“Dê-me uma mulher que goste de cerveja e eu conquistarei o mundo”. Dia 28/08 – Homenagem à Santo Agostinho, padroeiro dos cervejeiros.

Assim disse o Kaiser Wilhelm II, último imperador alemão e rei da Prússia, constatando o que muitos homens pensam, inclusive este que vos escreve.

Apesar de ter mencionado que falaria de cerveja este será o primeiro post sobre.

Os primeiros registros de fabricação de cerveja remontam há 3400 A.C, aproximadamente 100 anos depois do desenvolvimento da escrita. O homem aprendeu primeiro a beber e depois a escrever…

Acredita-se que a cerveja tenha nascido no Oriente Médio ou no Egito, o seu surgimento está ligado ao fim do nomadismo, no momento em que o homem passou produzir grãos e alimento para armazenamento e consumo posterior, entre eles o sorgo, a cevada e o trigo. Neste sentido, os primeiros campos de cultura de cereais são datados de 9.000 A.C.

Com o surgimento das cidades, a fabricação de cerveja passou a ser uma atividade bem estabelecida, isto pode ser encontrado em documentos antigos que remetem a toda uma simbologia da cerveja. Para muitos autores, a cerveja teve um papel ainda mais importante que o pão, já que o processo de fabricação é o mesmo e, nos primórdios, a cerveja era também o alimento, e não uma bebida social conforme a tratamos hoje.

Monumento blau mostrando a cerveja sendo oferecida à deusa Nin-Harra. 4000A.C.
Sìmbolo da cerveja encontrado em muitos rótulos do produto. Conhecido como Selo Salomônico, faz parte de tradições do Oriente e Ocidente. Foi utilizado pela Alquimia para explicar como eram produzidas as cervejas na Idade Média

Segundo o arquéologo Bedrich Hroznym na região entre os rios Tigre e Eufrates (Mesopotâmia), os sumérios bebiam o sikaru, onde quase vinte tipos dela eram usadas como remédio para os olhos e a pele, além de pagamento para trabalhadores ou oferenda aos deuses. Na China (2000 A.C) também existia o tsiou, cerveja de painço, oferecida aos ancentrais.

Em Tebas (Egito), há 3400 A.C, eram fabricadas a cerveja dos notáveis e a cerveja de Tebas. Nesse período a cerveja era muito mais popular que o hidromel e o vinho, no entanto, este último ganhou prestígio posteriormente por sua relação com o sangue de Cristo. Ainda assim, a cerveja, por ser mais barata e nutritiva, já que servia também de alimento, começou a ser mais popular entre os pobres. Geralmente era associada aos bárbaros (não romanos).

Dentre todos os registros, o mais importante é aquele constante do Código de Hamurábi, escrito aproxidamente há 1730 A.C. Num dos artigos, o código previa que o cervejeiro poderia ser afogado na sua própria bebida caso ela fosse intragável. Em outro era prevista a pena de morte para sacerdotes encontrados em bares.

Estes registros nos contam que o cervejeiro era um homem de reputação, inclusive podendo ser dispensando do serviço militar desde que produzisse cerveja para os exércitos. Nas casas de prostituição a cerveja era usada pelas mulheres como forma de atrair os clientes, cada prostituta produzia a sua.

Na Idade Média, coube aos mosteiros as primeiras tentativas de produção em massa pois eram um dos poucos locais onde se tinha conhecimento, livros e desenvolvimento de experimentos e receitas. Portanto, se num primeiro momento a Igreja católica “atrapalhou” a disseminação da cerveja promovendo o vinho, num momento posterior teve um papel importantíssimo. Dentre os mosteiros mais famosos estão a Abadia de Sankt Gallen, na Suiça, e a Abadia de Bobbiom, na Itália, inspiração para o ótimo romance “O nome da rosa” de Humberto Eco.

Para finalizar este primeiro post sobre cervejas, vou fechar com o relato dos Santos que estão ligados à história da cerveja, que retiro do Larousse da Cerveja (Ronaldo Morado), principal fonte deste post.

Além de Santo Agostinho, considerado oficialmente o padroeiro dos Cervejeiros e um dos mais importantes filósofos da ciência, Santo Adriano, São Wenceslau, Santo Arnaldo, Santo Arnulf de Metz, e São Columbano. Destaco os três últimos:

“É meu desejo morrer em uma cervejaria. Que coloquem cerveja em minha boca quando eu estiver expirando, para que o coro de anjos entoe: Deus, seja condescendente com esse bebedor”. São Columbano.

Santo Arnaldo (1040-1087) é patrono dos colhedores de lúpulo. Acredita-se que tenha feito o milagre de, enquanto servia ao exército belga, ter conseguido cerveja para as tropas ao rezar e apelar a Deus. Também ficou famoso por curar doentes de uma praga fazendo-os beber cerveja de um tanque no qual havia mergulhado seu crucifixo.

São Arnulf de Metz (580-640) nasceu na Áustria. Realizou o milagre de não deixar esvaziar uma caneca de cerveja que foi servida aos seus seguidores que transportavam seu corpo para ser enterrado na Bélgica.

Interessante não?

Bom, como ainda tenho muita coisa pra escrever, vou deixar para um próximo post e deixar o leitor ir beber a sua cervejinha.

Fonte: Larousse da Cerveja, de Ronaldo Morado.

A geografia, isso serve, antes de mais nada, para fazer ciência

Hoje escrevo em homenagem àquela que tem sido a minha companheira nos últimos 8 anos: a Geografia, aniversariante da semana.

Esta ciência se preocupa tanto com a sucessão de processos sociais quanto a sucessão de paisagens num espaço geográfico, conceito chave para esta disciplina. Começa a ser lecionada no Brasil na década de 30, sob forte tradição francesa La Blachiana no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.

No pós Guerra, por influência americana na ditadura Vargas, História e Geografia passam a adotar conteúdos que iam de encontro a esta tendência, numa tentativa de profissionalizar o currículo e estancar discussões mais profundas sobre as realidades sociais. A história, que desde 1930 tinha tendência a servir os anseios de um governo nacionalista, passou a se esconder atrás de seus heróis e análises econômicas estáticas, nós (geógrafos) passamos a querer decorar mapas e descrever infinitas paisagens. Era muito clara a influência americana, o jeito Roosevelt de governar.

Concomitantemente a tais ideias começavam a surgir as bases de uma disciplina que mais tarde substituiria História e Geografia: a maldição dos “Estudos Sociais”. As escolas passavam a adotar conteúdos homogêneos visando à educação para o trabalho, e só pra isso, afinal de contas, o mundo agora se urbanizava e se industrializava. Quem quisesse discutir a sociedade que fosse para U.R.S.S, ou Cuba, talvez.

Na década de 1970, auge da milicaiada, a lei federal 5692/71 consolidou a criação dos Estudos Sociais, misturando conteúdos que iam desde a Educação Moral e Cívica sob a ótica da História, até conteúdos de Geografia de cunho ufanista e nacionalista (Anauê!), um dos motes principais dos milicos. A história se dividia entre a História Geral e a História do Brasil, como se fosse possível, e a Geografia começava e engatinhar nos sistemas de informação Georreferenciados (SIGs).

Nos Estudos Sociais, os alunos aprendiam que o Brasil era homogêneo e sem conflitos sociais. “A relação entre o branco e o Negro no Brasil colonial era isenta de contradições: era um relacionamento até equilibrado, entre pessoas diferentes, e não entre um grupo na posição de colonizador e o outro na de colonizado, posições que inevitavelmente tornam ilusório o equilíbrio nas relações entre os dois grupos” (Eloisa de Mattos Hõfling). A estereotipagem do brasileiro era algo claro e entrava na ideia de suprimir qualquer discussão acerca de conflitos sócio-espaciais, o índio era o barrigudo que não gostava de trabalhar, o brasileiro “social” era sempre brincalhão e improvisador, já o país, ah, este era maravilhoso, tínhamos a floresta Amazônica (precisávamos defendê-la a qualquer custo!) e não havia terremotos (Não?), não éramos um país abençoado mesmo?

Exemplos:

“Riquezas do Litoral (conversa entre o chá, banana, arroz e peixes):

(…) Arroz – Se há tanto peixe no litoral, por que a população é tão pobre?

Peixe – É porque os habitantes pescam de modo primitivo. Não têm aparelhamento próprio e a pesca não está industrializada.” (http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo4/estudos_sociais/leme.htm)

“Complete corretamente as frases abaixo:

(. . .) b. Quem dirige a escola é o . . . . . . . . . . . . .. (diretor, secretário)

c. Quem ensina os alunos é o . . . . . . . . . . . . . . .. (servente, professor)

e. A limpeza da escola é feita pelos. . . . . . . . . . . . . . .. (serventes, secretário)

f. Quem faz a merenda escolar é a . . . . . . . . . . . . (professora, cozinheira).”

(http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo4/estudos_sociais/leme.htm)

Há quem diga que esta época era melhor que a atual, atucanada (SP), pois o professor desempenhava um papel completamente diferenciado daquele que desempenha hoje, afinal de contas, é difícil segurar a ideologia ganhando R$4,00 de vale refeição e uns mil e tantos para 40 horas, né mesmo Tucanada de São Paulo?

No entanto, com o processo de abertura política na década de 80 e uma maior mobilização da população, a luta da AGB (Associação de Geógrafos Brasileiros) e ANPUH (Associação nacional de História), o jogo começou a mudar. A década perdida, as crises econômicas e sociais que assolaram Brasil e o mundo de uma maneira geral, que viu surgir movimentos de contestação como punks e, mais tarde, grunges, alertaram a população para uma realidade que não poderia mais ser ignorada. As novas formas de comunicação gritavam realidades que passavam a ser discutidas também na sala de aula, e as discussões sobre o retorno da História e da Geografia ao currículo dos anos iniciais de escolarização passaram a ser intensas, foi fundamental a aproximação entre pesquisadores de Universidades públicas e as escolas de nível médio.

Em 1982, a Geografia voltava para a escola. Desta vez não mais preocupada em descrever, mas agora em entender, conversando com outras grandes áreas: Sociologia, Filosofia, História, Antropologia, Biologia e Geologia.

As pesquisas científicas também refletem alguns retrocessos, porém muitos avanços, afinal de contas, não servimos apenas para fazer a Guerra.

Parabéns

Filmes sugeridos:

Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), de Silvio Tendler

Montanhas da Lua (1990), de Bob Rafelson

Xingu (2012), de Cao Hamburger.

O auto da compadecida (2000), de Guel Arraes.