A outra história haitiana

tropas-estrangeiras-haitiEx-colônia francesa, a história do Haiti vem ganhando bastante espaço na mídia internacional, sobretudo no Brasil, país que participa ativamente na tentativa de “estabilização política” através de “missões de paz” realizadas pelo seu exército. As aspas se fazem necessárias porque nós raramente paramos pra pensar qual a dimensão das palavras e expressões com que somos bombardeados diariamente, incluindo este autor.

Primeiro país latinoamericano a tornar-se independente, o país sofreu com seguidas ditaduras e uma crônica crise social e econômica desde então. Quando colônia, chegou a competir no mercado internacional com o açúcar brasileiro no séc.XVIII. Por sua posição estratégica na América Central, caminho do canal do Panamá que liga as três Américas e pela possibilidade de controle inclusive do território de Cuba, o país foi alvo de intervenções americanas desde o início do séc XX.

Em 1993, após seguidos golpes militares, Jean Bertrand Aristide é reconduzido ao poder com auxílio dos Estados Unidos, ele havia sido eleito em 1990 com 67% dos votos. Naquele mesmo ano (1993), grupos paramilitares impediram o desembarque de soldados norte-americanos integrantes de uma força de paz da Onu, em 1994 o mesmo órgão decretou bloqueio total ao país. A junta militar que governava o país após a deposição de Aristide em 1990 empossou um civil para exercer a presidência até as eleições de 1995, que foi denunciada como ilegal pelos EUA. Neste momento a ONU autoriza a intervenção militar, liderada pelos americanos. Como resultado, Aristide foi reconduzido ao poder e teve que lidar com um cenário de destruição, além do bloqueio comercial e crises sociais.

Sua reeleição em 2000 foi marcada pela suspeita de manipulação, em 2004 o exército deu início a um golpe militar que culminou com a condução de Aristides ao seu asilo na África do Sul. É neste ponto que a participação brasileira toma corpo no país, o presidente interino requisitou assistência das Nações Unidas para auxílio na transição política e segurança interna. Foi criado então o MINUSTAH (Missão Nacional das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti) pelo conselho de segurança da ONU, que seria liderada pelo Brasil mas que possuia ajuda de outros países como Argentina, Bolívia, Chade, Chile entre outros.

Segundo o pesquisador haitiano Franck Seguy, que defendeu tese de doutorado na Unicamp com o título A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, a atuação brasileira no país faz parte de um projeto subimperialista em busca de uma cadeira no conselho de segurança da ONU.

Para o pesquisador, o Brasil à época sob o governo Lula, queria mostrar aos atores da política internacional que era capaz de lidar com a situação, sendo portanto merecedor de um posto de maior destaque na ONU. Seguy vai ainda além, denuncia que esta ação imperialista do Brasil também tem motivação econômica, já que o Haiti oferece uma extensão para o mercado brasileiro no setor têxtil, além disso, José Alencar, à época vice presidente, era um dos maiores empresários do mundo no setor, sendo o filho dele bastante atuante naquele país. Segundo o autor, um estudo realizado antes do terremoto de 2010 por um economista chamado Paul Collier apontava que a mão de obra mais barata existente era a haitiana, ainda mais barata que a chinesa.

Definindo a questão, Seguy aponta que estes dois fatores explicam porque o Brasil ocupa o Haiti e presta este serviço terceirizado ao imperialismo. Para ele os EUA terceirizaram o papel imperialista a outros países, por esse motivo encontram-se lá militares brasileiros, chilenos, bolivianos, paraguaios, uruguaios, senegaleses entre outros.

Voltando ao primeiro parágrafo do texto, onde as aspas foram usadas na palavra estabilização, Seguy aponta que a “missão de paz” nada mais é do que uma garantia da ordem vigente, ou seja, precariedade, manutenção do trabalhador ganhando 4 dólares/dia. Para ele o papel da Minustah é reprimir movimentos sociais e operários de um modo geral.

Claro que a grande mídia mostra um soldado brasileiro ajudando alguém individualmente, chorando, para mostrar o soldado brasileiro como um sujeito simpático e sensível à miséria humana. Claro que a grande mídia faz isso, para enganar quem não vai analisar com profundidade. Mas quem convive com os haitianos sabe que o Exército está fazendo um papel muito repressivo em relação ao povo.

O episódio da morte do general brasileiro Urano Teixeira da Mata Bacelar, oficialmente considerada como suicídio, pode ser alvo de manipulação pois há indícios da perícia que refutam essa tese, além disso, o general naquele período havia contestado uma ordem oficial dizendo que os haitianos não precisavam de repressão, mas sim de ajuda pra sair da miséria. Ainda não se sabe ao certo as circunstâncias de sua morte.

