Mais Bukowski e menos religião

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Bukowski deveria ser leitura obrigatória nos vestibulares da vida. No seu romance “Misto quente” o autor trata de forma sarcástica os projetos de vida que nos são vendidos.

Fruto de uma relação entre um pai ex-combatente do exército e uma mãe submissa, Henri Chinaski (alter ego de Bukowski) é humilhado diariamente pela vida. Apanha do pai, é feio, não tem amigos na escola, tem problemas com espinhas e é violento, no fim passa a ser alcoólatra. O autor retrata uma faceta da sociedade americana na década de 30 que hoje grande parte do mundo não tem capacidade para reconhecer. Para a maioria da população não existe o sonho americano.

Uma característica de Chinaski deve ser ressaltada: sua independência moral. Chinaski não tem referenciais morais em que possa se basear, seu pai é um ignorante e sua mãe pouco interfere na sua educação, somando-se a isso a pobreza que o rodeia, a vida removeu do personagem quase 100% do senso crítico do que é certo e o que é errado. Chinaski reage a tudo com o ímpeto de quem não se baseia em nada para tomar decisões, isso não o torna um personagem bom, mas o torna autêntico. Por várias vezes trata com ironia  o sonho americano e o ideal de que naquele país há espaço para qualquer um que tenha disposição para trabalhar duro.

No Brasil vemos o Congresso brasileiro liderado por caras como Eduardo Cunha (PMDB), tentando colocar em prática ações que remontam à idade média como a lei da terceirização; o Estatuto da Família, que ataca os direitos já obtidos fruto de união homoafetiva; redução da maioridade penal para 16 anos e a revogação  do Estatuto do Desarmamento.

Cunha ainda nomeou a servidora Maria Madalena da Silva Carneiro para comandar a Diretoria de Recursos Humanos da Casa, setor com maior dotação orçamentária na Câmara. Madalena disse ao Congresso em Foco que Eduardo Cunha foi o “instrumento de Deus” para sua indicação à diretoria, mas negou que sua escolha tenha caráter religioso. Evangélica, advogada e teóloga, Maria Madalena foi nomeada sem passar por concurso público, seu cargo anterior consistia em guardar os livros nas estantes da biblioteca, anteriormente era responsável pela emissão de crachás.

Pouco tempo antes Eduardo Cunha aprovou projeto de resolução que dá ao próprio presidente da Câmara o poder de escolher o secretário de Comunicação Social da Casa durante o período do seu mandato. O escolhido foi Cleber Verde (PRB-MA), integrante da bancada evangélica e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

Além disso, os três são figurinhas carimbadas nos cultos evangélicos que vem acontecendo na Câmara, lugar este de cunho laico e que não deveria ser usado para tais manifestações religiosas, sejam elas de quaisquer orientação ou vertente ideológica.

Religião e política não deveriam se misturar. De fato, os maiores conflitos que observamos no planeta são oriundos dessa mistura perigosa. A Câmara dos deputados deveria ser o primeiro ambiente do aparato do Estado a não pautar suas decisões baseada em premissas religiosas, como agora acontece indiscriminadamente.

Precisamos de mais Bukowski e menos religião.

Sociologia, Psicologia e Religião

CreationofAdam

Certa vez cursei uma disciplina na Faculdade de Educação da Unicamp e, como parte do processo de avaliação, fiz um trabalho sobre religião e psicologia. Apesar de simples e sem grandes vôos, sempre tive vontade de compartilhar o texto pois foi fruto de uma boa discussão com o docente responsável pela disciplina, o prof. Dr. Valério Arantes.

Reproduzo-o aqui na íntegra.

INTRODUÇÃO

Na linha que mais se difunde no meio acadêmico que é a idéia de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, a contribuição que a psicologia pode dar a questões de ciências sociais e vice-versa é de grande relevância.

Nesse trabalho, tentou-se abordar alguns pontos de vista, passando pela teoria dos clássicos da sociologia e “tateando” o ponto de intersecção com os clássicos da psicologia acerca das questões religiosas e as influências que elas exercem na comunidade científica e no senso comum.

Aqui faremos uma tentativa, e portanto não isenta de erros, de aproximar pensamentos de Max Weber, Freud e Jung sobre a questão da religião na estrutura cognitiva de cada indivíduo e no âmbito social para que possamos extrapolar essas questões teóricas às discussões que se verificam na comunidade científica, se há ou não uma relação excludente entre ciência e religião.

