Ucrânia e a reedição dos confrontos entre URSS e EUA

Ucrânia - palco dos conflitos
Norte do Cáucaso e Ucrânia – palco dos conflitos

Mais um capítulo de livros didáticos de Geografia está sendo criado nas últimas semanas. Os conflitos na Ucrânia são muito mais de ordem geopolítica, catalisados pela rivalidade entre Rússia e Estados Unidos, do que ideológica, menos ainda pelo direito à manifestações públicas.

A crise ucraniana teve seu estopim com a queda do presidente Viktor Yanukovich em 22 de fevereiro, sob o olhar calmo e sínico de EUA e UE (União Europeia), mas as tensões já vinham desde a sua intenção velada de não assinar o tratado que selaria a entrada do país na União Europeia. Aliado russo, imediatamente provocou uma série de reações na geopolítica praticada por Putin, experiente estadista formado na KGB.

Após o que Putin chamou de golpe de Estado, John Kerry, secretário de Estado dos EUA, manifestou seu apoio ao governo de transição ao acenar com 1 Bilhão de dólares em ajuda. Não é de hoje o interesse de EUA e, é claro, da Rússia no potencial energético da região do Cáucaso, a diferença é que os russos historicamente tem sido aliados a estes países, a exemplo da URSS, já os americanos, gozam de toda a desconfiança dos governantes locais. O conflito também é percebido claramente nos jornais brasileiros, enquanto a Folha enfatiza o lado russo, a Carta Capital enfatiza os interesses americanos, embora com um teor muito mais profundo quando aborda o tema.

A decisão de proibir manifestações na capital Kiev é mais um ingrediente no caldeirão do conflito. Caldeirão também étnico, pois há um claro conflito ali entre Ucranianos do oeste e do leste (de origem e lingua russa). A Criméia, por exemplo, região que já fez parte da Rússia até 1954, clama pelo separatismo e terá um referendo que decidirá se a região será anexada à Rússia ou não, documento que já está nas mãos de Putin.

Trata-se de uma ameaça não só para EUA mas também à UE, que pode ver a Rússia, em ampla recuperação econômica após a crise da década de 90, restituir sua influência no Cáucaso e também no leste europeu. Para o cientista político, historiador e professor aposentado de política exterior do Brasil Luiz Alberto Moniz Bandeira, o conflito é um desdobramento ainda da revolução Laranja de dez anos atrás, onde Yushchenko e Yanukovich disputaram uma eleição cercada de fraudes e tráfico de influência tanto de russos quanto americanos e europeus. Yushchenko era a favor da adesão à OTAN, mas teve que mudar de posição em virtude da pressão russa, parece que é o que também ocorre agora, já que EUA e UE não tem condições de reerguer a Ucrânia em virtude da crise financeira que atravessam. Além da influência na Criméia, os russos possuem base naval em Sebastobol e um porto em Odessa desde o reinado de Catarina, a Grande (1762-1796), ou seja, controlam as saídas para o Mar Negro e os acessos às zonas ricas em recursos naturais como petróleo e gás.

Portanto, ao contrário do que boa parte da imprensa publica, as armas de Putin não estão baseadas em tanques, armas e navios, mas na diplomacia e na propaganda política. Putin tem resolvido conflitos sem ter que realizar um disparo sequer, no entanto, acreditar que os russos planejam acabar com o conflito por pura bondade é o mesmo que acreditar que EUA e UE não possuem interesses ali.

Voltando à cobertura dada pelas mídias, cito aqui o texto publicado pela Forbes, que até ia bem, embora preenchido de asneiras, até este parágrafo:

Most of all, we should approach the current crises with cool heads.  In time, it too will pass.  Russia will remain a corrupt kleptocracy, waiting only for the next oil glut to descend once again into chaos.  We in the West, and hopefully in Ukraine as well, will be free to pursue our dreams in a global community of likeminded nations.

Apenas um exemplo de como a mídia pode ser tendenciosa e, por que não, burra.

Caro leitor, não há mocinhos nessa história, nem Putin e muito menos americanos ou UE.

Sugestões de leitura:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/03/1421408-parlamento-da-crimeia-decide-por-unanimidade-sua-incorporacao-a-russia.shtml

http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-segunda-guerra-fria-4728.html

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/05/clash-crimea-western-expansion-ukraine-fascists

http://www.forbes.com/sites/gregsatell/2014/03/04/5-important-facts-that-the-western-press-is-getting-terribly-wrong-in-ukraine/?utm_campaign=forbesfbsf&utm_source=facebook&utm_medium=social

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O mais pobre entre os presidentes do mundo tem o discurso mais rico da ONU

Jose Pepe Mujica, 78
Jose “Pepe” Mujica, 78

O atual presidente do Uruguai, José Mujica, conhecido popularmente como Pepe Mujica, discursou na ONU por quarenta minutos e abordou questões bastante simples em meio às discussões sempre densas que cercam a entidade. Fugindo um pouco dos discursos tradicionais, o presidente uruguaio discursou sobre o consumismo, a sociedade de acumulação, os gastos inúteis e o atual modelo de civilização.

