Cheia e inundações no rio Madeira: evento anômalo ou tragédia anunciada?

É o maior afluente do Amazonas, quinto maior do mundo em termos de vazão média anual (32.000 m3/s), 3 vezes a vazão do rio Xingu e 80 vezes maior que as vazões do rio Pardo e rio Mogi Guaçu, dois dos maiores rios do estado de São Paulo, para que possamos ter parâmetro de comparação. Produz mais carga sedimentar (sediment yield) que o próprio Amazonas (330t/km2/ano), contribuindo com mais de 50% da carga sedimentar em suspensão carregada pelo mesmo. Quando comparamos com outros gigantes, o rio Negro (6o do mundo em vazão) e o rio Congo (2o), que produzem 11,5 e 9t/km2/ano, respectivamente, conseguimos ter a dimensão da importância do rio Madeira para a bacia Amazônica. Seus afluentes que drenam os Andes peruanos e bolivianos também são caracterizados por possuir alta carga sedimentar em suspensão e alta produção de sedimentos.

A construção da barragem no rio Madeira funcionaria como uma armadilha para a retenção de sedimentos na área à montante da usina hidrelétrica, neste caso, grande parte dos sedimentos em suspensão que alimentam o rio Amazonas hoje ficariam retidos. Isso traria consequências desastrosas para um sistema fluvial tão complexo, já que alteraria todo o balanço de sedimentos que são armazenados na planície fluvial do Amazonas, limitando a chegada de nutrientes em certas áreas. Além disto, existem depósitos auríferos na planície do Madeira, estamos entulhando ouro pra poder produzir energia elétrica sem qualquer cuidado…

Sim, isso eu escrevi num post do dia 27 de maio de 2013, e que diante dos acontecimentos recentes, devo retomá-lo.

Em Humaitá-AM o nível do rio atingiu 25,56m na última quinta feira, em 1997, já havia atingido 23m. Já em Porto Velho-RO, alguns kms à montante, atingiu 19m, embora já tivesse atingido 22m dias atrás, em 1997, chegou a 17m. Portanto, as cheias são um fenômeno natural em qualquer sistema fluvial, sobretudo numa região tropical equatorial e com contribuição do sistema andino, através dos rios Madre de Dios e Beni. As cheias são normais, mas a sua duração atual não.

Vamos aos fatos. Existem duas hidrelétricas recentemente construídas no Madeira. A primeira é a de Jirau, 120km de Porto Velho-RO, em funcionamento desde 2012.

Região onde foi construída a hidrelétrica de Jirau. (1969)
Região onde foi construída a hidrelétrica de Jirau. (1969)
Jirau 2013
Jirau 2013

A ela se atribui possíveis problemas de inundações na Bolívia, já que a barragem faz com que sedimentos se acumulem no reservatório e a velocidade do rio diminua, com isso, trechos à montante correm risco de inundações em locais onde anteriormente não se esperava, é o que os engenheiros chamam de curva de remanso. No entanto, os reais efeitos ainda são desconhecidos, já que um volume enorme de sedimentos também são retidos na barragem e há uma alteração também na dinâmica do canal e no balanço de erosão/deposição, principalmente à montante, onde há maior risco.

Segundo o pesquisador Phillip Fearnside (do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)) a carga de sedimento transportada pelo Madeira em Jirau é de 750 milhões de toneladas/ano, 15 vezes maior que a carga carregada pelo Nilo antes da represa de Aswan, segundo o EIA (Estudo prévio de Impacto Ambiental) haveria uma retenção de 20% nos primeiros anos, muito maior do que os 12% apresentados no RIMA (Relatório de Impacto Ambiental), e acima do 5-6% retidos no Nilo, portanto, é algo que é bastante preocupante.

A segunda usina hidrelétrica é a de Santo Antonio, 7km da capital estadual Porto Velho-RO.

