Protestos no Paraná: quando perdemos a vergonha na cara?

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Parece que agora sim podemos comparar uma manifestação que tem objetivo, ideais sérios e uma reivindicação clara com aquela que ocorreu no último dia 15/03/15, onde o objetivo era reclamar contra a falta de rocambole de goiabada nas padarias gourmet. Gritinhos genéricos contra corrupção e incentivos à volta dos militares é fácil amigo, isso não incomoda ninguém diretamente e os políticos acham até graça, a linda e glamourosa manifestação da “família” brasileira pelos bons costumes. Lá os policiais até faziam selfies com os “manifestantes”. Embora a manifestação contra o PT tenha seus motivos, não vi uma manifestação contra Paulo Maluf, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Renan Calheiros ou demais corruptos, talvez esteja aí o contrassenso, exigir correção apenas de uma parcela específica.

A cobertura da mídia no massacre que ocorreu no Paraná, com exceção de Ricardo Boechat na rede Bandeirantes, é inócua mais uma vez. Quando aborda o assunto, o faz de maneira tacanha e dissimulada, chama de confronto uma verdadeira batalha campal onde um dos lados foi massacrado.

Vamos aos fatos, afinal de contas, por que estão ocorrendo as manifestações em Curitiba? Nesta segunda feira a Assembléia Legislativa do Paraná aprovou por 31 votos a 21 o projeto do governo que reforma a Paranáprevidência.  A Paranáprevidência é composta por três fundos: o Militar, o financeiro e o Previdenciário.

Pela proposta, 33.556 beneficiários com 73 anos ou mais seriam transferidos do Fundo Financeiro para o Previdenciário, o primeiro é mantido com recursos do tesouro estadual e o segundo por contribuições dos servidores estaduais. Com essa mudança da origem do custeio, a administração economizaria mensalmente R$ 125 milhões. O governo afirma que o Fundo Previdenciário está capitalizado em mais de R$ 8,5 bilhões em investimentos e que todas as garantias dos funcionários seriam preservadas, os cálculos realizados pelos técnicos garantem a solvência do sistema por 29 anos, esse cálculo está condicionado ao reinício do repasse dos royalties da usina de Itaipu, ou seja, é incerto.

Pois bem, uma mudança como essa requer bastante discussão e esclarecimentos por parte do governo, e é exatamente o que as categorias afetadas queriam, mais tempo para entender a proposta e garantias de que o sistema continuaria funcionando. O projeto foi votado na segunda feira dia 27, com portas fechadas e cerco à assembléia, ou seja, os principais envolvidos foram mantidos fora das discussões inclusive com o apoio de medidas judiciais. O caldeirão esquentou. Na quarta feira (29) os deputados estaduais aprovaram, em segundo turno, as modificações propostas pelo governo, protegidos por um efetivo de 2000 homens da polícia militar.

O massacre ocorreu na praça em frente a Assembléia Estadual do Paraná, estima-se 180 pessoas feridas, 20 policiais e 160 professores. Um cinegrafista da rede Bandeirantes foi atacado por um pitbul da P.M. Bombas de efeito moral, gás de pimenta e violência marcaram a manifestação.

Beto Richa, acuado pelo rombo na sua administração produzida por ele mesmo, ataca os servidores e busca salvação onde é mais frágil a organização. Tudo geralmente estoura do lado mais fraco, ao invés de procurar uma solução administrativa dentro do próprio governo, ou pelo menos discutir a medida com os envolvidos de maneira clara, o governador prefere transferir seus problemas aos outros, por baixo dos panos e sem que ninguém possa acompanhar. Taxar o lucro dos bancos privados ninguém quer, mas mexer nos direitos de trabalhadores é mais fácil, o único jeito que eles tem de reclamar é fazer greve, e se fizerem, tomam porrada da polícia militar.

Importante ressaltar que 17 pms foram presos por se recusarem a atacar os manifestantes, ou seja, cuidado com generalizações*.

Richa ainda culpou os black blocs,  a CUT, o PT, o PSOL, o PSTU e pasmem, até o famigerado PMDB foi incluido no argumento deste senhor. Vejam o nível do governante que o Paraná escolheu para os próximos quatro anos. Por que não votamos as regras de aposentadoria dos poderes executivo, legislativo e judiciário? Óbvio, esses são organizados e estão com a máquina administrativa na mão, sabe quando isso teria futuro?

Isso mesmo.

Onde foi que perdemos nossa vergonha na cara? Agora também batemos nos professores, temos os piores resquícios de um governo fascista atuando em pleno século XXI. Não é motivo de orgulho?

Apenas pensando nos confrontos, a atitude do governo paranaense foi, no mínimo, covarde. Um dia triste com imagens muito fortes.

Não nos esqueçamos também dos professores da rede estadual paulista, que também estão em greve há mais de 30 dias, com uma pauta bem extensa de dificuldades enfrentadas e que precisam ser revistas, mas isso é assunto para outro post.

*Segundo reportagem do uol, os 17 policiais que teriam se recusado a participar da operação jamais existiram, segundo o comentário do Mateus neste post, lá também tem o link para a notícia.

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O Brasil despertou sim, despertou inclusive quem deveria estar dormindo.

Tenho visto muitos textos pela internet afora dizendo que não foi o Brasil que acordou, na realidade vários outros movimentos sempre estiveram acordados. Não concordo com essa perspectiva, acho que o Brasil acordou sim, muito embora não veja a ideia necessariamente como boa.

Todos acordaram, entre eles os bandidos, os nacionalistas, a rede Globo, a rede Record, artistas, enfim, estão todos produzindo e discutindo informação, seja ela errada ou correta. Todos aqueles que sempre odiaram ou pelo menos mostravam indiferença à política brasileira repentinamente decidiram participar, o que é importante e válido.

Ontem decidi ir à manifestação em Campinas-SP para tentar entender melhor o que ocorre, evidentemente ainda tenho enormes dúvidas, mas algumas coisas me incomodam. Vi pessoas cantando o hino (que nunca sequer cantaram, nem quando a seleção de futebol entra em campo), gente pedindo a legalização da maconha, gente cantando que tem orgulho de ser brasileiro. Na realidade percebi que as pessoas não tinham a menor noção do que estavam fazendo ali. Salvo alguns grupos universitários como o da Unicamp, que concentraram longe da confusão da prefeitura.

Isso me preocupa, esse repentino nacionalismo exacerbado e o ódio a qualquer manifestação partidária, principalmente os de esquerda, porque os de direita não apareceriam com suas bandeiras na manifestação. Não quero dizer que haverá um golpe militar, isso não teria respaldo nenhum da comunidade internacional, mas tenho medo do rumo que as coisas estão tomando.

É claro que a classe política é corrupta em sua maioria e temos que brigar com isso no dia a dia e por isso os protestos vieram no sentido de pressionar, no entanto, dissolver o congresso e eliminar os partidos tem outro significado. Ruim com eles, pior sem eles.

Acabo de ver que o MPL retirou-se das manifestações pois o principal objetivo foi alcançado e a situação começou a fugir do controle.

Em Ribeirão Preto-SP, um otário (Alexsandro Ishisato de Azevedo, 37) com grana atropelou e matou um manifestante.

Estas duas ou três semanas têm sido históricas e a manifestação, no meu ponto de vista, continua com um balanço positivo. Quando escrevi no último post questionando qual seria o próximo passo do movimento já tinha uma pulga atrás da orelha. Agora tenho duas.