A fronteira imaginária (?) entre Acre e Haiti

Ufa! Quase dois meses sem postar um texto! Período atribulado entre relatórios, fim de ano, produção de cerveja e por aí vai.

Um assunto tem me chamado a atenção ultimamente. Assisti ao belíssimo filme La Jaula de Oro (2013), do diretor Diego Quemada-Díez e fiquei espantado ao ver como funciona todo o processo de imigração e todo o “trabalho” dos Coyotes (pessoas responsáveis pelo translado até o país de destino). Neste filme, o diretor abordou a travessia de três crianças guatemaltecas do seu país de origem até os Estados Unidos, atravessando todo o México.

Por ali atravessam anualmente 260 mil mexicanos, entre legais e ilegais.

Fiquei pensando no Brasil e a sua continental fronteira. Aí li que mais de 6.000 haitianos entraram no Acre em 2013 e fiquei surpreso pelo volume. Além das fronteiras físicas, existem as que não podem ser vistas, são criadas em função de crises econômicas específicas, identidade e não respeitam a topologia das fronteiras físicas. A fronteira do Haiti com o Acre pode não existir fisicamente, mas nos termos que expliquei acima ela é significativa.

Ilustração produzida pelo portal G1
Ilustração produzida pelo portal G1

Qual é o impacto trazido pela chegada de 6000 pessoas a uma cidade como Brasiléia (AC)? Com uma população estimada em 22.899 pessoas? Atualmente apenas preconceito e problemas de infra estrutura.

No entanto, creio que seja uma oportunidade interessante pela qual os Estados Unidos também passam e se aproveitam, apesar da xenofobia por lá andar solta em estados como Texas, Arizona, Califórnia e Novo México.

Ao contrário de nossa colonização, onde fomos ocupados de maneira exploratória e predatória, temos a oportunidade de organizar algo diferente. Muitos dos haitianos que migram para o Brasil são qualificados, entre eles há muitos engenheiros, professores, advogados, pedreiros, mestres de obras e carpinteiros. Não preciso nem mencionar que o Acre necessita muito de mão de obra qualificada, estendendo-se para Porto Velho (RO) e Manaus (AM), inclusive por conta de obras no rio Madeira, estádio para Copa do Mundo e, o mais importante, o desenvolvimento local.

Me parece aqui mais uma grande oportunidade do Brasil mostrar que trata seus imigrantes de maneira diferente dos demais anfitriões tanto europeus como americanos, sempre muito criticados por nós.

Acabo de ler também que o ministério da Justiça pretende fechar a fronteira temporariamente, aguardemos pra ver se isso é uma medida cautelar ou se mais uma vez vamos preferir ter menos dor de cabeça e simplesmente cortar a oportunidade pela raiz. Aliás, aqui peço ao leitor a chance de desviar do assunto. Críticas ao Brasil e ao brasileiro são comuns e construtivas, ainda mais agora com tanta gente indo para o exterior e vivendo outras realidades, mas essas comparações estúpidas com Estados Unidos, tirando aquelas com relação ao mercado imobiliário, estão dando no saco galera, vamos estudar mais e comparar coisas no mesmo contexto, caso contrário de que adianta tanta gente ir pra fora do país?

Voltando ao assunto do post, se o Acre é esquecido pelos brasileiros, motivo de  piadinhas sobre sua real existência ou não, parece que os haitianos o conhecem muito bem.

O gosto brasileiro por filmes idiotas

Mais uma vez, cá estou eu reclamando das bilheterias de cinema brasileiro. Antes que seja acusado, já vou explicando que outras nacionalidades também são idiotas tanto quanto o brasileiro quando o assunto é cinema, não é um privilégio só nosso. Mas aqui vou explicar minha angústia e espero que também seja a sua, leitor.

Espero conseguir evitar uma análise baseada no falso cult que denunciei aqui em outro post.

Pois bem, dêem uma olhada nesta tabela com as principais bilheterias e rendas do cinema brasileiro neste ano, se o wiki estiver correto, isso vale para o período até 24 de novembro, portanto, mais do que atualizado.

Bilheteria do cinema brasileiro dem 2013
Bilheteria do cinema brasileiro dem 2013

Como podemos observar, os únicos filmes brasileiros que entram na lista são aqueles que usam aquela velha fórmula: comédia água com açúcar de pouquíssima profundidade, geralmente com trailers que são melhores que o próprio filme. Gênero já consagrado por aqui, quanto mais parecido com uma novela global melhor (vide o filme “Se eu fosse você 2”, com mais de 6 milhões de bilheteria). Há quem diga que o único jeito de ter boa bilheteria com filme nacional é com a comédia, já que a pornochanchada perdeu força para a putaria online extra-rápida da internet.

