar a antigos desafetos, incluindo o jornalista Carlos Lacerda. Formou-se então a chamada Frente Ampla, que reunia também o ex-presidente Juscelino Kubitschek e surgia como opção política aos militares, que temiam pelo crescimento do levante.

Nesse momento entra em cena a Operação Condor, uma aliança política e militar entre os vários regimes sulamericanos e a CIA americana, com o objetivo de reprimir líderes de esquerda que se opunham às ditaduras e de algum modo se aproximavam de Fidel Castro. Repressão leia-se assassinatos.

As circunstâncias da morte de Jango foram no mínimo estranhas. A versão oficial dá conta de que ele teve um ataque cardíaco, no entanto, não foi feita autópsia no corpo, o que alimenta a tese de um possível envenenamento já que, como relatado no documentário, entre todas as pessoas envolvidas na investigação de sua morte, 18 morreram, incluindo Zelmar Michelini e Gutierrez Ruiz, amigos de Jango e politicos uruguaios que foram sequestrados e assassinados dois anos depois. Na operação Condor havia pesquisas sobre compostos químicos capazes de acelerar o batimento cardíaco com o objetivo de assassinar sem levantar suspeitas, o que se encaixaria na circunstância da morte de Jango. No entanto, essa tese exigiria a existência de um agente duplo, alguém ligado a Jango sob ordens da operação Condor. Além disso, JK, oficialmente morto em acidente de carro também suscita dúvida, já que a exumação do corpo do seu motorista naquele dia indicou uma perfuração no crânio, provavelmente devido a um projétil.

Tentativas de investigação sempre esbarraram na resistência de políticos e da própria esposa de Jango, sobre a qual também pairam suspeitas de envolvimento no caso. Segundo o empresário uruguaio Enrique Foch Diaz e Mário Neira, agente da operação Condor que investigava a vida de Jango à época, a tese do envenenamento é clara e irrefutável. Para o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, que conviveu com Jango no exílio, a tese do envenenamento não se sustenta e ainda critica duramente o uruguaio Mario Neira e também o filho de Jango, João Vicente, que continua a investigar e pedir indenizações para os governos brasileiro e americano, para o historiador, Jango tinha sérios problemas cardíacos e morreu devido a essas complicações.

Aqui relatei os fatos de uma maneira que provavelmente confundiu ainda mais o leitor, portanto, sugiro encarecidamente que vejam o documentário e tirem suas próprias conclusões.

A geografia, isso serve, antes de mais nada, para fazer ciência

Hoje escrevo em homenagem àquela que tem sido a minha companheira nos últimos 8 anos: a Geografia, aniversariante da semana.

Esta ciência se preocupa tanto com a sucessão de processos sociais quanto a sucessão de paisagens num espaço geográfico, conceito chave para esta disciplina. Começa a ser lecionada no Brasil na década de 30, sob forte tradição francesa La Blachiana no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.

No pós Guerra, por influência americana na ditadura Vargas, História e Geografia passam a adotar conteúdos que iam de encontro a esta tendência, numa tentativa de profissionalizar o currículo e estancar discussões mais profundas sobre as realidades sociais. A história, que desde 1930 tinha tendência a servir os anseios de um governo nacionalista, passou a se esconder atrás de seus heróis e análises econômicas estáticas, nós (geógrafos) passamos a querer decorar mapas e descrever infinitas paisagens. Era muito clara a influência americana, o jeito Roosevelt de governar.

Concomitantemente a tais ideias começavam a surgir as bases de uma disciplina que mais tarde substituiria História e Geografia: a maldição dos “Estudos Sociais”. As escolas passavam a adotar conteúdos homogêneos visando à educação para o trabalho, e só pra isso, afinal de contas, o mundo agora se urbanizava e se industrializava. Quem quisesse discutir a sociedade que fosse para U.R.S.S, ou Cuba, talvez.