Região da usina de Santo Antonio em 1969
Região da usina de Santo Antonio em 1969
Região da Usina Santo Antonio em 2013
Região da Usina Santo Antonio em 2013

A ela se atribui, além da negligência na regulação das vazões, já que tanto Santo Antonio quanto Jirau demoraram para iniciar os procedimentos para regular o volume de água nos reservatórios,  a velocidade do rio foi alterada à jusante e há relatos de erosão na cidade de Porto Velho, ao passo que em 2012 cerca de 300 casas foram derrubadas ou condenadas (Carta Capital – Link).

Foi decretado estado de calamidade pública em Rondônia, o Acre antes socialmente e politicamente isolado, agora se encontra isolado também físicamente, já que a BR 364 teve trechos inundados em alguns dias e teve que ser interditada por algumas horas durante o dia, pois não era possível a passagem de caminhões e carros.

Evidentemente o evento é anômalo e um dos piores dos últimos 50 anos. No entanto, determinadas situações seriam evitáveis caso não houvesse pressa e ganância por parte do governo e principalmente dos consórcios envolvidos, ávidos pelo dinheiro e pelos lucros gerados relevam uma série de aspectos. Além disso, a promessa de renda para uma região economicamente frágil impulsionou também a pressão popular pelo início e cumprimento do cronograma de obras, não obstante os inúmeros relatos de mortes nos canteiros de obras em virtude das más condições de trabalho. Os fins seriam justificáveis, se não fossem os meios.

Apenas a título de exemplo, e que o leitor pode fazer também na ferramenta do Google Earth, criei um perfil topográfico de parte (isso mesmo) da planície fluvial do Madeira, pois ela é bem maior.

Perfil topográfico. Google Earth
Perfil topográfico. Google Earth

Observa-se que a cidade de Humaitá – AM foi construída parte sobre a planície e a porção mais a leste está ainda sobre o Levee, depósitos de areia grossa e cascalho que são acomodados após períodos de chuva intensa onde a vazão do rio é maior. A reta vertical no perfil marca o início da cidade até a sua margem com o Madeira, note que a cidade está somente 10-12m acima do curso do rio, ou seja, naturalmente sujeita à inundações. Tem ainda sua situação agravada pela presença de duas hidrelétricas à montante. Importante notar também que a topografia é bem plana, os picos que o gráfico mostra na realidade são resultado da interferência da copa das arvores no satélite, que por sua vez interfere na imagem.

Ressalto ainda que as hidrelétricas também impactam a fertilidade dos solos ao longo da planície fluvial à jusante, já que uma menor quantidade de sedimentos será depositada e por sua vez menos nutrientes estarão disponíveis para incorporação no solo.

Portanto, as preocupações que este humilde autor expressava já em maio do ano passado tornaram-se pauta novamente, ainda é cedo para que se aponte o impacto causado pelas obras, por outro lado o fato de que já se estuda refazer os relatórios de impacto para a área é sinal de que algo está errado.

Fontes:

Carta Capital – Link

Publicações Philip Fearnside –  Link 

A destruição dos grandes sistemas fluviais tropicais.

Em volta aos grandes conflitos sociais envolvidos na construção da hidrelétrica do rio Xingu, poucos dão importância para o rio Madeira.

Foz do Madeira e do Negro com o Amazonas
Foz do Madeira e do Negro com o Amazonas

É o maior afluente do Amazonas, quinto maior do mundo em termos de vazão média anual (32.000 m3/s), 3 vezes a vazão do rio Xingu e 80 vezes maior que as vazões do rio Pardo e rio Mogi Guaçu, dois dos maiores rios do estado de São Paulo, para que possamos ter parâmetro de comparação. Produz mais carga sedimentar (sediment yield) que o próprio Amazonas (330t/km2/ano), contribuindo com mais de 50% da carga sedimentar em suspensão carregada pelo mesmo. Quando comparamos com outros gigantes, o rio Negro (6o do mundo em vazão) e o rio Congo (2o), que produzem 11,5 e 9t/km2/ano, respectivamente, conseguimos ter a dimensão da importância do rio Madeira para a bacia Amazônica. Seus afluentes que drenam os Andes peruanos e bolivianos também são caracterizados por possuir alta carga sedimentar em suspensão e alta produção de sedimentos.