Para tentar fornecer dados que comprovem essas mudanças de racionalidade ao longo do tempo, sobretudo na comunidade científica, usaremos um questionário aplicado em períodos distintos que fornecerão idéias sobre o que muda e como muda a racionalidade no meio acadêmico, inferindo possíveis causas reservando-se no direito de ser em alguns momentos reducionistas, mas sempre com a intenção de contribuir positivamente para o pensamento acerca da temática da relação entre psicologia e religião.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

No atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e informacional em que vivemos, cada vez mais a sociedade dispensa a experiência do sagrado para explicar a realidade, tampouco dar sentido á vida.

A sociologia de Weber falou em “desencantamento do mundo”, uma vez que todo o progresso científico impôs uma nova racionalidade á sociedade, fazendo com que parte da magia, misticismo, crendices e costumes populares perdessem grande força, libertando o homem das interferências dos deuses.

Entretanto, o próprio Weber fala da retomada da força das religiões no âmbito do sistema de produção capitalista, relatando que a igreja protestante, por vários fatores, foi a que mais conseguiu “adaptar” seus dogmas a esse novo regime, através da ascese intramundana e o trabalho como instrumento de salvação dos pecados.

As definições de religião e magia nos estudos da religião feitos pelas Ciências Sociais têm permitido um avanço no campo da epistemologia, o que tem auxiliado as aproximações científicas de outras ciências ao fenômeno religioso. Trazendo para o olhar da psicologia, Jardilino (2001) em lugar de opor magia e ciência, prefere colocá-las em paralelo, como duas formas de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos.

Nos estudos religiosos realizados pela psicologia, a linha mestre de pesquisa vai desde a psicologia social e clínica à propriamente uma psicologia da religião. O exemplo mais notório vem de Freud, que explicita por meio da teoria psicanalítica que o indivíduo concebe a idéia de Deus à imagem e semelhança de seu pai carnal, que sua atitude de respeito em relação à Deus depende daquela que ele adota em relação à mesma pessoa terrena. Assim, para Freud, a idéia de Deus não passa de sublimação do Pai.

Para Freud, as crenças religiosas estão ligadas às sensações de privação, abandono e medo dos seres humanos, sendo reação alucinatória a estas, bem como um meio de manter as massas sob controle. Ao participar de uma religião, o homem, em muitos casos, consegue evitar cair numa neurose individual, porém, para nada mais, além disso, serve a religião.

Os estudos sobre esse fenômeno têm sua base inicial na corrente psicossocial que tratam da experiência religiosa, denominada de Psicologia da religião. Esta abordagem procura dar uma definição, na perspectiva e com os métodos empíricos da psicologia, da experiência social da religiosidade e do fenômeno religioso.

Para Carl Gustav Jung, as manifestações religiosas e simbólicas sempre foram objeto de grande atenção e pesquisa. Foi através de uma observação atenta da análise destas representações na mente humana que ele pôde reconhecer como os conteúdos da alma e as manifestações coletivas embasam as mais diversas religiões.

Jung via a religiosidade como uma função natural e inerente à psique. Chegava a considerá-la, como aponta Silveira (1994), um instinto, um fenômeno genuíno. A religião era vista mais como uma atitude da mente do que qualquer credo, sendo este uma forma codificada da experiência religiosa original. “Encaro a religião como uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio“, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados.” (Jung, 1995, p.10).

O próprio Jung menciona a importância da religiosidade para o ser humano, ao afirmar (Jung apud. Silveira, 1994): “Entre todos os meus doentes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão de sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu em todos os tempos a seus adeptos, e nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto é, não depende absolutamente de adesão a um credo particular ou de tornar-se membro de uma igreja.” (pp. 153-154)

Jung considerava todas as religiões válidas, visto que todas recolhem e conservam imagens simbólicas advindas do inconsciente, elaborando-as em seus dogmas e, assim, realizando conexões com as estruturas básicas da vida psíquica. “As organizações ou sistemas são símbolos que capacitam o homem a estabelecer uma posição espiritual que se contrapõe à natureza instintiva original, uma atitude cultural em face da mera instintividade. Esta tem sido a função de todas as religiões.” (Jung, 1997, p. 57)

Jung entendia o termo como religio e religare, ou seja, tornar a ligar. E via a religião exatamente com a função de ligar o consciente a fatores inconscientes importantes. Para Jung, a libido que constrói imagens religiosas, representa o laço que nos liga à nossa origem. Para designar a vivência do contato com tais fatores e a forte emoção descrita pelos que a vivenciam, Jung apropriou-se do termo criado por R. Otto: numinoso. Via, então, a religião como uma observação conscienciosa e acurada do “numinoso”, ou seja, um efeito dinâmico ou existência que domina o ser humano; é independente de sua vontade.

