A Berlim que eu conheci

Este ano marcou as comemorações dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da divisão entre países socialistas e capitalistas no pós guerra, denominado Guerra Fria.

Berlim foi praticamente loteada no fim da segunda Guerra Mundial, os exércitos dos países que haviam ocupado a cidade se estabeleceram em determinadas regiões e passaram a governar exercendo o poder político e ideológico que marcaria o conflito no pós-guerra.

774px-Berlin_Blockade-map.svgEm 1949 os aliados oficialmente se retiraram de Berlim ocidental, após uma grande esforço para suprir a cidade com matéria prima, comida, e outras ajudas essenciais, todo este esforço custou aos aliados entre 2.2 e 5 bilhões de dólares, onde um avião pousava a cada 30 segundos no lado ocidental de Berlim.

Toda a ajuda internacional somadas a incompetência de um modelo que apesar de socialista era extremamente autoritário, fizeram com que diferenças entre os dois lados de Berlim surgissem e fossem evidentes: o lado capitalista, puxado pela ajuda internacional prosperava e entregava uma promessa de liberdade aos cidadãos; o lado oriental apesar de não passar dificuldades extremas evoluía num ritmo bem menos acelerado.

Com as diferenças tornando-se cada vez mais claras, começaram a ocorrer movimentos migratórios do lado oriental para o ocidental, isso começou a preocupar Stalin e os governantes da GDR (German Democratic Republic), que era governada pelo Partido Socialista Unificado da Alemanha desde as eleições de 1949, resultado da União do Partido Comunista Alemão e do Partido Social-Democrata Alemão, antes perseguidos por Hittler no regime fascista. Tal preocupação tomou corpo em 1961 com a construção do muro de Berlim, que impedia que os cidadãos do lado oriental pudessem passar ao lado ocidental, movimento este permitido nos anos anteriores.

Visitando os museus da cidade, que são ótimos e numerosos, percebe-se que há um certo rancor principalmente quando a história do vencido é contada, ou seja, quando se caracteriza o regime socialista. De fato, o regime foi extremamente autoritário, a STASI, Ministério para a segurança do Estado agia de forma inteligente e investigativa com apoio inclusive da KGB (Orgão de inteligência russo). Perseguia e torturava aqueles que “conspiravam” contra o Estado ou aqueles que planejavam abandonar Berlim oriental, para melhor entender a sua atuação, sugiro o filme “The Lives of Others”, lançado em 2006 que retrata um caso de investigação de pessoas ligadas ao teatro e a literatura que eram espionados pela STASI.

No entanto, governos autoritários de direita já ocorreram, sobretudo na nossa América Latina e no Brasil, que acabou de publicar o relatório resultado das pesquisas realizadas pela Comissão da Verdade. Quando se compara os indicadores sociais de Berlin Oriental percebe-se que não eram tão atrasados assim, principalmente se comparados com outros países àquela época, inclusive as diferenças em relação ao lado ocidental existiam mas também não eram drásticas.

Além disso, o regime socialista tinha como objetivo o longo prazo, no entanto, a sociedade e os cidadãos daquela época não podiam esperar, a repressão também jogou contra e uma série de manifestações ocorreram de ambos os lados. É claro que estou aqui fazendo algumas reflexões de alguém que passou alguns dias em Berlim e não pode entender como foi esse período da história, no entanto, acho interessante compartilhar essas inquietações porque acho que o maior erro do regime foi o autoritarismo, aliado à influência russa, o que implodiu o regime socialista em Berlim oriental.

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Expectativa de vida em Berlim Ocidental e Oriental. Notar que apesar de existir diferença, os dados da DDR eram bons para o período, tanto isso era verdade que estes dados eram usados pela propaganda comunista soviética. Foto tirada no museu da Alemanha Oriental (http://www.ddr-museum.de/en.

Este post tem o tom de uma provocação, chamando o leitor a entender que há necessidade de obter informação de ambos os lados da história, pois ela contada pela ótica do vencedor provavelmente omitirá alguns dados que são importantes. Quando se visita Berlim atualmente, se tem a idéia de que nada funcionava no lado oriental, no entanto, aprofundando um pouco mais no tema fatalmente chegamos a conclusão de que isso não é totalmente verdade.

Os setores de educação funcionavam muito bem, não a toa eram alvo de propaganda do regime. A questão da igualdade sexual era abordada nos primeiros anos da história escolar, o estado já tinha políticas para métodos contraceptivos e aborto, além disso, o sexo antes do casamento era algo aceito pela sociedade.

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Foto também do DDR museum (http://www.ddr-museum.de/en).
Foto tirada no DDR musem (http://www.ddr-museum.de/en). Não sei qual parte do trecho é verdade, se é o último parágrafo ou o resto do texto.
Foto tirada no DDR musem (http://www.ddr-museum.de/en). Não sei qual parte do trecho é verdade, se é o último parágrafo ou o resto do texto.

Por fim, aqui não discuti a Alemanha antes de 1945 e as atrocidades cometidas contra os judeus, no entanto, percebi que Berlim apesar de extremamente organizada, disciplinada e bonita, deixa um pouco a desejar quanto a um aspecto que não se pode medir: relações sociais.

