A Náusea de Sartre e a Angústia de Graciliano Ramos

Angústia – Graciliano Ramos

Ambos autores exploraram de um modo ímpar, que só os grandes conseguem fazer através da escrita, a solidão do homem.

Em Sartre, o personagem Roquentin conduz o livro sempre sob sensações de náusea, sempre que pára e começa a observar as pessoas e as situações, inclusive a sua própria. Em muitos dos momentos discute a existência humana. É um personagem extremamente solitário, mesmo quando está em contato com os outros personagens do romance, a sua ex namorada Anny e o autodidata. Aliás, muito da sensação de solidão do livro vem dos poucos personagens apresentados.

Talvez o momento mais nauseabundo do livro se dá quando Roquentin percebe que o Autodidata, personagem que lia livros na biblioteca pela ordem alfabética, é um pedófilo e enquanto lê e ensina sobre os livros que lê, abusa de garotos. Nesse ponto a Náusea se mistura com um sentimento angustiante para o leitor, que se vê na angustia de tentar fazer alguma coisa pelo personagem e ao mesmo tempo se sente enojado com a situação. Neste momento também Sartre mostra seu humanismo. O personagem Roquentin tenta separar o corso da biblioteca, que ao ver a cena parte para cima do autodidata distribuindo-lhe socos. Ao mesmo tempo, não suporta a pedofilia do autodidata mas também entende que aquilo (a biblioteca) era a vida dele, por isso sente compaixão em alguns momentos.

Já em Angústia, Luís Silva era funcionário público que trabalhava o dia todo numa repartição e morava numa casa velha cheia de ratos. Angustia talvez não seja suficiente forte para expressar o que o leitor sente ao ler o livro, melancolia, derrota, tristeza e outras tantas palavras descreveriam melhor a intensidade da percepção do leitor com o desenrolar da história.

Luís Silva se apaixona por sua vizinha, Marina, e a pede em casamento, entregando-lhe todas as suas economias. É aí que surge a figura de Julião Tavares, que possuía dinheiro e uma condição social muito mais interessante para Marina do que Luís Silva. Ela abandona Luís.

Angustiado, ele ainda a observa da sua casa em  seus encontros com Julião. Graciliano consegue explorar cada momento degradante do personagem, deixando o leitor sentir uma pena incontrolável do personagem.

Na medida que a raiva do leitor aumenta, Julião passa a abandonar Marina e em certo dia Luís a segue até um local onde residia uma parteira, enquanto ele a espera, bebe cachaça no bar. Bom, aqui dispensa comentários. Os demais desenlaces do livro deixo para quem estiver lendo o blog relembrar ou para quem não leu, que o faça o mais rapidamente.

Sartre e Graciliano exploram a degradação humana e o uso de recursos semióticos como poucos, daí talvez é que venha a sensação de que o leitor quase participa da obra. A dúvida existencial e a solidão são o carro chefe dos dois autores, pelo menos nestas duas obras. Nunca li dois livros que, como estes, refletissem tanto o conteúdo e as percepções que o leitor tem ao avançar no enredo da obra.

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Carta de Intimação à Gabriel Garcia Marquez, Mário Vargas Llosa e Graciliano Ramos

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Carta de intimação aos senhores:

Gabriel Garcia Marquez

Mário Vargas Llosa

Graciliano Ramos

Caros,

Sr. Gabriel Garcia Marquez, nascido em Arataca – Colômbia, gostaríamos de esclarecimentos quanto à sua criatividade. No seu livro Cem anos de Solidão, você cria uma estória com uma série de personagens densas, que interagem entre si e possuem características inatas, às vezes nos perguntamos se estas pessoas realmente existiram, tamanha veracidade dos seus relatos, estes tais Aurelianos, Buendias e José Arcadios. Além disso, em O General em seu labirinto, o Sr. ousou criar um enredo contando as últimas horas de vida daquele a quem chamam de “O libertador” da América, Simón Bolívar, mas para nós trata-se de mais um arruaceiro, assim como tantos outros que surgiram na América latina. Diante destes fatos, somos obrigados a perguntar de onde vem a sua brilhante capacidade criativa, temos testemunhas que afirmam que o Sr. adquiriu a criatividade de mais 1000 pessoas. Aguardamos esclarecimentos.

Sr. Mário Vargas Llosa, nascido em Arequipa – Peru, o seu caso não é menos complicado que o do Sr. Gabriel. Na sua obra A Casa Verde, além de fazer menção à prostituição e a casas de amor, atividades proibidas pela lei e pela moral social, o Sr. ousa descrever com perfeição a região de Iquitos e Piura, na Amazônia peruana e além disso, descreve e relata as populações locais piuranas, mangaches e gallinaceros, tribos huambisas e aguarunas como nenhum geógrafo ou antropólogo ousaria fazê-lo. Sua forma de escrever, misturando-se às falas dos personagens, revela que não seria possível uma descrição tão perfeita, a menos que o Sr. tenha roubado a memória deles. Aguardamos esclarecimentos.

Sr. Graciliano Ramos, nascido no Rio de Janeiro – Brasil, além das acusações a seguir listadas, o Sr. era comunista, portanto, viemos intimá-lo a dar esclarecimentos sobre isto também, onde quer esteja (provavelmente no inferno, com esta orientação política). Em Vidas Secas, onde o Sr. relata com perfeição uma família de retirantes nordestinos em busca de água uma vida descente, foi capaz de criar uma ligação tão forte com as classes mais pobres que a obra é utilizada em nossos vestibulares até hoje. Em São Bernardo e em Angústia (como foi possível o título resumir tão perfeitamente sua obra assim?), o Sr. levou quase todos os seus melhores leitores à depressão profunda, dúvidas existenciais e, em casos extremos, ao alcoolismo. O Sr. é acusado de querer controlar as massas populares através de uma literatura surpreendemente maravilhosa para um brasileiro e, pior ainda, para um comunista. Aguardamos esclarecimentos.

Sem mais,

Der Führer

Adolf Hittler