            Voltando agora para o debate entre religião e ciência, desde cedo a Psicologia teve algum contato com a questão, em 1914, o psicólogo suíço, James Leuba (1916), realizou uma pesquisa empírica sobre “a fé (dos cientistas) num Deus que responde à prece e promete a imortalidade”, isto é, o Deus do cristianismo. Sua amostragem foi de 1000 cientistas norte-americanos, físicos e biólogos, aleatoriamente selecionados do American Men of Science. Essa pesquisa, de natureza “psicológica, antropológica e estatística”, se antecipava à vertente de pesquisa que se interessa pela dinâmica psicológica do cientista em relação ao objeto religioso. Confirmação disso é a questão proposta por Leuba acerca do desejo de imortalidade, os resultados encontrados são apresentados na Tabela 1 em uma comparação com o mesmo questionário aplicado no ano de 1998.

 
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 Analisando as duas tabelas, podemos inferir que a crença dos grandes cientistas diminuiu paulatinamente no período apresentado, e a descrença teve um forte aumento. Algo normal se considerarmos o intervalo de anos considerado e todo um contexto de mudanças na comunidade científica e na sociedade para um período de quase 100 anos.

 Apontar alguns fatores seria muito fácil, o aumento da racionalidade científica, as coisas cada vez mais são explicadas pelo viés físico do que por explicações abstratas, pelo menos é isso que se verifica na maioria das sociedades modernas. No entanto, a tabela amostrada é mais um indicativo que, como muitos autores no campo das teorias e métodos da ciência já falaram, a ciência cada vez mais ganha status de religião, como tantas outras que andam surgindo e crescendo pelo território mundial.

 A crença na ciência como religião pode ser observada muitas vezes no senso comum, onde a explicação verdadeira para os mais variados fenômenos só pode ser encontrada na ciência, ela apresenta métodos e experimentos que tem o poder de comprovar se algo é verdadeiro ou falso, ora, esse papel na idade média não era exercido pela igreja? Sobretudo a católica? Isso prova que cada vez mais a religião está perdendo campo no sentido de nossas estruturas cognitivas para dar lugar a uma racionalidade científica, pelo menos é o que se verifica empiricamente no meio acadêmico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 É importante ressaltar que o objetivo aqui não foi o de denunciar o enfraquecimento do poder que a religião exerce na sociedade, e sim numa comunidade restrita que é o meio científico, embora se possa extrapolar de maneira cuidadosa para a sociedade, pelo menos nas classes dominantes de poder econômico maior.

 No caso de classes com menor poder econômico, verifica-se muitas vezes a necessidade ás vezes até inconsciente pelo apego a uma religião como forma de “ajuda” ou estímulo para alcançar um nível de vida melhor, e é justamente esse o público alvo de algumas religiões que conseguiram se estabelecer a partir da década de 90, cobrando para prometer “Milagres” e enriquecendo a vida de algumas pessoas.

 Nesse sentido, as primeiras abordagens no campo da psicologia que foram feitas no início desse trabalho são de grande importância para compreendermos os desdobramentos dessas questões na sociedade, só conhecendo um pouco as relações entre a estrutura cognitiva dos indivíduos e sua religiosidade que se pode argumentar sobre esse ou aquele ponto de vista.

BIBLIOGRAFIA

PAIVA, Geraldo José de. Ciência, religião, e psicologia: conhecimento e comportamento. Psicol. Reflex. Crit., 2002, vol.15, no.3, p.561-567. ISSN 0102-7972. Disponível em www.scielo.br

ARAÚJO, Aline Rocha. Psicologia da Religião. Disponível em www.rubedo.psc.br.

JARDILINO, José Rubens & SANTOS (orgs), Gerson Tenório. Ensaios de Religião e Psicologia. Editora Plêiade, São Paulo, 2001.