Senti que ali há uma gélida e estática maneira de conduzir as relações pessoais, não há muita conversa, não há troca de gentilezas entre as pessoas, enfim, em comparação com os EUA, Portugal, Argentina, Chile e França, países que já visitei, este foi o local onde mais me senti estrangeiro. Aqui o leitor pode discordar porque cada um sente e percebe as coisas de maneira diferente.

O post foi longo, mas espero que tenha despertado algo neste que agora lê estas últimas linhas: raiva, concordância, curiosidade e discordância, prefiro os dois últimos.

P.S: Nos protestos contra a eleição da Dilma também poderiam gritar “Volta pra Berlim Oriental” ao invés do já batido “Volta pra Cuba”. Em tempo: o dia que o PT for socialista/comunista eu passo a ser corinthiano.

Ucrânia e a reedição dos confrontos entre URSS e EUA

Ucrânia - palco dos conflitos
Norte do Cáucaso e Ucrânia – palco dos conflitos

Mais um capítulo de livros didáticos de Geografia está sendo criado nas últimas semanas. Os conflitos na Ucrânia são muito mais de ordem geopolítica, catalisados pela rivalidade entre Rússia e Estados Unidos, do que ideológica, menos ainda pelo direito à manifestações públicas.

A crise ucraniana teve seu estopim com a queda do presidente Viktor Yanukovich em 22 de fevereiro, sob o olhar calmo e sínico de EUA e UE (União Europeia), mas as tensões já vinham desde a sua intenção velada de não assinar o tratado que selaria a entrada do país na União Europeia. Aliado russo, imediatamente provocou uma série de reações na geopolítica praticada por Putin, experiente estadista formado na KGB.

Após o que Putin chamou de golpe de Estado, John Kerry, secretário de Estado dos EUA, manifestou seu apoio ao governo de transição ao acenar com 1 Bilhão de dólares em ajuda. Não é de hoje o interesse de EUA e, é claro, da Rússia no potencial energético da região do Cáucaso, a diferença é que os russos historicamente tem sido aliados a estes países, a exemplo da URSS, já os americanos, gozam de toda a desconfiança dos governantes locais. O conflito também é percebido claramente nos jornais brasileiros, enquanto a Folha enfatiza o lado russo, a Carta Capital enfatiza os interesses americanos, embora com um teor muito mais profundo quando aborda o tema.

A decisão de proibir manifestações na capital Kiev é mais um ingrediente no caldeirão do conflito. Caldeirão também étnico, pois há um claro conflito ali entre Ucranianos do oeste e do leste (de origem e lingua russa). A Criméia, por exemplo, região que já fez parte da Rússia até 1954, clama pelo separatismo e terá um referendo que decidirá se a região será anexada à Rússia ou não, documento que já está nas mãos de Putin.

Trata-se de uma ameaça não só para EUA mas também à UE, que pode ver a Rússia, em ampla recuperação econômica após a crise da década de 90, restituir sua influência no Cáucaso e também no leste europeu. Para o cientista político, historiador e professor aposentado de política exterior do Brasil Luiz Alberto Moniz Bandeira, o conflito é um desdobramento ainda da revolução Laranja de dez anos atrás, onde Yushchenko e Yanukovich disputaram uma eleição cercada de fraudes e tráfico de influência tanto de russos quanto americanos e europeus. Yushchenko era a favor da adesão à OTAN, mas teve que mudar de posição em virtude da pressão russa, parece que é o que também ocorre agora, já que EUA e UE não tem condições de reerguer a Ucrânia em virtude da crise financeira que atravessam. Além da influência na Criméia, os russos possuem base naval em Sebastobol e um porto em Odessa desde o reinado de Catarina, a Grande (1762-1796), ou seja, controlam as saídas para o Mar Negro e os acessos às zonas ricas em recursos naturais como petróleo e gás.

Portanto, ao contrário do que boa parte da imprensa publica, as armas de Putin não estão baseadas em tanques, armas e navios, mas na diplomacia e na propaganda política. Putin tem resolvido conflitos sem ter que realizar um disparo sequer, no entanto, acreditar que os russos planejam acabar com o conflito por pura bondade é o mesmo que acreditar que EUA e UE não possuem interesses ali.

Voltando à cobertura dada pelas mídias, cito aqui o texto publicado pela Forbes, que até ia bem, embora preenchido de asneiras, até este parágrafo:

Most of all, we should approach the current crises with cool heads.  In time, it too will pass.  Russia will remain a corrupt kleptocracy, waiting only for the next oil glut to descend once again into chaos.  We in the West, and hopefully in Ukraine as well, will be free to pursue our dreams in a global community of likeminded nations.

Apenas um exemplo de como a mídia pode ser tendenciosa e, por que não, burra.

Caro leitor, não há mocinhos nessa história, nem Putin e muito menos americanos ou UE.

Sugestões de leitura:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/03/1421408-parlamento-da-crimeia-decide-por-unanimidade-sua-incorporacao-a-russia.shtml

http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-segunda-guerra-fria-4728.html

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/05/clash-crimea-western-expansion-ukraine-fascists

http://www.forbes.com/sites/gregsatell/2014/03/04/5-important-facts-that-the-western-press-is-getting-terribly-wrong-in-ukraine/?utm_campaign=forbesfbsf&utm_source=facebook&utm_medium=social