A Igreja do Diabo

Diabo e Deus

Já diria o Machado de Assis. Certa vez o diabo resolveu criar sua própria igreja, cansado do seu reinado pouco duradouro, sem organização, cânones ou rituais. Enquanto as outras igrejas entrariam em conflito e se dividiriam, a dele seria única, não crer é mais fácil do que crer de várias maneiras diferentes. Os rituais seriam os mesmos das igrejas tradicionais, só que ao invés do culto a Deus, seria o Diabo o ídolo dos fiéis. Resolveu bater um papo com Deus pra pedir autorização, que por hora achou a ideia interessante.

Sua igreja arrastaria uma multidão de pessoas, até certo ponto inocentes da sua consciência. Os fiéis teriam que não pensar no próximo, a soberba, a luxúria e a preguiça seriam os carros-chefe da nova seita.

Ao invés de pregar o retorno de Deus, o Diabo pregaria o retorno dele mesmo. Além disso, nessa igreja seria ensinado o preconceito, o apego a bens materiais e a mesquinharia.

Fora do conto de Machado de Assis parece que o Diabo realmente conseguiu se instalar mesmo foi no Brasil. E esse Diabo do mundo real é realmente perigoso, ao contrário do Diabo machadiano, que é até simpático e coerente. O Diabo do mundo real é perigoso, astuto e muito inteligente.

Ele usa a carência das pessoas para conseguir fundos para a sua igreja. Além disso, descobriu que esse dinheiro não pode ser tributável, e hoje em dia todas as suas igrejas possuem um poder econômico absurdo, se dão até ao luxo de passar máquinas para que os fiéis comprem seu pedaço no céu e possam pagar com o cartão de crédito. Agora quem ganha também é o banco, outra instituição comandada de perto pelo Diabo.

Outra descoberta importante do Diabo foi que ele pode ser ainda mais decisivo se puder atuar na televisão e na política. E foi o que ele fez, hoje ele já comanda uma bancada importante no congresso brasileiro e algumas redes de televisão, muito embora a sua rede de televisão seja menos suja do que outras, ainda assim, é suja.

Machado de Assis, se fosse vivo ainda hoje, teria que criar um Diabo mais malvado, pois o que ele criou passaria por beato.

A igreja pode ser Universal, pode ser da vitória em Cristo ou Mundial do Poder de Deus, mas quem bota pra fuder mesmo é o Diabo.

Os senhores do terror e do suspense: HP Lovecraft, Alan Poe e Machado de Assis.

Nesta crônica, quero abordar três autores. Especificamente três textos: “O poço e o pêndulo”, de Alan Poe, O Chamado de Cthulhu de HP Lovecraft; e a “A causa secreta”, de Machado de Assis.

Sim, Machado de Assis. Poucos sabem, mas além de ótimos livros, ele também escreveu alguns ótimos contos. Entre eles “A causa secreta”, utilizando e misturando muito bem suspense e sadismo.

Autor de tantas outras boas obras e contos, entre eles “O alienista” e “Igreja do Diabo” em que ele também lança mão de recursos como a ironia. Tal como em Memórias Postumas, quando o autor defunto várias vezes é irônico ao se referir à beleza de Eugênia, ao dizer que ela era bonita, mas era coxa.

O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma.

No conto em questão, Machado de Assis lança mão, além do sadismo, de bastante suspense. Já reli o texto várias vezes, durante a narrativa, o autor várias vezes dá dicas do caráter do personagem Fortunato, que o leitor, numa primeira leitura, dificilmente absorve. Mas ao longo do curto texto, o leitor começa a desconfiar e o clima de suspense só aumenta, culminando com o desfecho final.

Machado consegue juntar suspense, terror e sadismo num só conto de cinco páginas.

Para quem ainda não leu, vale a pena, e é rápido (Já que o homem moderno hoje em dia não consegue ou não tem tempo pra ler nada que tome mais de 10 minutos do seu tempo). Está disponível AQUI.

Capa do filme A causa secreta, baseado no conto de Machado de Assis, dirigido por Sérgio Bianchi (1994).

Já HP Lovecraft lança mão, além do forte suspense, do horror. Suas obras são repletas de mortos vivos, criaturas imaginárias em um clima geralmente apavorante. Em o Chamado de Cthulhu, Lovecraft conta a história de como uma estatueta de barro foi encontrada, e como as pessoas envolvidas nas investigações sobre o que esta estatueta de fato significava foram levadas à loucura e, muitas vezes, à morte. A história se passa na década de 20 e foi produzido um curta metragem (mudo, mas muito bom) baseado neste conto. Existem muitos outros bons contos de Lovecraft, sempre utilizando o horror combinado com algum suspense.

Imagem da criatura Cthulhu, criada por Lovecraft

No conto “O Poço e o pêndulo”, de Alan Poe, fatos históricos e fantásticos são misturados. A história se passa no contexto da Inquisição, onde uma mulher é presa injustamente pelo Inquisidor. A partir daí, se desenvolve um enredo bastante interessante e ambientado na idade Média, com elementos de magia e fantasia, mas que a todo tempo surgem para denunciar algo que de fato ocorreu, as diversas formas de tortura que foram realizadas pela Igreja Católica.

Capa do filme dirigido por Stuart Gordon, em 1991.

Autor de tantos outros textos bons, inclusive muitos deles viraram produções de cinema, como O Corvo, que recentemente estava em cartaz nos cinemas brasileiros.

Confesso, tenho uma predileção por Machado de Assis.