Mujica citou que o Uruguai passou 50 anos se regozijando da conquista da copa de 50 sobre o Brasil, neste meio século o país era visto como a Suíça, mas na realidade era refém do império britânico e quando este sucumbiu a nação se viu completamente despreparada para enfrentar os novos desafios econômicos que surgiam. Ressaltou ainda a importância da utopia para as sociedades atuais, algo que relata com certa nostalgia dos tempos em que se a esperança nas civilizações era muito maior.

Me angustia, y de qué manera, el porvenir que no veré, y por el que me comprometo. Sí, es posible un mundo con una humanidad mejor, pero tal vez hoy la primera tarea sea cuidar la vida.

O presidente abordou questões delicadas como o embargo inútil a Cuba e os restos do colonialismo nas Malvinas, as espionagens feitas pelo governo americano e ainda ressaltou a necessidade de defender a Amazônia e os grandes rios da América, enfim, parece que as ideias de Pepe casam com as que foram abordadas aqui no blog (Grandes sistemas fluviaisA esquerda pedante e a direita letárgica).

Cargo con las culturas originales aplastadas, con los restos del colonialismo en Malvinas, con bloqueos inútiles a ese caimán bajo el sol del Caribe que se llama Cuba. Cargo con las consecuencias de la vigilancia electrónica que no hace otra cosa que sembrar desconfianza. Desconfianza que nos envenena inútilmente. Cargo con una gigantesca deuda social, con la necesidad de defender la Amazonia, los mares, nuestros grandes ríos de América.

Pepe explorou muito o consumismo. Mencionou o combate ao narcotráfico, à corrupção como as pragas contemporâneas, aquelas responsáveis pela ideia de que somos felizes quando enriquecemos materialmente. Hoje em dia, somos bem sucedidos apenas quando compramos, quando mostramos um carro novo (de preferência zero km, o que aumenta o status da pessoa), quando compramos um Iphone, quando compramos um apartamento 2 vezes mais caro do que era pra custar, enfim, quando consumimos.

El combate a la economía sucia, al narcotráfico, a la estafa, el fraude y la corrupción, plagas contemporáneas, prohijadas por ese antivalor, ese que sostiene que somos felices si nos enriquecemos sea como sea. Hemos sacrificado los viejos dioses inmateriales. Les ocupamos el templo con el dios mercado, que nos organiza la economía, la política, los hábitos, la vida y hasta nos financia en cuotas y tarjetas, la apariencia de felicidad.

Explorou também o que chamou de “a sociedade contra o amor”, tão denunciada aqui pelo blog e pelo ótimo Chico Sá. Hoje não temos tempo para relações humanas, para o amor, para a aventura, tudo isso é negligenciável porque isso é perda de tempo, e tempo é dinheiro meu amigo. É melhor uma viagem a Miami pra comprar do que trilhar a fantástica América Latina, pois a televisão (principalmente brasileira) nos ensina que é perigoso andar pela Bolívia, Colômbia e Equador, que o Uruguai só tem boi, que a Argentina é a Argentina, que a Venezuela só tem petróleo e Chavistas…

Lo peor: civilización contra la libertad que supone tener tiempo para vivir las relaciones humanas, lo único trascendente, el amor, la amistad, aventura, solidaridad, familia. Civilización contra tiempo libre no paga, que no se compra, y que nos permite contemplar y escudriñar el escenario de la naturaleza.

Mujica também salientou que hoje são gastos dois milhões de dólares por minuto em insumos de guerra (que o diga os EUA, que precisam sempre de um conflito pra desovar os investimentos feitos), enquanto o que se gasta em pesquisas na área de medicina é um quinto do que se gasta com armamentos. Para ele, toda vez que a política fracassa entramos em guerra e isso nos joga diretamente na pré-história. Citou com perplexidade o caso da lâmpada que está acesa a 100 anos na Califórnia e como gastamos com coisas inúteis, o quanto somos forçados ao consumo inútil. Pepe não citou, mas este raciocíno se aplica também à obsolescência programada, um claro ataque a sociedade que se vê obrigada a consumir mais e em conta gotas.

Importante citar que o Uruguai vem dando grandes passos políticos como a liberação do uso da maconha e o controle total do Estado sobre a produção, a legalização do aborto e um eficiente sistema de previdência social.

Muitos dirão que Mujica é mais um esquerdinha populista como tantos outros. Quem dera se isso fosse o ruim…

Por fim, não quero ser muito longo na reflexão e penso que abordei os principais pontos que me chamaram a atenção, se o leitor quiser conferir o texto na íntegra aqui vão os links:

Texto: http://www.republica.com.uy/discurso-completo-de-mujica/

Vídeo: