Também tivemos nosso Holocausto

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Este post foi pensado há muito tempo e escrito recentemente. A história dele começou e terminou em 4hs. Enquanto esperava a hora de embarcar no aeroporto, por um milagre achei uma rede de internet e como estava acabando de ler a biografia do Casagrande o Google, essa maravilhosa empresa que todos adoram mas que compra robôs de guerra não sei o porquê, me “sugeriu” ler um livro na promoção chamado Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, gostei do prefácio e resolvi investir. Gostei tanto que li durante o vôo.

Sem mais introduções porque isso aqui não é um artigo científico, o livro trata de um hospício, se é que podemos chamar assim, o Colônia. O Colônia ficava na cidade de Barbacena, em Minas Gerais, e, segundo a autora, mais de 60mil pessoas morreram nas mais variadas condições.

A maioria delas chegaram ali à força. Em vagões de trem, como se fosse um campo de refugiados mesmo. Cerca de 70% não tinha diagnóstico de doença mental. Eram em sua maioria epiléticos, alcólatras, homossexuais, negros, prostitutas, meninas grávidas, filhas de fazendeiros que haviam perdido a virgindade antes do casamento, ou seja, todo e qualquer comportamento diferente ou condenável segundo a ética da época, era sanada com uma internação no Colônia.

As condições eram piores do que um campo de concentração nazista. Comiam ratos, viviam com esgoto a céu aberto em meio a fezes e excrementos de outros pacientes, quando muito, viviam entre os próprios cadáveres dos pacientes. Andavam nus. Ao morrer, davam lucro também, entre 1969 e 1980, 1853 corpos foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país.

Muitas mulheres ali foram estupradas, ora por funcionários, ora por outros pacientes. Muitas delas tiveram seus filhos ali mesmo, e ali mesmo foram roubadas de sua prole. Inclusive, a autora relata que a interna Celita Maria da Conceição passou as próprias fezes no corpo durante o período que esteve grávida no hospital, pois esta seria a única maneira de ninguém machucá-la. Esse era um procedimento comum no Colônia.

Há um documentário no youtube que você pode ver com o seus próprios olhos como era o dia a dia do local. Se tiver estômago, assista.

O livro narra também a história de alguns deste esquecidos da sociedade da época, o que o torna ainda mais sofrível de ler. As lembranças de torturas, eletrochoques e maus tratos são recorrentes.

No livro também há toda uma discussão sobre o tratamento a essas pessoas, como é a assistência, qual o modelo de saúde social que deve ser utilizado. A existência ou não de manicômios desse porte, como o Colônia, só se justificariam no caso de um regime militar mesmo.

Neste post do blog Causas Perdidas, o leitor pode conferir mais algumas fotos do ambiente do Colônia. Clique.

Enfim, pra quem tem culhões, é a minha dica de leitura para conhecer outros Holocaustos que ocorreram no mundo, além daqueles contados pelos filmes de Hollywood.

 

Dostoiévski, a memória da casa dos mortos e um estranho no ninho.

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Aproveitando que a semana promete em relação aos desdobramentos do “Rei dos Camarotes”adorado pela Veja (e que eu acho e desejo que seja fake), falar de Dostoiévski pode agregar valor ao blog.

Este curto e simples post na realidade é um devaneio, uma loucura, uma viagem que convido o leitor a fazer também. Comecei a pensar em como o livro de Dostoiévsky “Memória da Casa dos Mortos” pode ter sido influência para o filme “Um estranho no ninho”, que na realidade é uma adaptação do livro “One Flew over the Cuckoo’s Nest” de Ken Kesey.

O livro relata a história de Alieksandr Pietróvitch (na realidade é o próprio autor) quando este foi mandado a prisão na Sibéria após supostamente ter participado de uma conspiração para assassinar o Czar Nicolau I, dentro de um turbilhão social que vivia o país em revolta contra o feudalismo (czarismo) e a possibilidade utópica do socialismo.

O autor considera que toda a população carcerária está morta, e que quando finalmente consegue a liberdade relaciona-a a ressurreição, por isso o título da obra. O livro em si é conduzido de uma maneira bastante depressiva e por várias vezes o autor questiona a verdadeira eficácia do sistema carcerário, com punições severas que se pensava que regenerava pessoas para devolvê-las ao convívio social. Ele ainda cita a dificuldade da convivência ali entre as pessoas de diferentes classes sociais, inclusive o próprio autor cita que simulava doenças para que pudesse evitar um pouco do cotidiano na prisão.

Pietróvitch (Dostoiévski) era considerado nobre pelos outros presos, o que o tornava uma figura estranha na prisão, um estranho no ninho. Ele era rejeitado por muitos, nas jornadas de trabalho forçado as vezes era poupado porque os outros presos achavam que ele não seria capaz e apenas atrapalharia. Tudo isso em meio a um ambiente frio (em todos os sentidos), instalações precárias, alimentação deficiente e total falta de privacidade. O livro portanto aborda tanto temas políticos como psicológicos.

Dando um salto de 126 anos na história, recupero aqui o filme “Um estranho no ninho” de Milos Formam (também diretor de “Amadeus”) que trata, de uma outra forma, o que Dostoiévsky tratou em sua obra.

Random McMurphy (Jack Nickolson)
Randle McMurphy (Jack Nicholson)

Randle McMurphy (Jack Nicholson) foi condenado dúbiamente por estupro de uma menina menor de idade, para se livrar da cadeia, passa a simular que é louco e consegue ser transferido para um hospício. Detalhe aqui para a atuação dele que é simplesmente fantástica.

Chegando no hospício, McMurphy percebe que sua vida não será fácil ali. O filme foi filmado em um hospício real e passa ao interlocutor a sensação de estar visitando o local numa pura cena real.

A noção de confinamento pelas grades, as pinturas das paredes todas da mesma cor dão total sensação de que você está num local triste. O filme é uma crítica ao tratamento dado a todos aqueles que não se encaixavam nos moldes da sociedade americana à época, não era pré-requisito ter um quadro psicopatológico, bastava apenas “não servir” aos objetivos dos outros.

McMurphy passa a começar a questionar a “ordem” imposta pelo hospital e conquista a amizade de todos os pacientes incitando-os a reclamar. E com isso começam os tratamentos típicos dados naquela época pela psiquiatria: banho gelado, choque elétrico e confinamento. Tratamentos que fariam o paciente “pensar melhor” e aqui aproveito não os parênteses mas as aspas para antecipar um próximo post meu, sobre o livro “O Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, onde mais de 60 mil pacientes morreram num hospital psiquiátrico em Barbacena (MG), atrocidades cometidas lá fariam de Hitler e Stalin pessoas melhores.

Não sei se o estranho no ninho seria Pietróvitch na Sibéria, o personagem McMurphy no hospício ou as pessoas que lá se encontram em relação ao mundo que as rodeia, mas certamente tanto Dostoiévsky quanto McMurphy e seus parceiros de hospício (incluindo o carismático Chief, com quem McMurphy tem vários monólogos) vivem numa prisão e o que os une é a busca pela liberdade.

Por aqui temos o costume de rotular de louco ou loucura tudo aquilo que é ou quer ser diferente, sob este mote aprisionamos, batemos, humilhamos e até matamos.

Para completar ainda dentro do tema, a loucura nunca foi tão bem retratada na sua forma musical como o faz a banda alemã Rammstein, que já antecipo aqui que terá um post especial em breve.

Um Estranho no Ninho Foto 2