Os senhores do terror e do suspense: HP Lovecraft, Alan Poe e Machado de Assis.

Nesta crônica, quero abordar três autores. Especificamente três textos: “O poço e o pêndulo”, de Alan Poe, O Chamado de Cthulhu de HP Lovecraft; e a “A causa secreta”, de Machado de Assis.

Sim, Machado de Assis. Poucos sabem, mas além de ótimos livros, ele também escreveu alguns ótimos contos. Entre eles “A causa secreta”, utilizando e misturando muito bem suspense e sadismo.

Autor de tantas outras boas obras e contos, entre eles “O alienista” e “Igreja do Diabo” em que ele também lança mão de recursos como a ironia. Tal como em Memórias Postumas, quando o autor defunto várias vezes é irônico ao se referir à beleza de Eugênia, ao dizer que ela era bonita, mas era coxa.

O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma.

No conto em questão, Machado de Assis lança mão, além do sadismo, de bastante suspense. Já reli o texto várias vezes, durante a narrativa, o autor várias vezes dá dicas do caráter do personagem Fortunato, que o leitor, numa primeira leitura, dificilmente absorve. Mas ao longo do curto texto, o leitor começa a desconfiar e o clima de suspense só aumenta, culminando com o desfecho final.

Machado consegue juntar suspense, terror e sadismo num só conto de cinco páginas.

Para quem ainda não leu, vale a pena, e é rápido (Já que o homem moderno hoje em dia não consegue ou não tem tempo pra ler nada que tome mais de 10 minutos do seu tempo). Está disponível AQUI.

Capa do filme A causa secreta, baseado no conto de Machado de Assis, dirigido por Sérgio Bianchi (1994).

Já HP Lovecraft lança mão, além do forte suspense, do horror. Suas obras são repletas de mortos vivos, criaturas imaginárias em um clima geralmente apavorante. Em o Chamado de Cthulhu, Lovecraft conta a história de como uma estatueta de barro foi encontrada, e como as pessoas envolvidas nas investigações sobre o que esta estatueta de fato significava foram levadas à loucura e, muitas vezes, à morte. A história se passa na década de 20 e foi produzido um curta metragem (mudo, mas muito bom) baseado neste conto. Existem muitos outros bons contos de Lovecraft, sempre utilizando o horror combinado com algum suspense.

Imagem da criatura Cthulhu, criada por Lovecraft

No conto “O Poço e o pêndulo”, de Alan Poe, fatos históricos e fantásticos são misturados. A história se passa no contexto da Inquisição, onde uma mulher é presa injustamente pelo Inquisidor. A partir daí, se desenvolve um enredo bastante interessante e ambientado na idade Média, com elementos de magia e fantasia, mas que a todo tempo surgem para denunciar algo que de fato ocorreu, as diversas formas de tortura que foram realizadas pela Igreja Católica.

Capa do filme dirigido por Stuart Gordon, em 1991.

Autor de tantos outros textos bons, inclusive muitos deles viraram produções de cinema, como O Corvo, que recentemente estava em cartaz nos cinemas brasileiros.

Confesso, tenho uma predileção por Machado de Assis.

Mistério na Sorocabana

O mistério paira no ar. O que relatarei aqui mais parece um conto de horror e suspense, ao melhor estilo H.P Lovecraft, Edgard Alan Poe ou Machado de Assis, mas foi apenas uma partida de futebol.

Ao chegar de viagem, li um email de um amigo alertando para o que havia ocorrido na partida entre Atlético Sorocaba X União Barbarense, pelo campeonato paulista da série A-2. Logo pensei: mais um devaneio de um comercialino como eu, machucado pelo time tentando descontar sua raiva em outros.

Não obstante, comecei a ler a matéria indicada e passei a entender o porquê do alarde. Vamos aos fatos:

Domingo, 30 de Abril. O Atlético Sorocaba jogava contra o União Barbarense pelo campeonato paulista da série A2. Apenas um parêntese, para quem não sabe o time de Sorocaba-SP é apadrinhado pelo sul-coreano Reverendo Moon (Sun Myung Moon), que possui uma seita bastante influente no Brasil, inclusive possui grandes extensões de terra no pantanal brasileiro.

O Atlético estava em situação complicada. A Ferroviária perdia por 3 a 0 para o Audax (Pão de Açúcar) e obrigava o Atlético a fazer 3 gols na União Barbarense para virar o jogo, pois esse, aos 24 do segundo tempo, estava 2 a 0 para o União.

Agora começa o suspense. A Ferroviária descontou, 3 a 1. Sendo assim, o time de Sorocaba precisava agora de 2 gols, pois empataria em pontos (10 a 10), em saldo de gols (3 a 3), mas subiria devido aos gols marcados (12 a 11), em relação ao Audax, respectivamente.

Como não vi o jogo na íntegra, não poderei relatar o quão misteriosas foram as 3 expulsões dos atletas do União Barbarense e as 2 do Atlético Sorocaba.

Aos 85 minutos – Gol do Atlético Sorocaba, após confusão na área, a bola sobrou pro beque empurrar pro gol. Após o gol, houve confusão e 4 expulsões, o árbitro decidiu dar 9 minutos de acréscimo.

Aos 97 minutos atingimos nosso clímax. Debaixo de um nevoeiro denso, silencioso, gelado e sinistro, um jogador do Atlético cruza a bola pra dentro da área numa tentativa desesperada de empatar, o zagueiro tenta cortar com o peito e o juiz assinala penalty impiedosamente. Aos 99, gol e acesso do time sorocabano à série A1.

O mistério e o nevoeiro ainda impedem a investigação do fato ocorrido.

Este é um caso que somente a chata e pedante frieza britânica de Sherlock Holmes poderia resolver, talvez uma nova visita ao Brasil, um novo Xangô de Baker Street, agora em Sorocaba-SP. Ou seria melhor no Pantanal? Num cenário de maior vastidão e suspense, pantanoso, com criaturas das profundezas praticando as piores maldades…