A fragilidade do Haiti é gritante, o terremoto de 2010 de 7.2 na escala Richter matou 300.000 pessoas, enquanto um evento de 8.9 no Chile fez 100 vítimas. Esta somatória de atenuantes faz com que haja elevada migração de haitianos para outros países, sobretudo o Brasil, conforme parcialmente explorado em texto anterior para o site Causas Perdidas (LINK). No entanto, ao contrário do que foi mostrado por nós neste texto, o pesquisador haitiano diz que mais de 80% daqueles que possuem diploma superior está fora do país, e que no Canadá, somente em Quebec, existem mais médicos haitianos do que no próprio Haiti, ou seja, apenas a fração menos qualificada é aquela que está migrando para o Brasil.

Migração esta que já foi alvo de discussão acalorada entre o governador do Acre Tião Viana e Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o segundo acusava o primeiro de “enviar” haitianos para São Paulo sem qualquer tipo de preparação ou estrutura.

Este texto traz uma série de informações novas a respeito da questão haitiana, uma outra história, um outro lado de ver a questão, o mais importante, o lado de um pesquisador que entende in loco o xadrez geopolítico envolvido. Ou seja, o Brasil exerce, em menor escala, o papel imperialista que tanto criticou nos EUA, e começa a sentir os efeitos colaterais de suas ações, como o desejo do povo haitiano de que a MINUSTAH saia do país imediatamente.

A impressão que nos dá é a de que o sonho do oprimido é ser o opressor, nem que pra isso tenha que jogar o seu jogo sujo.

Links:

http://www.brasildefato.com.br/node/28632

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Haiti

A fronteira imaginária (?) entre Acre e Haiti

Ufa! Quase dois meses sem postar um texto! Período atribulado entre relatórios, fim de ano, produção de cerveja e por aí vai.

Um assunto tem me chamado a atenção ultimamente. Assisti ao belíssimo filme La Jaula de Oro (2013), do diretor Diego Quemada-Díez e fiquei espantado ao ver como funciona todo o processo de imigração e todo o “trabalho” dos Coyotes (pessoas responsáveis pelo translado até o país de destino). Neste filme, o diretor abordou a travessia de três crianças guatemaltecas do seu país de origem até os Estados Unidos, atravessando todo o México.

Por ali atravessam anualmente 260 mil mexicanos, entre legais e ilegais.

Fiquei pensando no Brasil e a sua continental fronteira. Aí li que mais de 6.000 haitianos entraram no Acre em 2013 e fiquei surpreso pelo volume. Além das fronteiras físicas, existem as que não podem ser vistas, são criadas em função de crises econômicas específicas, identidade e não respeitam a topologia das fronteiras físicas. A fronteira do Haiti com o Acre pode não existir fisicamente, mas nos termos que expliquei acima ela é significativa.

Ilustração produzida pelo portal G1
Ilustração produzida pelo portal G1

Qual é o impacto trazido pela chegada de 6000 pessoas a uma cidade como Brasiléia (AC)? Com uma população estimada em 22.899 pessoas? Atualmente apenas preconceito e problemas de infra estrutura.

No entanto, creio que seja uma oportunidade interessante pela qual os Estados Unidos também passam e se aproveitam, apesar da xenofobia por lá andar solta em estados como Texas, Arizona, Califórnia e Novo México.

Ao contrário de nossa colonização, onde fomos ocupados de maneira exploratória e predatória, temos a oportunidade de organizar algo diferente. Muitos dos haitianos que migram para o Brasil são qualificados, entre eles há muitos engenheiros, professores, advogados, pedreiros, mestres de obras e carpinteiros. Não preciso nem mencionar que o Acre necessita muito de mão de obra qualificada, estendendo-se para Porto Velho (RO) e Manaus (AM), inclusive por conta de obras no rio Madeira, estádio para Copa do Mundo e, o mais importante, o desenvolvimento local.

Me parece aqui mais uma grande oportunidade do Brasil mostrar que trata seus imigrantes de maneira diferente dos demais anfitriões tanto europeus como americanos, sempre muito criticados por nós.

Acabo de ler também que o ministério da Justiça pretende fechar a fronteira temporariamente, aguardemos pra ver se isso é uma medida cautelar ou se mais uma vez vamos preferir ter menos dor de cabeça e simplesmente cortar a oportunidade pela raiz. Aliás, aqui peço ao leitor a chance de desviar do assunto. Críticas ao Brasil e ao brasileiro são comuns e construtivas, ainda mais agora com tanta gente indo para o exterior e vivendo outras realidades, mas essas comparações estúpidas com Estados Unidos, tirando aquelas com relação ao mercado imobiliário, estão dando no saco galera, vamos estudar mais e comparar coisas no mesmo contexto, caso contrário de que adianta tanta gente ir pra fora do país?

Voltando ao assunto do post, se o Acre é esquecido pelos brasileiros, motivo de  piadinhas sobre sua real existência ou não, parece que os haitianos o conhecem muito bem.