O choro é livre sim.

Não gostaria que fosse numa ocasião como a de ontem, mas há tempos que venho ensaiando, tentando voltar a escrever e reativar o blog. O fato é que entre tantas obrigações, mudanças, responsabilidades e decisões nós acabamos por nos privarmos daquilo que de fato nos dá prazer também, é assim com todos, foi assim com este que vos escreve.

Agora, meia noite e doze, correndo o risco de prejudicar o dia de trabalho que está por vir, escrevo sobre algo que me fez voltar a colocar em palavras sentimentos que muitas vezes nos passam despercebidos. Particularmente, ter começado a escrever nesse blog há alguns anos atrás mudou minha vida e fez com que uma série de emoções antes reprimida em poucas falas tivesse expressão na linguagem escrita.

A tragédia ocorrida com o time da Chapecoense machucou demais. Quem me conhece sabe como respiro futebol desde que me conheço por gente, tenho um amor e predileção essencialmente pelos clubes pequenos, o futebol na América latina, a História e a Geografia que o futebol conta, o canto das torcidas. Escrevo que hoje é um dos dias mais tristes da minha vida, talvez até além da morte do Senna, porque hoje, a violência e a rapidez com que as vidas de jogadores, jornalistas e tripulantes foram tiradas se compara a de um empurrão daqueles que nos fazem cair no chão sem rumo.

Durante todo o dia senti um nó na garganta quando lembrava da comemoração narrada pelo Deva na Fox Sports, lembrei do espírito do Índio Condá tirando uma bola no último minuto de jogo. Senti duramente enquanto trabalhava no microscópio da Universidade que o ex-jogador e comentarista Mário Sérgio não estaria mais na tela do meu notebook quando fosse almoçar com minha namorada todos os dias, assim como o Vitorino e o PJ.

Conduzi isso durante todo o dia. A Chape, numa Chapecó de mais de 200.000 pessoas, que passaram certamente por um dos piores dias de suas histórias, homenagens por todo o mundo dos mais variados times, a comoção que isso gerou, o Corinthians usando o verde na sua página, enfim, eu conduzi e segurei isso tudo.

Mas eu não aguentei. Mas eu deveria aguentar?

Enquanto jantava e observava o Canalha na ESPN falar sobre o acontecido, o Mauro César segurar o choro, percebi instantaneamente que o motor de tudo isso foi o futebol. Esse esporte que alguns insistem em tentar estragar, era ele, na realidade, que estava por trás de tudo isso. Ao mesmo tempo que foi ele o gerador da tragédia, será por ele que ela será superada.

E quando percebi isso eu chorei. Chorei pelos jogadores, chorei pelos jornalistas, chorei pela violência da tragédia, chorei pelo futebol, chorei pelos amigos que também são loucos por futebol, chorei por mim, mas também chorei por ver e perceber um mundo que deu sinais de que nem tudo é algoritmo, nem tudo é ódio, nem tudo é intolerância.

Mesmo tendo a consciência de que para os celtas, para algumas tribos indígenas brasileiras e outras culturas orientais a morte não é algo que se deva tratar necessariamente com tristeza, acontecimentos como o de hoje tornam essa missão extremamente complexa.

Chore, pois o mundo, ao contrário do que as pessoas no facebook insistem em tentar lhe convencer, não é feito só de alegria e vitórias, as derrotas e as tristezas existem para balancear o universo.

Viva a Chape, viva os jornalistas da fox, globo e demais, viva os tripulantes, viva as pessoas, viva o futebol, e chore quando tiver vontade.

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Eurocopa: Precisamos enxergar e refletir!

Tenho acompanhado alguns jogos da Eurocopa, aquele mesmo torneio que é menosprezado em sua versão sulamericana, onde jogam times convidados com suas equipes juniores e as principais seleções lutam pra que seus melhores jogadores “possam” jogar. Lá eles não só fazem questão de jogar (os jogadores), como consideram o segundo torneio mais importante deles. Nós menosprezamos a nossa…

Apesar de algumas decepções, como o futebol péssimo mostrado pela Holanda, o torneio tem se mostrado de altíssimo nível, há quem diga que está melhor que a própria copa do mundo. A Rússia, apesar de ter sido eliminada pelo regulamento absurdo e pela sua própria soberba, mostrou um futebol bonito, de bastante movimentação. A Alemanha, favorita na copa do mundo no Brasil, também vem bem, conta com uma equipe entrosada, um ótimo meio campo e um centroavante em grande fase, Super Mário Gomes. A França também mostra força, ao lado de Portugal, que comandado pelo Puto Maravilha pode buscar algo.

O que me preocupa é o alto nível apresentado pelos jogos, nenhum 0 a 0 e muito bem disputados. Acho que é chegado o momento de admitir que não temos mais o melhor futebol do mundo. Isso não significa se acovardar, o futebol do Brasil mudou e não temos mais aqueles jogadores fora de série que nos proporcionavam jogar como bem entendíamos que a qualquer hora esquartejaríamos o adversário.

Hoje o nosso meio campo é fraco, os laterais são comuns, não temos mais nenhum Romário, Ronaldo ou Rivaldo. Temos apenas um Neymar, que ainda oscila muito e não fará a diferença sozinho.

Esta é uma ótima oportunidade para enxergarmos que não podemos ganhar sempre, embora a mídia e o brasileiro em geral ache que isso é regra. O importante é esquecer que existe muito dinheiro por trás disso tudo e apenas praticar nosso futebol com prazer. Mas aí também teríamos que esquecer também dos interesses e das ligações políticas envolvidas, dos crimes, das fraudes e da corrupção.

Aí eu caio da minha cama aqui no meu mundinho encantado e vejo que tudo não passou de um sonho. Afinal de contas o lema não é vamos jogar bola?

Apesar de entender que o futebol, como tantos outros esportes que tenho também citado aqui no blog, não é uma atividade isenta de falcatruas e maracutaias, eu o amo e jamais conseguirei ficar sem ele. Por isso acho importante sempre fazer uma análise crítica e consciente das coisas, escrevo isso porque tenho visto muita gente por aí associar futebol à ignorância política do brasileiro, isso é uma falácia tão ardiolosa e reducionista quanto aquela que associa jogadores de games violentos à criminalidade.

Voltando à Eurocopa, vou ser audacioso no meu palpite: França campeã.

E você? Qual é o seu palpite?