A construção da barragem no rio Madeira funcionaria como uma armadilha para a retenção de sedimentos na área à montante da usina hidrelétrica, neste caso, grande parte dos sedimentos em suspensão que alimentam o rio Amazonas hoje ficariam retidos. Isso traria consequências desastrosas para um sistema fluvial tão complexo, já que alteraria todo o balanço de sedimentos que são armazenados na planície fluvial do Amazonas, limitando a chegada de nutrientes em certas áreas. Além disto, existem depósitos auríferos na planície do Madeira, estamos entulhando ouro pra poder produzir energia elétrica sem qualquer cuidado…

Outra importante alteração será no sumidouro destes sedimentos, ou seja, a pluma de sedimentos armazenados na foz do Amazonas junto ao oceano atlântico, que inclusive tem influência até no clima. Pouco têm se falado da barbaridade que consiste tais obras. Todos os holofotes estão sobre o rio Xingu que, é claro, possui suas particularidades sociais, mas do ponto de vista dos impactos, é menos danoso do que o Madeira.

Quanto à transposição do São Francisco, ao longo dos últimos anos, a vazão medida no velho Chico vem caindo paulatinamente devido à construção de barragens, especialmente as de Sobradinho e Xingó. A vazão caiu de 3169m3/s para 1654m3/s no período de 1959 a 2004, medido na estação de Piranhas (Fontes et. al, 2010), ou seja, uma queda de quase 50% da vazão original em menos de 50 anos.

Obras da transposição do São Francisco
Obras da transposição do São Francisco

A transposição prevê a capacidade máxima de transporte dos eixos leste e norte de 99 m3/s, sendo que o eixo norte retiraria 29 m3/s do rio para o abastecimento de 390 municípios. O que se discute é que hoje há um roll enorme de áreas com obras para melhorar o abastecimento nos locais mais necessitados, que não necessitariam de uma obra tão impactante no meio físico. Após as construções das hidrelétricas de sobradinho e Xingó os efeitos foram acentuados, surgiram focos erosionais no baixo curso que antes não existiam, a concentração de sedimentos caiu de 70mg/l em 1970 para 27mg/l após a construção da barragem de Sobradinho, depois da barragem de Xingó, nos anos 2000 e 2001, oscilou entre 4 e 8mg/l (Fontes et al., 2010). Isso é drástico, pois muito do aporte dos nutrientes carregados pelo rio e depositados nas planícies fluviais chegam em menores quantidades, nesse sentido, há um problema de ordem da manutenção da fertilidade do vale do São Francisco.

Enfim, dos 10 maiores rios do mundo (em vazão média anual), 5 estão no Brasil:

 1) Amazonas

2) Congo

3) Orinoco

4) Yangtzé

5) Madeira

6) Negro

7) Brahamaputra

8) Japurá

9) Paraná

10) Mississippi

Estamos destruindo a todos sem qualquer discussão SÉRIA sobre o assunto, discussões que incluam geomorfologistas fluviais brasileiros, aqueles que, em teoria, deveriam opinar e colocar na balança qual tipo de desenvolvimento queremos e a que custo.

Leituras usadas e sugeridas:

Fontes, L.C., Latrubesse, E., Holanda, F.S., Aquino, S. (2010). Major Hydrological Changes and Bank Erosion in the Lower São Francisco River, Brazil, as a consequence of dams. In: C. Garcia, M., Latrubesse, E., Perillo G. (Eds). RCEM 2009 River Coastal and Estuarine Morphodynamics, Vol. 1 and 2., CRC Press-Taylor Francis Group, Netherlands, 131-136.

Latrubesse, E. M., Stevaux, J. C., and Sinha, R., 2005, Tropical rivers: Geomorphology, v. 70, p. 187-206.