Na década de 1970, auge da milicaiada, a lei federal 5692/71 consolidou a criação dos Estudos Sociais, misturando conteúdos que iam desde a Educação Moral e Cívica sob a ótica da História, até conteúdos de Geografia de cunho ufanista e nacionalista (Anauê!), um dos motes principais dos milicos. A história se dividia entre a História Geral e a História do Brasil, como se fosse possível, e a Geografia começava e engatinhar nos sistemas de informação Georreferenciados (SIGs).

Nos Estudos Sociais, os alunos aprendiam que o Brasil era homogêneo e sem conflitos sociais. “A relação entre o branco e o Negro no Brasil colonial era isenta de contradições: era um relacionamento até equilibrado, entre pessoas diferentes, e não entre um grupo na posição de colonizador e o outro na de colonizado, posições que inevitavelmente tornam ilusório o equilíbrio nas relações entre os dois grupos” (Eloisa de Mattos Hõfling). A estereotipagem do brasileiro era algo claro e entrava na ideia de suprimir qualquer discussão acerca de conflitos sócio-espaciais, o índio era o barrigudo que não gostava de trabalhar, o brasileiro “social” era sempre brincalhão e improvisador, já o país, ah, este era maravilhoso, tínhamos a floresta Amazônica (precisávamos defendê-la a qualquer custo!) e não havia terremotos (Não?), não éramos um país abençoado mesmo?

Exemplos:

“Riquezas do Litoral (conversa entre o chá, banana, arroz e peixes):

(…) Arroz – Se há tanto peixe no litoral, por que a população é tão pobre?

Peixe – É porque os habitantes pescam de modo primitivo. Não têm aparelhamento próprio e a pesca não está industrializada.” (http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo4/estudos_sociais/leme.htm)

“Complete corretamente as frases abaixo:

(. . .) b. Quem dirige a escola é o . . . . . . . . . . . . .. (diretor, secretário)

c. Quem ensina os alunos é o . . . . . . . . . . . . . . .. (servente, professor)

e. A limpeza da escola é feita pelos. . . . . . . . . . . . . . .. (serventes, secretário)

f. Quem faz a merenda escolar é a . . . . . . . . . . . . (professora, cozinheira).”

(http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo4/estudos_sociais/leme.htm)

Há quem diga que esta época era melhor que a atual, atucanada (SP), pois o professor desempenhava um papel completamente diferenciado daquele que desempenha hoje, afinal de contas, é difícil segurar a ideologia ganhando R$4,00 de vale refeição e uns mil e tantos para 40 horas, né mesmo Tucanada de São Paulo?

No entanto, com o processo de abertura política na década de 80 e uma maior mobilização da população, a luta da AGB (Associação de Geógrafos Brasileiros) e ANPUH (Associação nacional de História), o jogo começou a mudar. A década perdida, as crises econômicas e sociais que assolaram Brasil e o mundo de uma maneira geral, que viu surgir movimentos de contestação como punks e, mais tarde, grunges, alertaram a população para uma realidade que não poderia mais ser ignorada. As novas formas de comunicação gritavam realidades que passavam a ser discutidas também na sala de aula, e as discussões sobre o retorno da História e da Geografia ao currículo dos anos iniciais de escolarização passaram a ser intensas, foi fundamental a aproximação entre pesquisadores de Universidades públicas e as escolas de nível médio.

Em 1982, a Geografia voltava para a escola. Desta vez não mais preocupada em descrever, mas agora em entender, conversando com outras grandes áreas: Sociologia, Filosofia, História, Antropologia, Biologia e Geologia.

As pesquisas científicas também refletem alguns retrocessos, porém muitos avanços, afinal de contas, não servimos apenas para fazer a Guerra.

Parabéns

Filmes sugeridos:

Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), de Silvio Tendler

Montanhas da Lua (1990), de Bob Rafelson

Xingu (2012), de Cao Hamburger.

O auto da compadecida (2000), de Guel Arraes.