Notem que filmes como Serra Pelada e O tempo e o vento sequer aparecem entre os vinte, e consultando o site adorocinema.com verifiquei que obtiveram 396.569 e 707.901 espectadores, respectivamente. Enquanto isso filmes como Homem de Ferro 3 e Velozes e Furiosos 6 (isso mesmo, é o sexto!) alcançam sem metade do esforço, 7.673.639 e 4.504.799 (Ariano Suassuna até se arrepia!), ocupando entre cinco e 10 salas de cinema enquanto os nacionais no máximo 2.

Aí vem a parte que o leitor pode me ajudar. Por que isso acontece? Será por falta de divulgação? Será por pura ignorância das redes de cinemas que ditam quem vai ficar com mais ou menos salas? Será que os cinemas fazem isso porque do contrário o público  cairia e o brasileiro não gosta de cinema nacional mesmo? Será que o brasileiro ainda tem preconceito com o cinema nacional?

Já diria o Rubem Alves que são as perguntas e não as respostas que movem o mundo. Não precisamos encontrar uma resposta. Por enquanto só constato que preferimos ver um lixo na sua sexta versão a assistir filmes que ajudam a contar nossa história, com ótimos atores (inclusive os globais).

Vou continuar a tortura. O auto da compadecida teve 2.157.000, Olga 3.076.000, Cidade de Deus 3.307.000, Faroeste Cabloco 1.399.000, Corações Sujos, 30.000, Narradores de Javé 66.000, Xingu 367.900. Embora o leitor me lembre que Tropa de Elite 2 teve 11 milhões, eu retruco dizendo que o primeiro teve pouco mais que 2, o que, para um filme deste gabarito, é uma vergonha.

É claro que na lista dos 20 que apresentei existem bons filmes estrangeiros também, mas o que me incomoda é o papel secundário que o cinema nacional-não comédia-romântica-leite-com-pera exerce.

Noto que não há o mesmo preconceito em outros segmentos, a literatura nacional vende tanto quanto a estrangeira ou em números bem próximos, por que há essa resistência com o cinema?

A Igreja do Diabo

Diabo e Deus

Já diria o Machado de Assis. Certa vez o diabo resolveu criar sua própria igreja, cansado do seu reinado pouco duradouro, sem organização, cânones ou rituais. Enquanto as outras igrejas entrariam em conflito e se dividiriam, a dele seria única, não crer é mais fácil do que crer de várias maneiras diferentes. Os rituais seriam os mesmos das igrejas tradicionais, só que ao invés do culto a Deus, seria o Diabo o ídolo dos fiéis. Resolveu bater um papo com Deus pra pedir autorização, que por hora achou a ideia interessante.

Sua igreja arrastaria uma multidão de pessoas, até certo ponto inocentes da sua consciência. Os fiéis teriam que não pensar no próximo, a soberba, a luxúria e a preguiça seriam os carros-chefe da nova seita.

Ao invés de pregar o retorno de Deus, o Diabo pregaria o retorno dele mesmo. Além disso, nessa igreja seria ensinado o preconceito, o apego a bens materiais e a mesquinharia.

Fora do conto de Machado de Assis parece que o Diabo realmente conseguiu se instalar mesmo foi no Brasil. E esse Diabo do mundo real é realmente perigoso, ao contrário do Diabo machadiano, que é até simpático e coerente. O Diabo do mundo real é perigoso, astuto e muito inteligente.

Ele usa a carência das pessoas para conseguir fundos para a sua igreja. Além disso, descobriu que esse dinheiro não pode ser tributável, e hoje em dia todas as suas igrejas possuem um poder econômico absurdo, se dão até ao luxo de passar máquinas para que os fiéis comprem seu pedaço no céu e possam pagar com o cartão de crédito. Agora quem ganha também é o banco, outra instituição comandada de perto pelo Diabo.

Outra descoberta importante do Diabo foi que ele pode ser ainda mais decisivo se puder atuar na televisão e na política. E foi o que ele fez, hoje ele já comanda uma bancada importante no congresso brasileiro e algumas redes de televisão, muito embora a sua rede de televisão seja menos suja do que outras, ainda assim, é suja.

Machado de Assis, se fosse vivo ainda hoje, teria que criar um Diabo mais malvado, pois o que ele criou passaria por beato.

A igreja pode ser Universal, pode ser da vitória em Cristo ou Mundial do Poder de Deus, mas quem bota pra fuder mesmo é o Diabo.